Como mostrar as horas pode ser diferente de mostrar as horas - II
É comum reconhecer que a identidade ou significado dos artefactos depende das funções práticas destes últimos – i.e. as tarefas que os respetivos utilizadores normalmente desempenham com eles –, considerando as tradições dessas funções. No entanto, as próprias funções técnicas dos artefactos podem ser significativas para essa identidade – i.e. aquilo que estes estão estruturalmente aptos a cumprir uma vez que sejam operacionalizados, e que tanto pode exceder as utilizações normais desses artefactos numas dadas sociedades e tradições, como limita essas utilizações possíveis (p. ex. um martelo pode funcionar praticamente como pisa-papéis... mas não como calculadora eletrónica). Tal como as configurações (formas, cores, texturas...) podem ser significativas. E até as estruturas, físicas ou apenas lógicas, pelas quais os artefactos realizam as respetivas funções técnicas. De modo que – contra a tese construtivista social de W. Bijker etc. – a função significante dos utilizadores, reguladores etc. não é propriamente a de criar e projetar significados para os artefactos. É antes a de reconhecer os significados que as funções técnicas e as estruturas dos artefactos projetam (quer os designers tenham tido essa intenção quer nem sequer tenham consciência disso), e escolher as funções práticas no seio desse enquadramento.
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| Tissot Telemeter 1938 |
Como relógio, realiza as funções técnicas de assinalar a sucessão de horas, minutos e segundos. Muitos relógios acrescentam a complicação de assinalar o dia do mês. Os relógios que apenas realizam essas funções implicam, e sugerem, a conceção do tempo como uma sucessão de unidades (divisíveis até ao limite estrutural do ritmo de oscilação da "roda de balanço"), às quais se reportam os eventos. De modo que, com esses artefactos, se cumprem as funções práticas de determinar as relações de anterioridade/posterioridade e de simultaneidade dos eventos.
A equivalência métrica dessas unidades sucessivas, a exclusão mútua entre o momento atual e cada um dos anteriores bem como cada um dos posteriores, e ainda a constância do movimento de sucessão, sugerem um tempo objetivo. Ou seja, que flui independentemente dos processos medidos. Porventura, o mesmo no universo inteiro.
Outro, porém, é o tempo, ou a experiência dele, que ressalta de configurações como a do modelo na imagem. Nomeadamente, ao recuperar a estética Art Déco (ou a configuração do mostrador de um dos modelos referidos na crónica que precedeu esta, cujos elementos se assemelham aos do relógio na torre da igreja da cidade de origem da Tissot). Neste tempo, dito histórico, as memórias coletivas perduram ou são recuperadas para se projetar ou orientar, pelo processo da ação atual, um tempo consequente, de forma que o passado (supostamente anterior) e o futuro (supostamente posterior) se imbricam, não se excluem. Um tempo também não monométrico, como o tempo objetivo, uma vez que as unidades podem alongar-se ou comprimir-se, a sucessão pode ser mais lenta ou mais rápida.
Ao qual também alude a estrutura física deste cronómetro da Tissot. Designadamente, uma evolução do calibre (modelo de mecanismo) Valjoux 7750. O qual se tornou célebre entre os apreciadores de relojoaria por, com a sua economia, simplicidade, robustez e ainda assim precisão, ter resistido ao desafio da nova tecnologia do quartzo, na década de 1970 – v. review (ou da legenda da imagem). Pelo menos para esses apreciadores, portanto, a própria estrutura de um artefacto pode ser historicamente significativa.
Na sua heterogeneidade, um e outro tempo, todavia, parecem remeter-se mutuamente. A filosofia do tempo reconhece este problema desde Aristóteles e S. Agostinho: do lado do tempo histórico, o ato de recuperar ou pelo menos herdar um passado e de gerar um futuro na sua base é ele próprio (o ato de receber o passado em ordem ao futuro) temporal no sentido sucessivo. Isto é, cada ato dessas articulações vem na sequência de outros anteriores, e será sucedido por outros posteriores. De modo que o tempo objetivo parece enquadrar o histórico. Mas, inversamente – e como precisamente Aristóteles logo reconheceu ao se perguntar se haverá tempo se não houver uma alma (mente) que o meça –, o tempo cronológico é uma abstração racional. Não corresponde diretamente à evolução dos dias e das noites (que, fora do equador, varia entre os solstícios), nem exatamente à rotação da Terra etc. Ainda que seja abstraído na base destes fenómenos cosmológicos, é uma construção da mente humana. Logo, parece que o tempo vivido, seja individual (t. psicológico) seja coletivamente (t. histórico), enquadra e gera o tempo rigorosamente cronológico. Mas a conjunção de ambos os enquadramentos é contraditória.
A articulação desses dois tempos porventura verificar-se-á então numa terceira base, da qual ambos decorrerão, para serem mantidos paralelamente em áreas particulares de aplicação ou de concetualização. A qual me é sugerida pelas outras funções técnicas do Tissot Telemeter 1938, no horizonte estético da sua configuração.
Refiro-me às funções – "complicações", na linguagem dos relojoeiros – de cronometragem, telemetria a taquimetria. Enquanto o relógio tradicional visa instantes na reta do tempo, o cronógrafo visa processos que evoluem ou que se temporalizam, ao assinalar a diferença cronológica entre os instantes dos respetivos início e termo. Nessa base, relógios como este modelo realizam a função de telemetria, mais precisamente, medem a distância de eventos visíveis e audíveis, em resultado da diferença cronométrica entre os termos dos respetivos processos de informação ou assinalamento, considerando a diferença entre as velocidades da luz e do som. Por exemplo, a distância da artilharia inimiga considerando a diferença entre a visão dos clarões das explosões e a audição destas. E realizam a função taquimétrica de medir a velocidade de móveis – p. ex. atletas a descer uma pista de ski –, considerando a duração dos seus processos de movimento numa unidade de espaço predeterminada (1km). Ou seja, determinam um espaço, supondo-se duas velocidades e cronometrando-se uma duração ou diferença entre dois instantes; e determinam uma velocidade, considerando-se um espaço e cronometrando-se uma duração.
Estas funções cronométricas relacionam o tempo cronológico aos movimentos e ao espaço. De forma que o horizonte da utilização desses relógios ficará concetualmente estruturado pela Teoria da Relatividade (1905, 1915), com a recusa de um tempo objetivo absoluto, pela relação da determinação cronológica dos eventos à chegada da respetiva informação e à velocidade deste processo. Aliás, na esteira de Aristóteles, que afirmou que "o tempo é alguma coisa do movimento" (Física, IV).
Ora, a correlação dessas duas conceções do tempo, a cronológica (relativista) e a histórica e subjetiva, a uma condição processual, com o reforço estético do design Art Déco que prende a atenção nessas primeiras décadas do séc. XX, gera-me uma conjetura relativa a outra conceção dessa era: a de A.N. Whitehead sobre a constituição daquilo que há como processos, e não como coisas imutáveis, pelo menos nuns seus núcleos, que eventualmente fossem movidas ao longo de sucessivas posições numa reta temporal. Encontrar-se-á aí uma base sobre a qual se concebam e articulem aquelas duas conceções particulares?
Em suma, me parece que o que os utilizadores do Telemeter 1938 e de outros relógios comparáveis trazem ao pulso são condições de uma conceção englobante do tempo. Mais, talvez, uma conjetura sobre o modo de as coisas existirem em geral.
Em mais uma instância da tese de que o significado de um artefacto não é alheio às funções técnicas que ele realiza, à sua estrutura e à sua configuração. É certamente interpretado, mas não é socialmente construído tout court pela comunidade que o produz e utiliza.

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