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A “segunda era da máquina” e os açorianos (1)

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Foto A. Barreto, in:  Sorumbático Os jovens que hoje editam digitalmente apresentações de excursões e passeios por esta ilha não se lembram. Mas nós, da geração acima, temos ainda a imagem das estradas regionais, ao cair da tarde, cruzadas por homens a cavalo sobre albardas com uma ou duas bilhas de leite ao lado. Ou em carroças, quando o número das bilhas aumentava para três ou quatro. E por camiões-cisterna que transportavam para as fábricas o leite reunido nos postos espalhados pela ilha. Enquanto um pouco antes, à tarde como de manhãzinha, onde houvesse umas dezenas de vacas havia meia dúzia de trabalhadores a ordenhá-las. Depois vieram as ordenhas mecânicas, os jipes… E os ajuntamentos de trabalhadores passaram para as grandes obras, fossem públicas fossem prédios de apartamentos (além já dos serviços). A produção de leite até aumentara. Mas agora bastava um par de trabalhadores por lavoura comum. Em menos tempo do que dura a vida profissional de um homem, poré...

Novos Livros, Condições do Atraso do Povo Português

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1- De que trata este seu livro Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos ? R- Primeiro, e como infelizmente não é difícil, reconhece um crónico atraso sócio-económico de Portugal (pelo menos) desde o advento da economia industrializada, da urbanização da sociedade… por comparação aos nossos pares europeus. Segundo, equaciona esse problema radicalmente na nossa cultura, como base do estabelecimento e implementação das instituições sociais, políticas e económicas com as quais nos temos organizado. Terceiro, refuta empírica e logicamente o diagnóstico de Antero de Quental, uma vez deslocado dos séc. XVI-XIX para desde este último até à década passada (ou mesmo no período considerado pelo meu ilustre conterrâneo) – que as “causas” (“da decadência dos povos peninsulares”) seriam o catolicismo de Trento, um consequente autoritarismo político, e enfim uma cultura económica orientada para a conquista e não para a indústria e comércio. Quarto, para propor en...

“A comunidade científica em tempos de disputa”

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Vacinação ou não das crianças, construção ou não de uma incineradora em S. Miguel …  – A comparação entre estas atuais disputas sócio-tecno-científicas desde logo nos faculta assinalar os (já!) 20 anos daquela que talvez seja a mais importante ação de promoção da cultura científica até hoje ocorrida em Portugal. Que mais não fosse por isto, valeria a pena abordar aqui aquelas disputas. Refiro-me ao ciclo de conferências “A ciência tal qual se faz”, que decorreu entre outubro de 1996 e janeiro de 1998 na Fundação Calouste Gulbenkian, em mais uma iniciativa do ministro José Mariano Gago, sob coordenação do filósofo Fernando Gil. E, concretamente, à comunicação que o sociólogo da ciência Harry M. Collins ali apresentou, sob o título que importei para esta crónica. Mas aquela comparação, além de comemorar a efeméride, creio que nos sugerirá ainda um desenvolvimento do esquema de Collins. O qual – pelo menos até 2010 – bem se aplicou à disputa entre os defensores e os oponentes d...

Tecnocracia ou cientismo e retórica

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Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha. As ciências e as tecnologias tal qual são feitas Imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Certamente não. O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se enquanto o temp...

Incineradora, participação pública, e hipótese de uma "conferência de consenso"

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No último meio século, os estudos sobre tudo o que intervém no desenvolvimento e implementação das tecnologias derrubaram a anterior crença ingénua de que estas seriam decididas por razões estritamente técnicas. De modo que a definição clássica de tecnologia – como mera aplicação de conhecimentos científicos, que por sua vez seriam neutros a fatores sociais, económicos… – foi substituída por definições mais complexas e abrangentes (v. este  texto   sobre o eng. Edgar Cardoso). Se se opta por um regime democrático, daí decorre a exigência de participação pública nas decisões de implementação de certas tecnologias. Muito bem exemplificada pelo processo em curso nesta ilha sobre a construção de uma central de incineração de resíduos sólidos urbanos. Como Luís Anselmo bem apontou neste jornal em “Sinais da sociedade civil!” (15/03/2017). Mas, assim, este processo também sofre o problema de eficiência que se reconhece em tais participações. Democraticidade vs. eficiência ...

Facebook, Snapchat... e as relações simétricas entre tecnologia e sociedade

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Na semana da Web Summit o tema impõe-se: que relações se estabelecem entre a tecnologia e a sociedade? Reflitamos sobre a eventual experiência de uma leitora que esteja a ler estas palavras no seu smartphone, intercalando com uns saltos ao facebook, enquanto espera na sala de embarque de um aeroporto rumo àquela conferência em Lisboa. A geração Y, a geração Z, e a geração silenciosa Porventura terá escolhido os voos de ida e volta numa aplicação desse aparelho que lhos tenha selecionado segundo preços, horários e escalas. Assim como o local de alojamento em Lisboa, e porventura o carro alugado. Tendo ela não só nessa altura marcado e pago tudo isso também com o smartphone, como o terá utilizado ontem para fazer o check-in em casa enquanto jantava, trazendo o cartão de embarque digitalizado para ser lido oticamente nos controlos do aeroporto. Enfim, antes de responder à chamada para o embarque, essa leitora poderá fazer um breve comentário a esta crónica naquela rede social. E ...

Uma janela de 100 anos sobre a ciência contemporânea - O primado da razão

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Faz este mês exatamente um século que Albert Einstein publicou o artigo com um pormenor decisivo para a validade da teoria da relatividade geral (publicada em 2015): a previsão de ondas gravitacionais na base desta teoria. Daí o relevo que a comunicação social, em fevereiro passado, deu à interpretação de uma certa medição como sendo a deteção de ondas gravitacionais. Além do justo alvoroço nos meios estritos da física, esse processo parece-me revelador do que são em geral as ciências modernas e contemporâneas. Desde logo, sobre quão estas últimas têm vindo a afastar-se da observação espontânea do mundo natural e das relações sociais, e a privilegiar o exercício da razão. Um tempo vs. muitos tempos Einstein foi exemplo disso já com a teoria da relatividade restrita, em 1905, face a um problema com as medições da velocidade da luz. Pelo menos desde o best-seller Breve História do Tempo , de Stephen W. Hawking (1988), não faltam ao leitor apresentações avalizadas desse momento da...