Enviesamento – enquadramento e uma solução realista e democrática-liberal
O
enviesamento algorítmico fere a objetividade da aplicação dos sistemas
inteligentes a cada circunstância, e gera discriminações sociais. Há diversos
procedimentos técnicos para o minorar. Mas a escolha entre estes depende do
enquadramento desse problema, e de pelo menos duas pressuposições teóricas. Nestas
linhas, apontarei o rumo da solução que decorre de um quadro teórico, aquele em
que abordo eticamente esta nova tecnologia, apontando, assim também, os
primeiros alvos de uma crítica a esse rumo.
Num
passo ainda pré-ético desse enquadramento, uma vez que concebamos a
“inteligência” da IA conforme o paradigma comportamentalista
– normalmente enquadrado numa abordagem funcionalista aos processos mentais –,
podemos distinguir três momentos no processo desta tecnologia:
1)
Extração e coleção de dados – o input da
função.
2)
Tratamento dos dados, conforme a estrutura do
algoritmo (p.e. conexão de sucessivas camadas de “neurónios”), até à produção
de algum modelo ou padrão que constituirá a função a executar nas
circunstâncias a considerar.
3)
Inferência
(as abdutivas apenas por aproximação estatística) de outputs nas circunstâncias,
ou conjuntos de dados que as caracterizam, a que o modelo se aplique – esses
resultados podem retropropagar-se ao 2.º momento, numa aprendizagem do sistema.
Em
conformidade, podemos orientar a análise ética estritamente deste processo
tecnológico – isto é, abstraindo-o das condições materiais e sociais da sua
implementação, e do que a IA faz na globalidade desse processo e destas suas condições
– em ordem a questões com significado ético que se coloquem em cada um desses
três momentos.
Uma
delas é a do enviesamento. Tomemo-lo num sentido moralmente neutro,
significando a simples determinação prévia de um processo para um desvio deste
último a favor de alguns resultados. Um dos modos em que isto se verifica naqueles
dois primeiros momentos da inteligência artificial é logicamente necessário. Ou
assim alguns o julgamos – por esta discutibilidade, deixo esse modo, e a
questão de como lidar com ele, para a próxima crónica. Consideremos agora o modo
contingente de enviesamento algorítmico, ainda que historicamente recorrente, em
virtude do enviesamento social.
A
saber: i) é um facto que as sociedades se organizam regularmente de
forma não equitativa, pelo menos em alguns dos parâmetros organizacionais; ii)
os dados extraídos da sociedade refletem essas discriminações; iii) o
modelo obtido na base desse conjunto de dados apresentará algum enviesamento
correspondente. Na gíria técnica, garbage in, garbage out.
Posto
isso, configuram-se três estratégias para se controlar (evitar?) discriminações
nas circunstâncias a que o modelo se aplique:
A)
Síntese artificial dos dados oferecidos ao
algoritmo (no 1.º momento do processo técnico), corrigindo a informação sobre
as discriminações de género, raça etc. que se verifiquem socialmente.
B)
Assunção dos dados, mas exigindo (no 2.º
momento) que o sistema venha a satisfazer condições de equidade na sua operação
– “fairness algorítmica” –, p.e. utilizando apenas casos comparáveis,
conforme variáveis estabelecidas como relevantes, entre os diferentes grupos
sociais.
C)
Regulamentação da utilização das inferências
apresentadas pelos algoritmos no 3.º momento processual.
Essas
estratégias distinguem-se pelas respetivas implicações teóricas: a última (C)
visa e respeita uma realidade – i.e. admite-se aí algo não só independente, mas
mesmo condicionador de qualquer conhecimento seu. Nesse horizonte, as
prescrições visam primeiramente limitar o desequilíbrio do poder.
A estratégia
A assume o termo “realidade” para designar o mero resultado de uma projeção ou
construção subjetiva (universal, ou relativa a grupos sociais). As prescrições
constituem-se como a orientação dessa construção.
A
estratégia intermédia (B) não desmente a informação da realidade, mas
condiciona a sua coleção e tratamento para se obter um modelo que implemente os
preceitos éticos ou ideológicos de quem controla o treino algorítmico.
Sobre
estas questões, aqui direi apenas que, pela minha parte, enjeito o
construcionismo implicado por A, tomo como possível o realismo (na linha
pragmática de C.S. Peirce), e enjeito o paternalismo institucionalizado
assumido por A e B. Logo, sigo a estratégia C. Fica a nota, porém, de que todos
quantos aspiramos a alguma justificação na escolha entre aquelas estratégias
nos comprometemos com uma argumentação, primeiro, sobre o significado do velho
termo “realidade”, segundo, sobre a origem e eventuais limites do poder
institucional.
Aqueles
de nós que assumimos essas teses realista e democrática-liberal, perante o problema
do enviesamento algorítmico dado o enviesamento social, aceitaremos sempre os
dados extraídos da sociedade. Para cuidarmos de os enquadrar eticamente
mediante procedimentos técnicos de
a)
monitorização dos métodos de extração de dados,
em vista de estes serem tão representativos ou fiéis quanto possível;
b) regulação da tomada de decisões com base nos produtos algorítmicos – no 3.º momento do processo técnico –; para cuja produção poderemos admitir – numa intervenção no 2.º momento – condições elementares de fairness algorítmica que reforcem o desiderato (a), desde que estabelecidas de forma transparente; e
c) auditoria regular das consequências das decisões tomadas, para confirmar ou reajustar o sistema.
In Tek Notícias, Opinião, 02/09/2026

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