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Tecnocracia ou cientismo e retórica

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Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha. As ciências e as tecnologias tal qual são feitas Imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Certamente não. O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se enquanto o temp...

Incineradora, participação pública, e hipótese de uma "conferência de consenso"

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No último meio século, os estudos sobre tudo o que intervém no desenvolvimento e implementação das tecnologias derrubaram a anterior crença ingénua de que estas seriam decididas por razões estritamente técnicas. De modo que a definição clássica de tecnologia – como mera aplicação de conhecimentos científicos, que por sua vez seriam neutros a fatores sociais, económicos… – foi substituída por definições mais complexas e abrangentes (v. este  texto   sobre o eng. Edgar Cardoso). Se se opta por um regime democrático, daí decorre a exigência de participação pública nas decisões de implementação de certas tecnologias. Muito bem exemplificada pelo processo em curso nesta ilha sobre a construção de uma central de incineração de resíduos sólidos urbanos. Como Luís Anselmo bem apontou neste jornal em “Sinais da sociedade civil!” (15/03/2017). Mas, assim, este processo também sofre o problema de eficiência que se reconhece em tais participações. Democraticidade vs. eficiência ...

“Não há milagres” – realismo e o caso Afonso Chaves

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Em tempo de “pós-verdade”, de “factos alternativos”, todas as “narrativas” se equivalem. Assim por exemplo, de um lado, temos o papa Calisto III a decretar, em 1456, que a oração Pai-nosso incluísse a expressão: “livrai-nos, Senhor, do mal, do turco e do cometa”. E, à cautela, excomungou este último como instrumento do diabo. Numa narrativa que assume o pressuposto – de origem pagã! – de uma causalidade dos astros sobre as disposições humanas. E que estabelece ingenuamente (i.e. sem fundamentação crítica) relações entre fenómenos por uma sua mera contiguidade, como, temporalmente, a simultaneidade entre o cerco de Maomé II a Belgrado após conquistar Constantinopla e uma bolinha brilhante deixando atrás de si um risco luminoso no céu. De outro lado, na passagem do séc. XVII para o séc. XVIII, temos Edmond Halley a atender antes ao registo rigoroso, desde 467 a.C., da repetição a cada 75 anos de um fenómeno celeste em tudo semelhante. E a aplicar a essas descrições fórmulas matemá...

A “indução pessimista” – construtivismo e o caso Mont’Alverne de Sequeira

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Na última semana, o porta-voz da nova administração do país com mais impacto no mundo  apresentou “factos alternativos” à medida dos desejos deste novo Presidente. Não haveria melhor ilustração da “pós-verdade” com que fechámos o ano passado. No entanto… será que mesmo o conhecimento científico – ex. sobre o aquecimento global – nos aproxima de uma realidade climatérica? Ou deixar-nos-á sempre no seio das ideias que vamos construindo? – p. ex. teorias climatéricas inventadas pelos chineses unicamente por conveniência deles. Uma das vias de abordagem a essa questão da natureza do conhecimento científico é a reflexão sobre a história das ideias científicas. Tomemos aqui um caso que nos seja próximo. Dificilmente encontraremos algum que no-lo seja mais do que o de “A duração da vida humana” – pelo muito que isto por certo dirá a cada um de nós; e por ter sido o tema (e título) da comunicação proferida nesta cidade pelo dr. Gil Mont’Alverne de Sequeira, a 20 de maio de 1909, no âmb...

Facebook, Snapchat... e as relações simétricas entre tecnologia e sociedade

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Na semana da Web Summit o tema impõe-se: que relações se estabelecem entre a tecnologia e a sociedade? Reflitamos sobre a eventual experiência de uma leitora que esteja a ler estas palavras no seu smartphone, intercalando com uns saltos ao facebook, enquanto espera na sala de embarque de um aeroporto rumo àquela conferência em Lisboa. A geração Y, a geração Z, e a geração silenciosa Porventura terá escolhido os voos de ida e volta numa aplicação desse aparelho que lhos tenha selecionado segundo preços, horários e escalas. Assim como o local de alojamento em Lisboa, e porventura o carro alugado. Tendo ela não só nessa altura marcado e pago tudo isso também com o smartphone, como o terá utilizado ontem para fazer o check-in em casa enquanto jantava, trazendo o cartão de embarque digitalizado para ser lido oticamente nos controlos do aeroporto. Enfim, antes de responder à chamada para o embarque, essa leitora poderá fazer um breve comentário a esta crónica naquela rede social. E ...

Uma janela de 100 anos sobre a ciência contemporânea - O primado da razão

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Faz este mês exatamente um século que Albert Einstein publicou o artigo com um pormenor decisivo para a validade da teoria da relatividade geral (publicada em 2015): a previsão de ondas gravitacionais na base desta teoria. Daí o relevo que a comunicação social, em fevereiro passado, deu à interpretação de uma certa medição como sendo a deteção de ondas gravitacionais. Além do justo alvoroço nos meios estritos da física, esse processo parece-me revelador do que são em geral as ciências modernas e contemporâneas. Desde logo, sobre quão estas últimas têm vindo a afastar-se da observação espontânea do mundo natural e das relações sociais, e a privilegiar o exercício da razão. Um tempo vs. muitos tempos Einstein foi exemplo disso já com a teoria da relatividade restrita, em 1905, face a um problema com as medições da velocidade da luz. Pelo menos desde o best-seller Breve História do Tempo , de Stephen W. Hawking (1988), não faltam ao leitor apresentações avalizadas desse momento da...

5 Caraterísticas gerais das tecnologias - um caso açoriano

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No nosso quotidiano, desde a leitura deste jornal impresso ou online até a bebida de um café tirado de uma máquina, compreender a tecnologia é esclarecer boa parte do que vivemos e somos. Ensaiaremos aqui esse esclarecimento aplicando a um caso que nos é próximo as 5 condições que Hans Radder  ( In and About the World , 1996)  reconhece em quaisquer tecnologias . Sugerindo ainda a  aplicação destas a sistemas não-materiais, como o da edição deste jornal . Um caso açoriano Tomemos o caso das ordenhas móveis  –  apresentadas por Fátima Amorim  et al. , no abrangente apesar de pequeno estudo para a  IDEASS , como “uma inovação açoriana” (p. 1). Aliás, “a inovação mais interessante no maneio das vacas leiteiras nos Açores (…) constituindo a base deste modelo produtivo” (p. 8). Os autores não sustentam esta sua última afirmação. Mas, intuitivamente, pelo menos não nos é difícil reconhecer às ordenhas móveis “uma grande vantagem nas zonas em que a...