A “indução pessimista” – construtivismo e o caso Mont’Alverne de Sequeira
Na última semana, o porta-voz da nova administração do país com mais impacto no mundo apresentou “factos alternativos” à medida dos desejos deste novo Presidente. Não haveria melhor ilustração da “pós-verdade” com que fechámos o ano passado.
No entanto… será que mesmo o conhecimento científico –
ex. sobre o aquecimento global – nos aproxima de uma realidade climatérica? Ou
deixar-nos-á sempre no seio das ideias que vamos construindo? – p. ex. teorias
climatéricas inventadas pelos chineses unicamente por conveniência deles.
Uma das vias de abordagem a essa questão da natureza
do conhecimento científico é a reflexão sobre a história das ideias científicas.
Tomemos aqui um caso que nos seja próximo. Dificilmente encontraremos algum que
no-lo seja mais do que o de “A duração da vida humana” – pelo muito que isto por
certo dirá a cada um de nós; e por ter sido o tema (e título) da comunicação proferida
nesta cidade pelo dr. Gil Mont’Alverne de Sequeira, a 20 de maio de 1909, no
âmbito das notáveis Conferencias Realizadas
Durante o Anno de 1908 a 1912 no Atheneu Commercial de Ponta Delgada (ed.
F. Afonso Chaves e F. Cogumbreiro, Ponta Delgada, Typ. do “Diário dos Açores”,
1912).
Esse médico, reitor do Liceu de Ponta Delgada, deputado
às Cortes e autonomista… e também colaborador deste jornal, declarou a sua
“convicção que se vive menos do que se
devia viver, por culpa dos ascendentes, por culpa nossa e do meio social” (op. cit., p. 23). Apontando
procedimentos alimentares, pedagógicos, sexuais… que anulariam estas
precipitações da morte.
Começou no entanto por assinalar momentos da história das
ideias filosóficas e científicas sobre o tema referido, resumindo que “o que de
positivo ficou foi – que os seres vivos, distinguem-se dos corpos brutos por
caracteres resultantes das propriedades fundamentaes da matéria viva, e de que
a unica essencial é a assimilação.
Esta propriedade encerra o poder dos caracteres
chamados evolutivos, isto é o crescimento,
a reprodução e a regeneração.
Quando a assimilação enfraquece, todas as funcções
organicas se ressentem, e a velhice
começa; quando cessa a assimilação, a morte
sobrevém e está tudo consumado” (p. 22).
Mais precisamente, pergunta-se adiante “Porque é então
que os organismos multicellulares têm a vida limitada? Porque alguns dos
productos da synthese assimiladora são insoluveis e por isso incrustam nos
tecidos, difficultando primeiro e impedindo depois o seu funccionamento, e
d’ahi o aphorismo de Cazalis: «cada um tem a edade das suas arterias»” (p. 28).
Como factor do envelhecimento e morte, Mont’Alverne de
Sequeira considera ainda a fragilidade do sistema nervoso.
“Mas combate-se as incrustações evitando a avarigenése*, que entra em 50%
dos esclerosados, e para os restantes a electricidade ainda não disse a sua
ultima palavra” (ibid.).
De modo que o médico micaelense, apesar de reconhecer
que “n’este campo são enormes as lacunas da Biologia, reduzindo-se as
interpretações a simples especulações theoricas” (p. 22), avançou que “a
Sciencia modificará tudo para melhor” (p. 27). “N’um futuro, que se não pode
precisar, o homem e a mulher attingirão edades avançadas, sendo vulgar os
centenarios” (p. 29).
E com efeito, por
exemplo em cada 100.000 raparigas nascidas em França em 1750, apenas metade
chegou aos 8 anos. A mesma parcela das nascidas em 1900 aproximou-se dos 60.
Para as nascidas em 2000, espera-se que metade alcance os 86. E, para as que
nascerão em 2100, cuja grande maioria deverá ultrapassar 90 anos, uma hipótese
aponta os 96 para metade delas, poucas ultrapassando os 107; ao passo que outra
hipótese aponta esta última idade para a metade, com a meta final acima dos 120
anos (Meslé e Vallin, 2002).
Esta última divergência de hipóteses decorre da
oposição entre duas teses teóricas opostas: respetivamente, será possível
aproximar a idade média do limite máximo possível vs. esta aproximação não se
verifica.
Mont’Alverne de Sequeira compreenderia essa oposição
teórica. Mais perplexo imagino que ficaria com a atual tese dos demógrafos Jim
Oepen e James Vaupel de que o genoma humano não conterá qualquer limitação
absoluta de idade, sendo o “relógio biológico” determinado historicamente. Ou
seja, não existirá para a espécie humana o que aquele nosso conterrâneo chamou
“morte natural” – termo de “o que se devia viver” – antes o limite em cada
época dependerá de diversos fatores que são próprios apenas dessa época.
Essa tese demográfica corresponde aliás a atuais
definições biológicas de vida, como a que a NASA utiliza na busca desta além da
Terra: é um sistema químico autónomo [as reações que Mont’Alverne de Sequeira
concebe como “assimilação”] capaz de seguir uma evolução darwiniana.
Mas a historicidade estará aberta às próprias
intervenções humanas, nomeadamente por tecnologias de manipulação genética,
sobre o património hereditário da nossa espécie. Ou seja, contra a ideia de uma
natureza independente dos procedimentos alimentares, pedagógicos, sexuais…
implementados por cada comunidade, será possível ao homem determinar a sua
própria “natureza” (há mais de um ano anotei aqui quão a tecnologia CRISPR-Cas9
nos aproxima dessa autodeterminação).
Quão adiante estamos assim dos preceitos higiénicos do
nosso conterrâneo em 1909… e quão ao lado da sua esperança na eletricidade!
Embora outras noções desse tempo não se oponham às atuais, e algumas
expectativas se estejam a cumprir.
Exatamente como em tantos outros casos da história das
ideias científicas. O que nos permite esta indução: é provável que também as
teses biológicas atuais, da genética triunfante no fim do séc. XX ao
reconhecimento da epigenética neste século, que também os modelos demográficos
que hoje usamos, etc., um dia sejam ultrapassados, se não mesmo desmentidos em
absoluto por outras conceções humanas.
Algumas poderão manter-se. O que não conseguimos é saber,
hoje, se e quais serão estas.
Na história de casos como esse da investigação sobre a
duração da vida humana encontramos pois a sugestão para uma indução pessimista em relação à natureza
do conhecimento científico: este resta sempre circunscrito às ideias que vamos
construindo. Daí aos factos alternativos feitos à medida vai um passo.
A esta tese, dita “construtivista”, colocam-se no entanto
(pelo menos) duas objeções. Uma poderá ser sugerida ainda pela conferência de
Gil Mont’Alverne de Sequeira – não serão as ideias que se mantêm, sendo
desenvolvidas e reformuladas, mas não propriamente ultrapassadas, e ainda menos
desmentidas, bem mais do que as que se rejeitam? Não será que oposições
radicais – ex. entre as teorias geocêntrica e heliocêntrica – constituem a
exceção, e não a regra, na história das ciências? Se assim for, aquela indução
não terá validade estatística, ou seja, científica.
O que nos remete para outra objeção: muitas teorias
científicas são obtidas por indução – i.e. por generalização a partir de
amostras de casos. De forma que o anterior argumento construtivista terá ele
próprio validade científica. A conclusão desse argumento, porém, é que as teses
científicas em geral são relativas às respetivas épocas. Então a própria tese
construtivista o será.
De modo que, noutra época, talvez seja não apenas
ultrapassada mas mesmo desmentida pela tese oposta, o realismo. E então –
segundo esta outra tese – simplesmente porque o construtivismo estava errado
(não porque fosse historicamente relativo). Em suma, a posição construtivista
parece admitir tanto a sua correção quanto o seu erro. Assim não terá qualquer
sentido.
Mas essa outra resposta à nossa questão inicial fica para a próxima crónica desta série. Também mediante uma reflexão sobre um caso histórico, encontrado também nas Conferências do Ateneu de Ponta Delgada… e também com algumas objeções.
* Suponho que o autor se refere aos microrganismos da sífilis e da gonorreia.
in Correio dos Açores, 28,01, 2017
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