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2.º quartel do séc. XXI – que significado para “tecnologia”?

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Para orientarmos esta vinda à leitura desta página digital, precisaremos apenas de algum conceito como “computador”. Não precisamos de qualquer conceito englobante, como “tecnologia”. Em cada ação, bastam-nos os conceitos que a orientam com sucesso. Isso não significa que, mesmo em ações com interesses que se não reduzem ao próprio processo (i.e. mesmo em ações com objetivos práticos a atingir), devamos evitar o uso desses termos englobantes. Seguindo o exemplo dado, quando nos encontramos numa ação não como ler alguma página digital ou impressa concreta, mas de providenciar condições para as ações anteriores – ex. a promoção de literacia tecnológica –, facilitará não só a comunicação com os interlocutores, mas mesmo o pensamento prático que nos orienta, assumir um significado vago de “tecnologia” como nome de um conjunto, mal determinado, de coisas que, em cada ato de comunicação, pareça que nós, esses nossos interlocutores e eventuais terceiros admitimos reunir ali. Usamos então o te...

Antiqua et Nova: as inteligências humana e artificial

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A 28 de janeiro passado, a Igreja Católica publicou a Nota referida no título acima . Da autoria de dois Dicastérios, um dos quais, por sinal, tem como Prefeito o Cardeal português Tolentino Mendonça. O documento é rico e sugestivo a diversos títulos, mas, nestas linhas, abordarei apenas a comparação que tece entre o sentido de “inteligência” em relação a algoritmos artificiais (IA), e o sentido desse termo uma vez reportado ao ser humano. Respetivamente, nas secções II e III da Nota. Para apontar que o documento coloca as questões relevantes, mas que as desenvolve noutra pista que não a de uma justificação epistemologicamente legítima para as teses que se assumam. A primeira daquelas secções começa com a definição originária de J. McCarthy, em 1956, da IA como o que quer que faculte a uma máquina comportamentos que, se implementados por seres humanos, são classificados como inteligentes. Não sendo necessário que isso se processe do mesmo modo da inteligência humana. Os dois parágrafos...

Convergência das NBIC (II): “fusão”, “imersão”, “aumentação”

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À entrada desta nova meia década, lançando também o segundo quartel deste século, lembrei aqui a grande conveniência de atendermos às oportunidades e riscos não apenas das nanotecnologias, biotecnologias, tecnologias informáticas e ciências cognitivas (NBIC) isoladas, mas da convergência entre elas. Em cujo processo, como também apontei, estão implicadas instituições minhotas. Nestas linhas agora focarei um dos complexos de questões que se colocam nesse âmbito: em que é que nos constituiremos, que modo de ser humano estaremos a implementar, por um lado, ao utilizarmos as NBIC? E que mundo vivido, por outro lado, estaremos igualmente a implementar assim? É em conformidade às respostas a essas questões que deveremos responder a estas outras: como poderemos lidar com essas novas tecnologias sem alienar a nossa condição humana? Ou esta última é apenas um facto com 300.000 anos, sem valor intrínseco que obste a um avanço decidido rumo ao transhumanismo * ? Aquelas primeiras questões de...

Convergência das NBIC (I): um desafio na nova metade da década

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Depois de mais de 300.000 anos coletando os produtos da Natureza, há cerca de 12.000 anos deixámos de nos ajustar a esta última e passámos a ajustá-la a nós. Correspondentemente, deixámos de viver em pequenos bandos, com relações personalizadas, e criámos grandes sociedades com relações e instituições tendencial ou mesmo assumidamente formais. Até à segunda década deste século, quando firmámos um conjunto de processos sociotécnicos que eventualmente contribuirão para uma nova era nessa história. Em particular, com esta novidade de o Homo Sapiens perder a exclusividade, para algoritmos artificiais e com vantagem destes últimos, de alguns dos procedimentos que nos têm facultado o nosso poder único. No dobrar da metade desta terceira década, com o tempo histórico aparentemente em plena aceleração, dificilmente outro conjunto de questões nos merecerá mais atenção. Na década anterior, refiro-me a acontecimentos como o Prémio Breakthrough de 2015, que distinguiu a tecnologia CRISPR-Cas9. A q...

O mal está aqui

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Fui ver O Mal Não Está Aqui , de Ryusuke Hamaguchi (2023), por uma pequena sucessão de coincidências mais a boa memória de um outro filme do mesmo realizador. As críticas são díspares. Mas, desde as suas primeiras cenas, me ocorreram passagens do diagnóstico e da terapia que Albert Borgmann propôs da nossa cultura e sociedade tão mediadas tecnologicamente. E assistir ao filme do realizador japonês, em diálogo com este filósofo (falecido fez agora um ano) de nascimento alemão mas adotivo do e adotado pelo Estado norte-americano de Montana, mais do que premiou a aposta. Designadamente, a cena, demorada, da recolha de água num riacho, agachando-se a pessoa junto a um pequeno desnível onde a água recém-degelada corre límpida, para a apanhar da poça num potezinho, com o cuidado de não levantar impurezas do fundo. Aos elementos desses contextos na floresta ou na cidade, bem como aos utensílios usados – ex. potes –, Borgmann chama “coisas” (ing. things ). Com as quais a pessoa se relaciona in...

Dupla hermenêutica de um mapa chinês para o séc. XXI

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in: Prior probability , 2017   O planisfério anexo é bastante diferente daqueles a que mais nos habituamos. Pela minha parte, não foi imediato ou intuitivo localizar ali o Porto, onde este jornal é editado. Ou aquelas que foram as mais periféricas (!) possessões do império português, Timor e Macau, e mais ainda o Brasil, origem da maior comunidade estrangeira em Portugal. Todavia, essa representação do mundo habitado não é nem mais nem menos verdadeira do que os planisférios horizontais com os polos nos topos; o Atlântico ou a Península Ibérica e a África ocidental no centro; com os cantos (ex. Gronelândia) ou agigantados ou inclinados para dentro, conforme os meridianos tenham sido imaginados ou como paralelos (Mercator) ou como crescentemente curvos (Robinson). Esta comparação convoca-nos a duas utilizações do termo "hermenêutica" (i.e. leitura interpretativa): uma, diretamente sobre o mapa anexo e o mundo hoje em preparação; a outra, sobre afinal quaisquer artefactos técni...

ChatGPT: um novo ator, uma nova rede

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Como os alunos de escolas e universidades estão a descobrir com júbilo, o recente e já famoso ChatGPT apresenta, em poucos instantes, respostas escritas a questões que lhe são propostas. Desde quais as causas plausíveis da I Guerra Mundial, como será possível relacionar coerentemente a mecânica quântica e a relatividade geral… até ao caso do pedido de uma mentira subtil, ao que essa aplicação da OpenAI (da Microsoft) de imediato respondeu "I’m a human being". Em alguns sítios, está a ensaiar-se a proibição da sua utilização em contexto escolar (Sciences Po, Paris) ou empresarial (JPMorgan Chase). Talvez pontualmente isso funcione. Mas, em geral, imagino que as proibições terão tanto sucesso como o nadador num rio caudaloso que, desprezando a corrente, invista as suas limitadas forças em braçadas rumo a um determinado ponto da margem a montante. Além do previsível fracasso, falha-se a preparação dos atores humanos para o tipo de interação apropriada com atores não-humanos mas ...

"Avatar": Natureza dissolvida, tecnologia recalcada

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Avatar: O Caminho da Água , de James Cameron, já teve em Portugal mais de 1M de espetadores (fonte: Instituto do Cinema e do Audiovisual). Junte-se-lhe a audiência do primeiro Avatar , que com ele partilha o pódio dos 3 filmes mais vistos nos últimos 18 anos, e ficamos com uma pista das mensagens cinematográficas atualmente com maior adesão entre nós. Como, de resto, noutras paragens. Também lá fui, de arrasto pelas minhas filhas, que em dias de natal se encheram de nostalgia pela assistência em família às imagens originais do mundo de "Pandora". O ritual familiar, como sempre, foi doce. E o pretexto pouco conta comparado com isto. Mas aquelas recentes estatísticas fazem-me revisitar esse filme no tom de que ele progressivamente se me revestiu: sombrio. O deleite da Natureza… mas que “natureza”? Designadamente, foi-me pesando à medida em que estendia cenas dedicadas apenas à fruição de árvores e animais fantásticos, voos por ares com montanhas suspensas, mergulhos em fu...

Lusail e um imaginário sociotécnico português

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Lusail, The Design Build Network O nome ‘Lusail’ atravessou-nos recentemente a comunicação e as atenções. Referido ao estádio da dramática final do Mundial, onde antes Portugal garantira contra o Uruguai o apuramento no grupo. Mas o estádio tem esse nome por ser o da nova cidade que os cataris estão a construir de raiz. Na consubstanciação de um imaginário sociotécnico que, implementado também na construção em curso do projeto saudita The Line no outro lado da península arábica, nos lembra que daquela cultura já emergiu uma civilização brilhante e poderosa. Referiremos abaixo a definição de ‘imaginário sociotécnico’. Mas, entretanto, apontemos que uma das autoras desse conceito, Sheila Jasanoff, salienta que o método mais indispensável para a explicitação de tais imaginários é a comparação entre países ou regiões, entre setores políticos ou entre épocas. Atender ao que Lusail indicie, pois, será uma boa forma de reconhecermos o que, em Portugal, tomamos como a ordem natural das coisas,...

Martin Heidegger - A raiz da distopia tecnológica

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É frequente o lamento de que nos alienamos da nossa condição humana nesta sociedade crescentemente tecnologizada. Motivados pelo recente volume da revista Atlântida (IAC) sobre utopias e distopias , perguntemo-nos: mas não somos nós, seres humanos, quem determina os fins para os quais usamos as tecnologias, e que assim as controlamos? Martin Heidegger, provavelmente o mais célebre e o mais obscuro pensador sobre a tecnologia e o homem, respondeu que não somos. Aqui fica uma tentativa de em menos de 500 palavras interpretar essa resposta. Primeiro, assinalemos que a sua obra se foca na condição básica de tudo o que esteja envolvido em quaisquer acontecimentos ou ações, desde este computador até à pessoa que se encontra a utilizá-lo: tudo isso é (existe). A sua primeira condição é a de ser . Heidegger acentuou que, na tradição encetada na Grécia Antiga, o ser teria sido pensado, digamos, como um processo de adveniência de cada ente à presença dos demais. Em especial, a-presentação àquel...

Afinal, o que é a tecnologia? – O caso dos xenobotes

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Faz amanhã um ano que, normalmente aos primeiros sábados de cada mês, sempre entre 495-500 palavras, aqui abordamos as intermediações da tecnologia entre o homem e o mundo. Fazendo um ponto da situação, esta será uma boa ocasião para abordar a questão básica que seria a primeira, mas que foi ficando adiada: afinal, o que é a tecnologia? O que é isso, desde as pedras lascadas do Homo Habilis até artefactos atuais como os xenobotes, que distingue a atividade dos espécimes do género “Homo”, ou seja, a forma humana de existir? C. Mitcham Um dos autores mais referidos nesta área, o historiador Carl Mitcham, registou quatro usos do termo “tecnologia”: como designação de i ) objetos, coisas como máquinas ou mesmo sistemas físicos, mas artefactuais. Em relação às ii ) atividades de design, produção e de utilização daqueles objetos. Designação de iii ) conhecimento, em especial o “saber-como” fazer as coisas, (eventualmente) distinto do “saber o que” as coisas são. E, ainda neste âmbito antr...

Duas lições políticas da racionalidade tecnológica

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A atividade política implementa o raciocínio meios-fins, que também carateriza a prática tecnológica. G.H. von Wright formulou-o assim: se se pretende Y, se X é causa de Y, se X é tecnicamente possível – acrescentemos: se X leva vantagem a eventuais alternativas – faça-se X. Neste mês de campanha eleitoral e consequentes escolhas políticas, vêm a propósito duas lições simples que podemos retirar da racionalidade tecnológica para a prática política. 1ª) A tecnocracia é uma ilusão – Ciclicamente aparecem apelos a um governo composto por técnicos; ou a presunção de políticos de que as respetivas propostas são inquestionáveis por serem fundadas tecnicamente e não em valores. Pretende-se assim que o poder (gr. krátos ) caiba aos técnicos. É não compreender a técnica tal qual esta se faz. Nomeadamente, não compreender como a qualquer função técnica – p. ex. transportar algum líquido – não corresponde uma só estrutura técnica – p. ex. uma garrafa de refrigerante – e vice-versa. Como mui...

Introdução à mediação homem-tecnologia-mundo - Peter-Paul Verbeek (videos)

1. "Tecnologia" e sociedade TÓPICOS - Mútua relevância entre sociedade e tecnologia. Def. "tecnologia", C. Mitcham - sentido usado nesta série de videos. Da filosofia da Tecnologia (alienação, distopia) à filosofia a partir das tecnologias [v. "empirical turn"]. Da neutralidade da tecnol.: instrumentalismo vs. determinismo - 1ª referência a Jaspers e Heidegger. 2.1. K. Jaspers: dimensão existencial da mediação tecnológica TÓPICOS - K. Jaspers: do determinismo ao instrumentalismo. 1ª posição (pré-II GM) - argumento pelo efeito alienante da tecnol., o "aparato", "demonismo" [cf. uma eventual relação entre cultura de massa e falha no reconhecimento de (categorias de Jaspers:) antinomias no nível imediato da vida humana - "orientação no mundo"]. 2ª posição (pós-II GM): tecnol., meios vs. fins - limite da tecnol. (como meio), autonomia humana.  2.2. M. Heidegger: dimensão hermenêutica da mediação tecnológica ...