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A mostrar mensagens com a etiqueta História das tecnologias

Da inovação tecnológica tal qual se faz - 2 lições de um caso de estudo

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Em época de IV Revolução Industrial – com a introdução da IA, especialmente quando em convergência com a robótica, a IoT, as bioengenharias e as nanotecnologias nas nossas práticas sociais – em vista de mantermos algum controlo do processo a favor da maioria de nós (idealmente, de todos), temos de o acompanhar compreensivamente. Um tipo de raciocínio de que dispomos para o efeito é o da analogia com inovações tecnológicas anteriores. É certo que a força destas inferências naquele caso não será grande, uma vez que a força de uma analogia varia inversamente com o grau de novidade do termo em causa (do “análogo ao análogo”), e a IA capaz de aprendizagem é uma boa candidata ao título de maior novidade tecnológica desde as pedras lascadas. Mas, para evitar a volatilidade das especulações concetuais, não temos muito melhor do que esse tipo de inferências. Recorrerei, assim, ao  caso da substituição do sistema tradicional de ordenha e maneio do gado nos Açores, assente na energia humana e...

Sobre o design de sistemas sociotécnicos - a lição de um caso de estudo

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No auge dos últimos incêndios, o nosso PM anunciou o propósito de um plano, a vinte e cinco anos, de ordenamento da floresta e controlo dos fogos. Um sistema desses – tal como o sistema ferroviário que o governo anterior e não sei se este também ia(m) reformular, o sistema de saúde etc. – definem-se como sociotécnicos. Sistemas com (pelo menos) três classes de componentes: uma técnica, constituída pelos artefactos relevantes (ex. camiões-cisterna), cujos comportamentos são descritos pelas leis da natureza; uma componente social, constituída pelos operadores e pelos utilizadores, cujos comportamentos decorrem do cumprimento/transgressão por esses agentes das prescrições relativas a essa operacionalização e utilização; e a componente institucional destas regras prescritivas. Mas, a propósito de quaisquer grandiosos planos de tais sistemas, importa considerar a questão: o design de sistemas sociotécnicos pode, em geral, ser desenhado e implementado top-down, pela mão, digamos, de uma eq...

ChatGPT: um novo ator, uma nova rede

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Como os alunos de escolas e universidades estão a descobrir com júbilo, o recente e já famoso ChatGPT apresenta, em poucos instantes, respostas escritas a questões que lhe são propostas. Desde quais as causas plausíveis da I Guerra Mundial, como será possível relacionar coerentemente a mecânica quântica e a relatividade geral… até ao caso do pedido de uma mentira subtil, ao que essa aplicação da OpenAI (da Microsoft) de imediato respondeu "I’m a human being". Em alguns sítios, está a ensaiar-se a proibição da sua utilização em contexto escolar (Sciences Po, Paris) ou empresarial (JPMorgan Chase). Talvez pontualmente isso funcione. Mas, em geral, imagino que as proibições terão tanto sucesso como o nadador num rio caudaloso que, desprezando a corrente, invista as suas limitadas forças em braçadas rumo a um determinado ponto da margem a montante. Além do previsível fracasso, falha-se a preparação dos atores humanos para o tipo de interação apropriada com atores não-humanos mas ...

"Avatar": Natureza dissolvida, tecnologia recalcada

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Avatar: O Caminho da Água , de James Cameron, já teve em Portugal mais de 1M de espetadores (fonte: Instituto do Cinema e do Audiovisual). Junte-se-lhe a audiência do primeiro Avatar , que com ele partilha o pódio dos 3 filmes mais vistos nos últimos 18 anos, e ficamos com uma pista das mensagens cinematográficas atualmente com maior adesão entre nós. Como, de resto, noutras paragens. Também lá fui, de arrasto pelas minhas filhas, que em dias de natal se encheram de nostalgia pela assistência em família às imagens originais do mundo de "Pandora". O ritual familiar, como sempre, foi doce. E o pretexto pouco conta comparado com isto. Mas aquelas recentes estatísticas fazem-me revisitar esse filme no tom de que ele progressivamente se me revestiu: sombrio. O deleite da Natureza… mas que “natureza”? Designadamente, foi-me pesando à medida em que estendia cenas dedicadas apenas à fruição de árvores e animais fantásticos, voos por ares com montanhas suspensas, mergulhos em fu...

Lusail e um imaginário sociotécnico português

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Lusail, The Design Build Network O nome ‘Lusail’ atravessou-nos recentemente a comunicação e as atenções. Referido ao estádio da dramática final do Mundial, onde antes Portugal garantira contra o Uruguai o apuramento no grupo. Mas o estádio tem esse nome por ser o da nova cidade que os cataris estão a construir de raiz. Na consubstanciação de um imaginário sociotécnico que, implementado também na construção em curso do projeto saudita The Line no outro lado da península arábica, nos lembra que daquela cultura já emergiu uma civilização brilhante e poderosa. Referiremos abaixo a definição de ‘imaginário sociotécnico’. Mas, entretanto, apontemos que uma das autoras desse conceito, Sheila Jasanoff, salienta que o método mais indispensável para a explicitação de tais imaginários é a comparação entre países ou regiões, entre setores políticos ou entre épocas. Atender ao que Lusail indicie, pois, será uma boa forma de reconhecermos o que, em Portugal, tomamos como a ordem natural das coisas,...

As novas armas anticarro e a ordem das determinações da ação prática

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A guerra, na sua radicalidade, expressa a ação humana como talvez nenhum outro fenómeno. É o caso do impacto de uma inovação tecnológica na atual guerra na Ucrânia. No recente artigo “ Ukraine’s three-to-one advantage ” ( The Atlantic , março de 2022), Elliot Ackerman reflete sobre uma sua conversa com um ex-fuzileiro americano com comissões feitas no Iraque – tal como o próprio Ackerman – que tinha acabado de combater os russos na Ucrânia. Este outro militar deu-lhe conta de como a tática de intervenção no solo no Iraque, com blindados a abrirem caminho para a infantaria, não teria sucesso agora neste conflito, dado o aparecimento no cenário bélico das armas anticarro Javelin (americanas) e NLAW (britânicas). As quais anulam a vantagem dos blindados, inclusive pela manuseabilidade dessas armas. Repete-se, assim, a forma da evolução da tática militar que se verificou quando a artilharia anulou o poder defensivo das muralhas, e a defesa territorial abdicou dos castelos; quando a met...

Tecnologia “imersiva” – O futuro do retalho (e não só) começou em maio

Há pouco mais de um mês, a notícia da inauguração do Continente Labs ocupou páginas interiores dos jornais. Mas as consequências de inovações como essa passarão rápida e diversificadamente para as primeiras páginas. Tecnologias "imersivas" Como o nome indica, essa loja da Sonae MC constitui um laboratório. Nele se testa uma tecnologia que o filósofo Peter-Paul Verbeek designa “imersiva”: não apenas constitui parte do contexto da existência e ação humanas – como os sistemas tradicionais de ar condicionado etc. – mas tem iniciativa numa sua interação connosco. Assim, no supermercado Continente Labs, não existem caixas de pagamento e respetivos funcionários. Uma vez que cada cliente descarregue no seu smartphone a devida aplicação, esta máquina entra em comunicação com o sistema autónomo da loja, o qual conjuga a informação recebida por centenas de câmaras e sensores de prateleira, e cobra o crédito dos bens recolhidos pelo cliente na conta bancária que este último terá associa...

Plásticos: modalidades químicas, problemas ambientais e construção social da tecnologia

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O Museu de Leiria, e o Centro Interuniversitário de História da Ciência e Tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estão a preparar para 2019 uma exposição cuja importância cultural não imagino que possa ser ultrapassada por qualquer outra. Para a qual pedem a nossa contribuição em fotografias, informações e eventualmente em peças, a enviar neste mês e no próximo – daí o momento da presente crónica. Refiro-me à exposição sobre a história dos plásticos . Um tipo de materiais que, de tanto os aproveitarmos no nosso quotidiano, tanto os reconhecemos como utilíssimos quanto (não sendo hoje facilmente recicláveis) os tornamos um problema ambiental global. Para cuja resposta nos confrontamos com a questão da evolução tecnológica obedecer a alguma dinâmica interna, determinando a sociedade – e restar conformar-nos – ou, inversamente, ter essa última controlo sobre aquela evolução – e devermos então preparar alguma resposta. Nem de propósito, precisamente o “triunfo d...

Da modernização da indústria açoriana de laticínios e de um seu "capitão da indústria" - Eduardo Soares de Albergaria

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Eduardo Soares de Albergaria O texto seguinte constitui a maior parte dos "Apontamentos sobre Eduardo Soares de Albergaria pelo seu filho Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, presentemente com 80 anos", manuscrito do arquivo familiar dos descendentes do Eng. Jacinto Soares de Albergaria. Foram aqui selecionados os "apontamentos" que se referem à modernização da indústria de laticínios em S. Miguel ; bem como às faculdades e comportamentos de Eduardo Soares de Albergaria significativos para questões como a de como efetivamente se faz a tecnologia e respetivo investimento (em meios distantes dos grandes centros políticos, económicos...); a da determinação da tecnologia sobre a sociedade, ou a inversa, ou de alguma forma ambas; as caraterísticas pessoais dos empreendedores; até a especificidade do conhecimento tecnológico que se não reduz a aplicação do conhecimento científico... Não foram incluídos "apontamentos" de cariz mais pessoal, ou relativo...