Como mostrar as horas pode ser diferente de mostrar as horas - II

A identidade dos artefactos não se reduz às respetivas utilidades práticas. Inclui o significado que se lhes atribui, o qual decorre mas também enquadra a utilização que se lhes dá. É fácil de ver, e tem sido bem reconhecido, que esses significados variam com a configuração (forma e materiais) do artefacto e com os contextos da sua utilização, incluindo a tradição desta última. Mas o significado de um artefacto também pode corresponder às funções técnicas que realiza quando é utilizado, e até, eventualmente, à estrutura (física ou apenas lógica) que implementa essas funções.

Tissot Telemeter 1938
Volto ao exemplo de um relógio (poderia ter procurado agora uma terceira marca, mas gosto do modelo na imagem). Mais precisamente, um cronógrafo com telémetro e taquímetro. Como relógio, tem as funções técnicas de assinalar a sucessão de horas, minutos e segundos. Muitos relógios acrescentam a complicação de assinalar o dia do mês. Os relógios que apenas realizam essas funções implicam, e sugerem, a conceção do tempo como uma sucessão de unidades (divisíveis até ao limite técnico do ritmo de oscilação do "balanço"), às quais se reportam os eventos. De modo que, pela função prática da utilização desses artefactos, se determinam as relações de anterioridade/posterioridade e de simultaneidade dos eventos.

A equivalência métrica das unidades sucessivas, e a constância do movimento de sucessão, sugerem um tempo objetivo, ou seja, que evolui independentemente dos processos medidos. Porventura, um tempo absoluto ou comum a todos os eventos e processos no universo - o tempo de Newton. Mas a sucessão dos eventos também se pode concretizar como tempo histórico, não monométrico (i.e. as unidades podem alongar-se ou comprimir-se, a sucessão pode ser mais lenta ou mais rápida), mas ainda orientado entre o passado e o futuro. Embora a relação entre os eventos históricos permita uma datação compreensiva, como a relação dos restantes eventos ao momento do nascimento de Jesus Cristo. Essa determinação temporal compreensiva, aliás, é facultada e sugerida pelo movimento monométrico, e sempre num mesmo sentido, dos ponteiros. Esse tempo experimentado coletivamente pode ser sugerido pela configuração do relógio - no caso de um dos relógios referidos na crónica anterior, pela semelhança da forma dos elementos do seu mostrador ao relógio da torre da igreja da cidade de origem da marca.

Mais diferente é a conceção sugerida pelo acrescento das três complicações acima apontadas. Além da sua configuração e, no caso do modelo aqui considerado, da sua própria estrutura mecânica.

Enquanto o relógio tradicional visa instantes na reta do tempo, o cronógrafo visa processos que evoluem ou que se temporalizam. Nessa base, relógios como o modelo aqui considerado realizam a função de telemetria, mais precisamente, medem a distância de eventos visíveis e audíveis, considerando as diferentes durações dos respetivos processos de informação (dada a diferença entre as velocidades da luz e do som). E realizam a função taquimétrica de medir a velocidade de móveis, considerando a duração dos seus movimentos numa unidade de espaço predeterminada (1km).

Ao cuidado do utilizador do relógio, já para além da configuração e funções deste, ficará a tarefa de articular o tempo cronométrico do assinalamento das horas, minutos e segundos, com o tempo de processos, ou da diferença entre processos (telemétricos), ou com a relação entre tempo e espaço. Mais a tarefa de articular esse tempo complexo, mas ainda objetivo ou cronológico, com o tempo subjetivo, vivido ou tal como é experimentado por quem, por usar um relógio como o Telemeter 1938, provavelmente é esteticamente cativado pelo design entre Guerras (Mundiais I e II). Para quem o escolhe, esse ano de referência não está necessariamente à mesma distância de hoje - 2026 - que o ano de 2114, nem aquele simplesmente passou enquanto este apenas será futuro. Subjetivamente, como desde S. Agostinho a Heidegger passando por Proust bem se tem reconhecido, essa memória e essa expectativa reúnem-se num presente assim estendido além das coisas imediatas. Com a atenção presente, ou a projetar os tempos vindouros com base em memórias que, por serem relevantes, serão próximas ainda que (neste caso) de há 88 anos; ou a selecionar estas últimas por serem as que servem a construção do que se pretende, e por isso parecerá próximo, ainda que para daqui a 88 anos.

Em síntese, o significado de um artefacto, como o apresentado na imagem, depende das funções técnicas que ele realiza, além da sua configuração. Mas o exemplo aqui considerado revela ainda que a própria estrutura - os elementos e respetiva organização que realizam as funções - pode ser relevante para esse significado. Com efeito, o Telemeter 1938 distingue-se por incorporar um mecanismo (movimento) de cronógrafo automático desenvolvido na base do Valjoux 7750. O qual se tornou célebre entre os apreciadores de relojoaria por, com a sua economia, simplicidade, robustez e ainda assim precisão, ter resistido ao desafio da nova tecnologia do quartzo, na década de 1970. Pelo menos para esses apreciadores, portanto, a própria estrutura do artefacto é historicamente significativa.

Múltiplos são os fatores que enquadram, e orientam, a utilização de cada artefacto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Incineradora, participação pública, e hipótese de uma "conferência de consenso"

V. Machado Faria e Maia: A modernização da indústria de laticínios em São Miguel – 1937-1946

Karl Jaspers: Os Tempos Modernos e a democracia liberal