“Não há milagres” – realismo e o caso Afonso Chaves
Em tempo de “pós-verdade”, de “factos alternativos”,
todas as “narrativas” se equivalem.
Assim por exemplo, de um lado, temos o papa Calisto
III a decretar, em 1456, que a oração Pai-nosso
incluísse a expressão: “livrai-nos, Senhor, do mal, do turco e do cometa”. E, à
cautela, excomungou este último como instrumento do diabo.
Numa narrativa que assume o pressuposto – de origem
pagã! – de uma causalidade dos astros sobre as disposições humanas. E que
estabelece ingenuamente (i.e. sem fundamentação crítica) relações entre
fenómenos por uma sua mera contiguidade, como, temporalmente, a simultaneidade
entre o cerco de Maomé II a Belgrado após conquistar Constantinopla e uma
bolinha brilhante deixando atrás de si um risco luminoso no céu.
De outro lado, na passagem do séc. XVII para o séc.
XVIII, temos Edmond Halley a atender antes ao registo rigoroso, desde 467 a.C.,
da repetição a cada 75 anos de um fenómeno celeste em tudo semelhante. E a aplicar
a essas descrições fórmulas matemáticas capazes de determinar órbitas. O que
lhe permitiu identificar esse cometa – que então recebeu o nome do astrónomo
inglês – prevendo que a sua próxima passagem pela Terra ocorreria em 1758. Como
se verificou.
O meteorologista e naturalista micaelense (nascido em
Lisboa, 1857) começou a sua denúncia pelo reconhecimento lógico de que “o
encontro de um cometa com a Terra póde succeder chocando esta com o nucleo do
cometa, ou atravessando a sua cauda. O primeiro encontro parece que deve ser
perigoso, se é que o nucleo é formado por blocos solidos” (op. cit.: 70, 71).
Depois – em conformidade aos processos de cálculo a
que alude ao dizer “actualmente a Astronomia só fornece elementos para se
conhecer a orbita dos cometas” – descartou a primeira possibilidade de
encontro: “No caso actual não tem mesmo importancia a composição do nucleo do
cometa de Halley. Tal nucleo de 18 para 19 de Maio estará entre a Terra e o
Sol, a 128 milhões de kilometros d’este, e a cerca de 23 milhões de kilometros
da Terra, e, como já indiquei, o maior nucleo cometario observado nem a
cincoenta mil kilometros chegava.
Em seguida, estimou a probabilidade de encontro entre
o nosso planeta e a cauda do cometa: “visto [o Sol] exercer uma acção repulsiva
sobre os gazes que formam a cabeça do cometa, serão elles prolongados para o
lado opposto ao Sol formando a cauda que é provavel envolva a Terra, pois é de
esperar que tenha mais de 23 milhões de kilometros de extensão”.
Nas páginas consequentes, encontramos o seu
reconhecimento de que “foi por meio [da analyse espectral da luz dos cometas]
que se soube haver cyanogenio na cauda do cometa de Halley. Infelizmente tal
processo não nos indica a quantidade, a proporção, a combinação na qual se
encontram os elementos por ella revelados. (…) Mas pensemos o peor, isto é, que
[a cauda do cometa] envolve o nosso planeta, e é rica em cyanogenio.”
Aplicando então os processos de medição da densidade desses
gases e da atmosfera do nosso planeta – que estabelecem ser a segunda
muitíssimo maior do que a primeira – pôde concluir: “Portanto se a Terra
atravessar a cauda do cometa de Halley fal-o-ha como se um projectil de ferro
animado com uma velocidade superior a 70 kilometros por segundo atravessásse a
atmosphera terrestre! Só na superficie de tal projectil (e nós n’esta
comparação estamos bem para dentro d’ella) é que se poderia sentir o efeito de
tal passagem.”
A argumentação de Afonso Chaves é um exemplo acabado
do rigor lógico, do recurso a processos verificáveis de mensuração, do cálculo
de probabilidades… e da humildade perante o que se não sabe por mais que fosse
desejável sabê-lo, que caraterizam o conhecimento científico.
O tipo de conhecimento que frequentemente tem tido um
sucesso na explicação do mundo que nenhum outro tipo de conhecimento iguala – ex.
sobre a possibilidade de se sobreviver a maio de 1910 sem um guarda-chuva anticometa.
E cujos corpos de conhecimento, a despeito de algumas pontuais revisões
profundas, na sua maior parte parecem progredir numa adição de novos
conhecimentos parcelares a muitos que se mantêm do passado – ex. a progressão
da balística, desde a artilharia usada no cerco otomano a Belgrado até aos atuais
mísseis intercontinentais.
Reconhecendo os factos históricos desse frequente
sucesso, e dessa razoável progressividade, não poderemos deixar o discurso
científico apenas como mais uma “narrativa”, paralela a benzeduras contra o
belzebu e a anúncios de pílulas anticianogénio.
A todos quantos, nestas ilhas, nos filiamos na
tradição do cor. Afonso Chaves, cabe pois cuidar da constituição, e do
exercício do conhecimento de tipo científico – nas ocasiões em que este é
apropriado, que só um tolo se deslocaria a um laboratório para aferir se a sopa
da véspera estará azeda, etc.
Pois bem, sobre aquela constituição, logo ao senso
comum ocorre um argumento simples: se tamanha funcionalidade, e mesmo a
progressividade que se reconhece ao conhecimento científico ocorrerem por
sorte, isto será praticamente um milagre; mas não há tais milagres; logo não
será por mera sorte. Resta a hipótese de que exista uma realidade condicionando
os nossos conhecimentos, quebrando os que se lhe não adequam, e o conhecimento
científico terá o poder de nos aproximar dela.
Por sinal, a argumentação lógica em geral, e a adoção
da simplicidade como um dos valores de discriminação entre explicações teóricas
alternativas, encontram-se entre as propriedades nucleares do conhecimento
científico. Pelo que o argumento – designado na literatura epistemológica por –
“não há milagres”, sustentando que esse tipo de conhecimento nos aproxima de
uma realidade, constituirá ele próprio um exercício científico.
Nesta série de crónicas já várias vezes registei a
minha filiação nesta resposta realista à questão da natureza do conhecimento
científico – contra a tese construtivista ou idealista de que restamos sempre
confinados a ideias que projetamos (cf. “A ‘indução pessimista – construtivismo e o caso Mont’Alverne de Sequeira”). Não fecharei o texto de hoje porém sem apontar duas
objeções que se nos colocam:
a) Como enfatizei nessa crónica
que aqui trouxe o argumento contrário, o facto histórico da substituição de
teses antigas pode sugerir que também as atuais, e as futuras, serão provavelmente
substituídas – restando nós imersos nas ideias que construímos.
b) O argumento de que não há
milagres supõe, como qualquer argumento, a necessidade lógica das inferências
formalmente válidas. Ora é precisamente tal necessidade que é negada pela
assunção antes da sorte, dos milagres… Pelo que aquele argumento parece já
pressupor o erro a cuja denúncia pretende chegar – numa falácia da inclusão da
conclusão nas premissas.
Duas objeções, entre outras, a não ignorar por
qualquer realista que, acima desta sua posição, se disponha a viver e morrer
como um homem honrado.
[1]
Francisco Afonso Chaves, “A previsão do
tempo, e a dos tremores de terra. A passagem da cauda do cometa de Halley pela
terra”, in: F. Affonso Chaves e F. Cogumbreiro (ed.), Conferencias realizadas durante o anno de
1908 a 1912 no Atheneu Commercial de Ponta Delgada, Ponta Delgada: Typ. do
Diário dos Açores, 1912, pp. 62-73.
[2] Cujo acervo fotográfico, bem como aliás, e principalmente, todo o apoio que sempre expressou a estas minhas iniciativazinhas em prol da cultura científica, agradeço ao sobrinho-bisneto do cor. Afonso Chaves, eng. Luís G. Cogumbreiro Ivens Brandão (por sinal também militar) – bisneto de José de Medeiros Cogumbreiro, o cunhado de Afonso Chaves a quem este último dedicou a sua conferência, dele escrevendo o melhor epitáfio que alguma vez li: “Viveu e morreu como deve viver e morrer um homem honrado!” (op. cit.: 63).
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