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A mostrar mensagens com a etiqueta Tecnologia ciência conhecimento e racionalidade

A escola e os conhecimentos práticos

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Passado o verão, centenas de milhar de estudantes e professores, e indiretamente as respetivas famílias, aprestam-se a encetar mais um ano de aquisição/transmissão de conhecimentos e desenvolvimento de competências. Especialmente nos ensinos secundário e superior, cada uma dessas pessoas estará a orientar-se conforme uma distinção entre conhecimentos ditos “teóricos” e “práticos” (para simplificar, ignoremos aqui as competências). Aos teóricos, destinam-se principalmente o ensino secundário regular, muitos cursos universitários e bastantes “cadeiras” no ensino superior politécnico. Já a generalidade dos cursos deste último tipo de ensino, partes importantes de alguns cursos universitários (ex. engenharias ou medicina), e o ensino técnico profissional destinam-se principalmente aos conhecimentos práticos. Em conformidade a essa distinção, para que cada estudante, professor ou família de apoio melhor cumpra a respetiva orientação para uns ou outros currículos e tipos de escola, convé...

Leitura de férias: "contra o relativismo e o construtivismo"

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Na germinação do movimento woke que veio a eclodir já neste século, o New York Times (22/10/1996) publicou em primeira página a reivindicação de um representante dos índios sioux sobre a explicação da origem dos povos autóctones da América. Designadamente, contra a tese produzida segundo os métodos da arqueologia – que esses povos teriam migrado da Ásia pelo estreito de Bering na última Era do gelo – aqueles índios sabem que descendem do povo Bufalo que ascendeu (literalmente) à superfície terrestre vindo do mundo dos espíritos sobrenaturais. Mas o mais significativo, nessa peça jornalística, é o juízo de alguns arqueólogos académicos de que as duas teses – e mais quaisquer outras que respondessem à mesma questão – valem epistemologicamente o mesmo. Isto é, de nenhuma se pode dizer ser mais "verdadeira" do que as alternativas. O wokeísmo e uma dependência social do conhecimento Dessa tese da "Validade igual" de quaisquer teses teóricas alternativas pode derivar-se ...

Notas a uma leitura de férias: C. Rovelli, o tempo e a ação

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Passei a idade em que damos conselhos como quem distribui rebuçados. Todavia, nesta época ainda de leituras de férias, arrisco uma sugestão a quem se disponha a voltar às questões básicas, sem querer mergulhar logo em argumentações ou demonstrações exigentes. O pequeno (grande) livro de Carlo Rovelli, A Ordem do Tempo (Lisboa, Objectiva, 2020 , 191 pp. mas com poucas palavras em cada página), certamente a justifica. Por introduzir o estado da arte da reflexão sobre o tempo, e uma hipótese para um seu próximo passo. Essa hipótese inscreve-se bem  na velha esteira de Aristóteles ( Física , IV). Designadamente, numa associação do tempo a cada mudança, sem se invocar qualquer tempo cronológico absoluto. Entretanto, avançarei já a nota de que logo o Filósofo – assim distinguiram os medievais aquele que será o maior polímata da história da humanidade – terminou perguntando se, dessa forma, haverá tempo se não houver a mente que meça a mudança segundo um antes e um depois. 1.  ...

As novas armas anticarro e a ordem das determinações da ação prática

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A guerra, na sua radicalidade, expressa a ação humana como talvez nenhum outro fenómeno. É o caso do impacto de uma inovação tecnológica na atual guerra na Ucrânia. No recente artigo “ Ukraine’s three-to-one advantage ” ( The Atlantic , março de 2022), Elliot Ackerman reflete sobre uma sua conversa com um ex-fuzileiro americano com comissões feitas no Iraque – tal como o próprio Ackerman – que tinha acabado de combater os russos na Ucrânia. Este outro militar deu-lhe conta de como a tática de intervenção no solo no Iraque, com blindados a abrirem caminho para a infantaria, não teria sucesso agora neste conflito, dado o aparecimento no cenário bélico das armas anticarro Javelin (americanas) e NLAW (britânicas). As quais anulam a vantagem dos blindados, inclusive pela manuseabilidade dessas armas. Repete-se, assim, a forma da evolução da tática militar que se verificou quando a artilharia anulou o poder defensivo das muralhas, e a defesa territorial abdicou dos castelos; quando a met...

O caso da Ucrânia e o “instrumentalismo” de J. Dewey

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EFE / I. Ortega De um lado, temos acordos comerciais e financeiros que, a troco de mais um confortozinho nas sociedades ocidentais cujas economias mal cresciam, as vieram deixando reféns das oligarquias russa ou chinesa. Temos precisamente as estratégias expansionistas destes últimos países, progressivamente implementadas no fornecimento de gás ou na construção da Nova Rota da Seda. E teríamos a generalidade dos ucranianos, tivessem eles vergado face aos blindados e helicópteros russos, para salvar coisas como mais um jantarinho no tabuleiro assistindo a qualquer telenovela ou concurso televisivo. Do outro lado, no entanto, temos a resistência que cada ucraniano está a implementar juntamente com os seus próximos e as instituições do país. Começaram-na e mantêm-na a despeito das recordações, que seguramente têm, da Crimeia, da Geórgia e da Chechénia, ou até de Praga e de Budapeste. Desde há cerca de um século que diversos autores têm associado escolhas práticas como aquelas primeiras a ...

Ponta Delgada, Capital Europeia de uma Cultura integral – tecnologia e ciência

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Em 1959, C.P. Snow proferiu a conferência “The two cultures”, em que distinguiu a cultura das ciências e a cultura das Humanidades. E desconsiderou a segunda pela sua falta de rigor e pela sua irrelevância para o melhoramento das condições de vida das populações. A avaliação social dos cursos “de ciências” e “de letras” revela bem como essa continua a ser a disposição comum. Exatamente meio século depois, Jerome Kagan retomou a questão da ponderação de diferentes culturas disciplinares em The Three Cultures – Natural Sciences, Social Sciences and the Humanities in the 21st. Century . Mas apontou as respetivas assunções seminais, vocabulários e contributos. Para argumentar que nenhuma esgota a experiência humana do mundo e de nós próprios. As três culturas – ou quatro, se descolarmos as artes das Humanidades – devem, pois, ser consideradas e até articuladas. J. Kagan, The Three Cultures Abordamos aqui apenas a primeira – aquela que consolidou a distinção da cultura de matriz europei...

W.G. Vincenti, “O que os engenheiros sabem” (2)

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No início do ano letivo, trouxe a esta coluna o esquema dos tipos e variantes de conhecimento tecnológico proposto por Walter G. Vincenti ( “‘O que os engenheiros sabem’ (1)” ). Começado há pouco o segundo semestre, aqui fica uma referência às categorias cognitivas que esse autor reconheceu no cerne da produção tecnológica – desde aviões ou vacinas até software . É a aplicação destas categorias que nós contribuintes compramos ao financiar essas escolas. i ) Conceitos fundamentais – primeiramente, o princípio operacional do artefacto: o funcionamento global do artefacto que cumpre o propósito que este serve – p. ex. ordenha por vácuo em condições tão controladas quanto possível. É conforme esse princípio que o artefacto se define – ex. sala de ordenha – e que o sucesso deste último é avaliado em termos técnicos. Outro conceito fundamental é o de configuração normal do artefacto a desenhar: a disposição geral dos componentes que na comunidade técnica se reconheça cumprir melhor ...

A Covid-19 e o “enviesamento do crescimento exponencial”

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Há um ano, enquanto chegavam notícias da expansão da Covid-19 aos primeiros países europeus, a saúde pública portuguesa continuava regular. Só mais tarde apareceram aqui os primeiros casos, e poucos. Mas, a 14 de março, a ministra da saúde reconheceu que o crescimento da pandemia no país se tornara exponencial. E na segunda quinzena desse mês, segundo  dados da Johns Hopkins University , estivemos nos primeiros lugares mundiais nesse parâmetro (segundo os números conhecidos, claro). Esse tipo de crescimento é ilustrado pela história do pedido do matemático indiano Sessa Ibn Daher ao seu soberano, quando este o quis premiar pela invenção do jogo do xadrez: um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira, oito… sempre duplicando até à 64ª casa. O soberano logo aceitou, mas, quando calcularam a riqueza assim indicada, o reino inteiro não a valia. Em troca, num crescimento linear o aumento é sempre aproximadamente o mesmo – p. ex. em cada nova casa d...

A Covid-19 e a sociedade do risco

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Em tempo de balanço do ano Covid, reconheceremos que se estão a acelerar e intensificar dois processos que assim nos condicionarão em força na década que se inicia com o fim deste mês. Por um lado, o extraordinário sucesso que a tecnologia se prepara para alcançar na compensação do surto do novo coronavírus, ao bater todos os records temporais de invenção e validação de vacinas. E de “invenção” mesmo se trata, uma vez que algumas dessas vacinas são compostas não pelo vírus enfraquecido, como tradicionalmente, mas apenas pelo seu ARN, numa vacina já não natural mas sintética. Ou seja, ela constitui propriamente um artefacto tecnológico, não é meramente o uso intencional de um objeto natural. A ser aplicada mediante uma campanha logística de dimensão planetária de produção de milhares de milhões de unidades de vacina, da sua armazenagem e transporte em condições artificiais, ministração, recolha e resolução das respetivas seringas. Por outro lado, ainda no passado fim de semana manifes...

Duas lições políticas da racionalidade tecnológica

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A atividade política implementa o raciocínio meios-fins, que também carateriza a prática tecnológica. G.H. von Wright formulou-o assim: se se pretende Y, se X é causa de Y, se X é tecnicamente possível – acrescentemos: se X leva vantagem a eventuais alternativas – faça-se X. Neste mês de campanha eleitoral e consequentes escolhas políticas, vêm a propósito duas lições simples que podemos retirar da racionalidade tecnológica para a prática política. 1ª) A tecnocracia é uma ilusão – Ciclicamente aparecem apelos a um governo composto por técnicos; ou a presunção de políticos de que as respetivas propostas são inquestionáveis por serem fundadas tecnicamente e não em valores. Pretende-se assim que o poder (gr. krátos ) caiba aos técnicos. É não compreender a técnica tal qual esta se faz. Nomeadamente, não compreender como a qualquer função técnica – p. ex. transportar algum líquido – não corresponde uma só estrutura técnica – p. ex. uma garrafa de refrigerante – e vice-versa. Como mui...

W.G. Vincenti, "O que os engenheiros sabem" (1)

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Neste mês em que se inicia mais um ano letivo, que espécies de conhecimento desafiam os estudantes e professores de engenharias? E quem diz essas tecnociências, diz gestão de empresas, medicina… até as demonstrações de teoremas a que os matemáticos se dedicam. Nas últimas décadas, provavelmente a resposta mais influente a essa pergunta é a de Walter G. Vincenti (v. fotografia) na obra com o título que importei (em parte) para esta crónica  * . Este engenheiro aeronáutico, historiador e filósofo classificou os referidos conhecimentos em três variantes distribuídas por dois tipos. Uma dessas variantes é a descrição de estados de coisas. Por exemplo, a carga suportada por rebites com um certo diâmetro. Os conhecimentos descritivos são avaliados conforme a correção (ou verdade) das proposições que os explicitam . Podem ser mais ou menos precisos, mas, em qualquer caso, a sua correção depende da adequação deles aos estados de coisas que referem. Não depende dos objetiv...

Introdução à mediação homem-tecnologia-mundo - Peter-Paul Verbeek (videos)

1. "Tecnologia" e sociedade TÓPICOS - Mútua relevância entre sociedade e tecnologia. Def. "tecnologia", C. Mitcham - sentido usado nesta série de videos. Da filosofia da Tecnologia (alienação, distopia) à filosofia a partir das tecnologias [v. "empirical turn"]. Da neutralidade da tecnol.: instrumentalismo vs. determinismo - 1ª referência a Jaspers e Heidegger. 2.1. K. Jaspers: dimensão existencial da mediação tecnológica TÓPICOS - K. Jaspers: do determinismo ao instrumentalismo. 1ª posição (pré-II GM) - argumento pelo efeito alienante da tecnol., o "aparato", "demonismo" [cf. uma eventual relação entre cultura de massa e falha no reconhecimento de (categorias de Jaspers:) antinomias no nível imediato da vida humana - "orientação no mundo"]. 2ª posição (pós-II GM): tecnol., meios vs. fins - limite da tecnol. (como meio), autonomia humana.  2.2. M. Heidegger: dimensão hermenêutica da mediação tecnológica ...

Os 3 métodos científicos empíricos - Uma achega contra o vírus da iliteracia científica

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Desde os primeiros meses deste ano vivemos num caleidoscópio de certezas absolutas sobre a Covid-19, mesmo quando num dia se afirma o contrário do afirmado na véspera. Ou da exigência dessa certeza, e em prazo curto, aos investigadores e técnicos da área. Compreende-se a ansiedade. Mas só contribuiremos para os melhores resultados que são possíveis se agirmos com literacia científica. Conformando-nos, pois, a noções elementares como as seguintes. Há vários tipos de conhecimento – com destaque para o necessaríssimo senso comum! Mas, desde a Grécia Clássica, os conhecimentos melhor justificados, em cuja aplicação mais podemos confiar, são do tipo chamado “científico”. Nos séculos XVI e XVII esse tipo de conhecimento passou por uma “Revolução Científica”. Os seus agentes assumiram um compromisso com o que se encontra no mundo, tão livres quanto possível de enviesamentos religiosos, ideológicos ou morais etc. Desde logo, no mundo material – mediante as ciências naturais. Desde o séc. X...