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"Avatar": Natureza dissolvida, tecnologia recalcada

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Avatar: O Caminho da Água , de James Cameron, já teve em Portugal mais de 1M de espetadores (fonte: Instituto do Cinema e do Audiovisual). Junte-se-lhe a audiência do primeiro Avatar , que com ele partilha o pódio dos 3 filmes mais vistos nos últimos 18 anos, e ficamos com uma pista das mensagens cinematográficas atualmente com maior adesão entre nós. Como, de resto, noutras paragens. Também lá fui, de arrasto pelas minhas filhas, que em dias de natal se encheram de nostalgia pela assistência em família às imagens originais do mundo de "Pandora". O ritual familiar, como sempre, foi doce. E o pretexto pouco conta comparado com isto. Mas aquelas recentes estatísticas fazem-me revisitar esse filme no tom de que ele progressivamente se me revestiu: sombrio. O deleite da Natureza… mas que “natureza”? Designadamente, foi-me pesando à medida em que estendia cenas dedicadas apenas à fruição de árvores e animais fantásticos, voos por ares com montanhas suspensas, mergulhos em fu...

Lusail e um imaginário sociotécnico português

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Lusail, The Design Build Network O nome ‘Lusail’ atravessou-nos recentemente a comunicação e as atenções. Referido ao estádio da dramática final do Mundial, onde antes Portugal garantira contra o Uruguai o apuramento no grupo. Mas o estádio tem esse nome por ser o da nova cidade que os cataris estão a construir de raiz. Na consubstanciação de um imaginário sociotécnico que, implementado também na construção em curso do projeto saudita The Line no outro lado da península arábica, nos lembra que daquela cultura já emergiu uma civilização brilhante e poderosa. Referiremos abaixo a definição de ‘imaginário sociotécnico’. Mas, entretanto, apontemos que uma das autoras desse conceito, Sheila Jasanoff, salienta que o método mais indispensável para a explicitação de tais imaginários é a comparação entre países ou regiões, entre setores políticos ou entre épocas. Atender ao que Lusail indicie, pois, será uma boa forma de reconhecermos o que, em Portugal, tomamos como a ordem natural das coisas,...

Da COP27 a Bayu-Undan – limiares éticos para a captura e armazenamento de carbono

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Desta vez, notícias sobre a COP – a 27ª, em Sharm El Sheick - não abriram sucessivos noticiários. As atenções estavam antes focadas na ASEAN e ainda na Ucrânia. Ou (não exclusivo) os spin doctors começam a achar preferível que as imagens dos governantes se não desgastem numa encenação que, repetida há já mais de um quarto de século, começa a saber a sopa requentada. Talvez melhor assim. Que a dissolução daqueles exercícios retóricos porventura facilitará a disposição para decisões sobre empreendimentos que, efetivamente, façam a diferença. Como as que se jogarão na exposição de Carbon Capture Technology, já em preparação para Bremen em setembro do próximo ano. Ou, antes ainda, o projeto de captura e armazenamento de carbono (CAC) no bloco offshore Bayu-Undan, em Timor-Leste. Mas comecemos pelo princípio, que é nestes que medram os mais fundos enviesamentos a quaisquer resoluções dos problemas dados. Um problema, dois equacionamentos O problema climático é conhecido: constitui-...

De o SynchroniCity à influência das tecnologias públicas

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Porto, Campanhã Ainda recentemente, nas páginas do Etc. e Tal  (17/09/2022) e de outros órgãos de comunicação, surgiu a notícia de que a empresa municipal Domus Social, sob coordenação da Porto Digital, vai promover na Campanhã o projeto CommuniCity. Concretamente, pretende-se experimentar a disponibilização de artefactos tecnológicos digitais, com impacto na vida quotidiana, a uma população que assim desenvolverá a sua literacia digital. Um projeto na esteira do SynchroniCity, que versava a Internet das Coisas (IoT). Projetos como esses evidenciam questões que são transversais a todas as tecnologias. Nomeadamente, relativas à influência destas últimas sobre os seus utilizadores, e as correspondentes opções feitas não só pelos designers e produtores, mas também por todos quantos aceitam e utilizam as tecnologias disponibilizadas. Me parece que a muitos de nós, bem além daquela freguesia oriental do Porto, faltará alguma literacia sociotécnica para lidarmos com essas questões. ...

O caso de Archie Battersbee e uma ciberdeontologia minimalista

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Fotografia: L. Pimentel, netsegura.pt Neste verão foi notícia o caso do jovem inglês Archie Battersbee, que se encontrava em morte cerebral após ter infligido a si próprio um procedimento de asfixia, alegadamente, por corresponder ao Blackout Challenge na rede social TikTok. O desafio é precisamente que cada destinatário se asfixie até perder os sentidos. Na linha, aliás, de outros desafios como o Baleia Azul, o Benadryl etc. Muitas pessoas reclamaram então alguma regulamentação dos conteúdos desses novos canais de comunicação. Por sinal, dias antes, o Parlamento Europeu tinha votado favoravelmente a Lei dos Serviços Digitais – a aprovar depois pelo Conselho da UE. Mas a alguns de nós não é fácil dormir descansados à sombra das instituições legislativas. Pois estas têm oscilado entre o atraso de quaisquer tais intervenções e, numa inclinação logo para o extremo regulamentador oposto, no nosso país até a Iniciativa Liberal demorou a denunciar o art. 6º da Carta de Direitos Humanos n...

Notas a uma leitura de férias: C. Rovelli, o tempo e a ação

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Passei a idade em que damos conselhos como quem distribui rebuçados. Todavia, nesta época ainda de leituras de férias, arrisco uma sugestão a quem se disponha a voltar às questões básicas, sem querer mergulhar logo em argumentações ou demonstrações exigentes. O pequeno (grande) livro de Carlo Rovelli, A Ordem do Tempo (Lisboa, Objectiva, 2020 , 191 pp. mas com poucas palavras em cada página), certamente a justifica. Por introduzir o estado da arte da reflexão sobre o tempo, e uma hipótese para um seu próximo passo. Essa hipótese inscreve-se bem  na velha esteira de Aristóteles ( Física , IV). Designadamente, numa associação do tempo a cada mudança, sem se invocar qualquer tempo cronológico absoluto. Entretanto, avançarei já a nota de que logo o Filósofo – assim distinguiram os medievais aquele que será o maior polímata da história da humanidade – terminou perguntando se, dessa forma, haverá tempo se não houver a mente que meça a mudança segundo um antes e um depois. 1.  ...

Transhumanismo – O desafio de Tolentino de Mendonça e as condições da tecnificação

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No seu sermão após a procissão do Campo nas últimas festas do Senhor Santo Cristo, o Cardeal D. Tolentino de Mendonça apontou o desafio epocal do transhumanismo. Já aqui vamos atrasados nesta referência, mas cada atraso com que abordemos esse tema só no-lo torna mais atual. O transhumanismo é um movimento gerado a meados do século passado, que propõe a superação de limitações do corpo humano mediante dispositivos tecnológicos. Entretanto, o desenvolvimento das nanotecnologias, das ciências cognitivas, em particular a IA, e das técnicas de edição genética, multiplicaram e precipitaram as possibilidades de tais intervenções. Face a essas possibilidades, Tolentino de Mendonça partilhou a noção de individualidade humana implicada no transhumanismo: não como duração de algum núcleo essencial, mas como processo de possível desenvolvimento e realização. Em conformidade ao atual conceito de inacabamento biológico do Homo Sapiens, às análises existenciais de Heidegger e Sartre etc. No ent...