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A moralidade dos artefactos e os algoritmos inteligentes

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Num raro momento de perplexidade moral, 007 , agente ao serviço de Sua Majestade, pergunta ao armeiro que lhe otimizara uma arma se essa profissão não o incomoda. Ao que o outro responde: “ Mr. Bond, as balas não matam. É o dedo que puxa o gatilho.” Esta cena de O Homem da Pistola Dourada foi a minha introdução à tese da neutralidade moral da tecnologia. Ponderosa, mas, creio, errada. Essa tese implica que a moralidade se reporta à agência ou capacidade de fazer algo e que os artefactos técnicos não têm agência. A primeira condição será pacífica, mas a segunda não. Em sentido forte, “agência” significa a capacidade de, perante comportamentos alternativos que sejam possíveis, escolher os valores para ponderar essas alternativas, aplicar os valores assumidos, decidir, e causar o comportamento correspondente. Se essa agência se verifica, pelo menos por ora, será exclusivamente humana. Já no sentido fraco de intervenção na determinação e promoção dos comportamentos, ainda que porventura...

Convergência das NBIC (II): “fusão”, “imersão”, “aumentação”

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À entrada desta nova meia década, lançando também o segundo quartel deste século, lembrei aqui a grande conveniência de atendermos às oportunidades e riscos não apenas das nanotecnologias, biotecnologias, tecnologias informáticas e ciências cognitivas (NBIC) isoladas, mas da convergência entre elas. Em cujo processo, como também apontei, estão implicadas instituições minhotas. Nestas linhas agora focarei um dos complexos de questões que se colocam nesse âmbito: em que é que nos constituiremos, que modo de ser humano estaremos a implementar, por um lado, ao utilizarmos as NBIC? E que mundo vivido, por outro lado, estaremos igualmente a implementar assim? É em conformidade às respostas a essas questões que deveremos responder a estas outras: como poderemos lidar com essas novas tecnologias sem alienar a nossa condição humana? Ou esta última é apenas um facto com 300.000 anos, sem valor intrínseco que obste a um avanço decidido rumo ao transhumanismo * ? Aquelas primeiras questões de...

De o SynchroniCity à influência das tecnologias públicas

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Porto, Campanhã Ainda recentemente, nas páginas do Etc. e Tal  (17/09/2022) e de outros órgãos de comunicação, surgiu a notícia de que a empresa municipal Domus Social, sob coordenação da Porto Digital, vai promover na Campanhã o projeto CommuniCity. Concretamente, pretende-se experimentar a disponibilização de artefactos tecnológicos digitais, com impacto na vida quotidiana, a uma população que assim desenvolverá a sua literacia digital. Um projeto na esteira do SynchroniCity, que versava a Internet das Coisas (IoT). Projetos como esses evidenciam questões que são transversais a todas as tecnologias. Nomeadamente, relativas à influência destas últimas sobre os seus utilizadores, e as correspondentes opções feitas não só pelos designers e produtores, mas também por todos quantos aceitam e utilizam as tecnologias disponibilizadas. Me parece que a muitos de nós, bem além daquela freguesia oriental do Porto, faltará alguma literacia sociotécnica para lidarmos com essas questões. ...

Cibersegurança, literacia e deontologia tecnológicas

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Realizou-se recentemente o congresso “ Tech and Economics: the way forward ”, da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações. Numa sua apresentação , o Presidente da APDC (in: semanário Novo , 10/05/2022) salientou que novas tecnologias, como o 5G, estão a provocar disrupções no mundo do trabalho e na sociedade. E que o incremento da literacia digital é urgente para respondermos às oportunidades e aos riscos dessas tecnologias. Nomeadamente, na área de cibersegurança. Numa iniciativa convergente, a ENTA , Escola de Novas Tecnologias dos Açores, tem neste momento abertas as inscrições num dos (creio) ainda poucos cursos (nível 5) em Portugal de cibersegurança. Entre as suas diversas unidades de formação, conta-se uma sobre “Ética e deontologia profissionais”. Que prevê o reconhecimento de “fatores deontológicos” e “exigências éticas” que contribuirão para aquela resposta a oportunidades e riscos. A qual certamente também receberá contributos, daqui a duas semanas, d...

Tecnologia “imersiva” – O futuro do retalho (e não só) começou em maio

Há pouco mais de um mês, a notícia da inauguração do Continente Labs ocupou páginas interiores dos jornais. Mas as consequências de inovações como essa passarão rápida e diversificadamente para as primeiras páginas. Tecnologias "imersivas" Como o nome indica, essa loja da Sonae MC constitui um laboratório. Nele se testa uma tecnologia que o filósofo Peter-Paul Verbeek designa “imersiva”: não apenas constitui parte do contexto da existência e ação humanas – como os sistemas tradicionais de ar condicionado etc. – mas tem iniciativa numa sua interação connosco. Assim, no supermercado Continente Labs, não existem caixas de pagamento e respetivos funcionários. Uma vez que cada cliente descarregue no seu smartphone a devida aplicação, esta máquina entra em comunicação com o sistema autónomo da loja, o qual conjuga a informação recebida por centenas de câmaras e sensores de prateleira, e cobra o crédito dos bens recolhidos pelo cliente na conta bancária que este último terá associa...

Admirável homem novo - A "fusão" com a tecnologia

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Na madrugada (hora açoriana) de 28 para 29 do último mês de agosto, Elon Musk apresentou via youtube o andamento na Neuralink da produção da tecnologia que, ao mediar a nossa relação com o mundo, mais se fundirá connosco. E ilustrou a mais ingénua e perigosa atitude que podemos ter hoje perante estas novas tecnologias. Concretamente, Musk apresentou um porco com um implante no cérebro em comunicação com um computador, comparando-se o seu comportamento com os de porcos sem implantes. O dispositivo enviava para o computador informação sobre variações elétricas no cérebro. No caso, a ativação de certas secções cerebrais perante comida. Tal como poderia comunicar variações em situação sexual etc. – ou estritamente no caso humano, de trabalho, política… O que permite construir padrões cerebrais associados aos comportamentos entretanto observados, e depois inferir os comportamentos mais prováveis de cada animal (humano) uma vez que o computador indicie um certo padrão no respetivo cérebro....

Introdução à mediação homem-tecnologia-mundo - Peter-Paul Verbeek (videos)

1. "Tecnologia" e sociedade TÓPICOS - Mútua relevância entre sociedade e tecnologia. Def. "tecnologia", C. Mitcham - sentido usado nesta série de videos. Da filosofia da Tecnologia (alienação, distopia) à filosofia a partir das tecnologias [v. "empirical turn"]. Da neutralidade da tecnol.: instrumentalismo vs. determinismo - 1ª referência a Jaspers e Heidegger. 2.1. K. Jaspers: dimensão existencial da mediação tecnológica TÓPICOS - K. Jaspers: do determinismo ao instrumentalismo. 1ª posição (pré-II GM) - argumento pelo efeito alienante da tecnol., o "aparato", "demonismo" [cf. uma eventual relação entre cultura de massa e falha no reconhecimento de (categorias de Jaspers:) antinomias no nível imediato da vida humana - "orientação no mundo"]. 2ª posição (pós-II GM): tecnol., meios vs. fins - limite da tecnol. (como meio), autonomia humana.  2.2. M. Heidegger: dimensão hermenêutica da mediação tecnológica ...