Da necessidade do enviesamento algorítmico
O qual conclui que, se se
considerar o conjunto de todos os problemas de otimização igualmente prováveis,
nenhum algoritmo é, em média, superior a outro. Ou seja, não é logicamente
possível um algoritmo universal para a resolução perfeita de qualquer problema.
Esta ilegitimidade teórica de uma
pretensa universalidade, ou valor absoluto, de algum algoritmo, ou seja, de um
processo de racionalidade discursiva, inscreve-se, aliás, na conceção clássica
de pensamento que aqui
tenho assumido. A saber, essa discursividade depende, logicamente, de
intuições ou de axiomas que, se obtêm justificação completa, esta não se
processa discursivamente – ou seja, escapa ao plano da racionalidade
mecanizável. Pelo que o enviesamento algorítmico é necessário, correspondendo aos
princípios que sejam impostos ao discurso racional.
Isso não implica que, especialmente
em circunstâncias bem delimitadas ou para problemas específicos, não seja
possível avaliar algum modelo algorítmico como melhor do que os alternativos.
Mas essa avaliação pressupõe i) uma delimitação da circunstância dada (i.e. traçar
o limite entre o que lhe é próprio e o que a ultrapassa ou é despiciendo à
consideração do que está aí dado), ii) o reconhecimento de uma condição
problemática nessa circunstância, e iii) o estabelecimento dos parâmetros de
satisfação da condição “resolvido”, que orientarão o consequente processo desde
o equacionamento à proposta de uma, assim dita, “solução”. Ora, como Karl Popper
bem apontou na sua crítica à pretensão de uma observação neutra – que não seria
mobilizada e orientada por quaisquer interesses ou preconceitos prévios –, as posições
iniciais do método do conhecimento melhor justificado – o “científico” – são
sempre enviesadas por algumas pressuposições. Por exemplo, o enviesamento
algorítmico começa nas opções sobre o que se constituirá como dado das circunstâncias
naturais ou sociais, e sobre aqueles que deverão ser extraídos destas.
De forma que eventuais consensos
sobre o valor de algoritmos se constituem como consensos (que se podem vir a
quebrar) na admissão de enviesamentos comuns. Não representam a inexistência
destes.
Em suma, o enviesamento
algorítmico é metafísica, lógica, e metodológica ou praticamente necessário. Por
consequência, esforços para o eliminar são quiméricos. Dadas a perda de
objetividade e as discriminações sociais que dele resultam, as questões com
sentido que se colocam são:
A)
como se escolhem os enviesamentos com que
quereremos viver?
B)
Como nos poderemos defender e minorar os vícios
dos enviesamentos que assumirmos?
Para isso, à partida e em geral,
no Ocidente temos à mão os princípios concetuais e éticos que nos têm facultado
o reconhecimento dos problemas que nos têm perturbado coletivamente, e as respetivas
equações e resoluções que construíram a civilização que os outros consideram ou
onde querem viver. Numa palavra – que abre toda uma outra discussão –, é
prudente enjeitar a oikofobia
que Roger Scruton começou a denunciar no século passado.
Em particular, limitar-me-ei a repetir
a conclusão cuja argumentação esbocei na crónica
anterior: devemos focar as nossas intervenções normativas na aplicação e utilização
dos sistemas inteligentes. Enjeitando, a seu montante, a inclinação, hoje bastante
sugerida, para uma síntese artificial de dados ideologicamente “purificados”. Outrossim,
importa cuidar dos métodos de extração de dados, para que estes sejam
representativos, e de os modelos construídos na sua base facultarem informação
sobre as dimensões que julgarmos relevantes na realidade em que nos encontramos.
in: Tek Notícias, Opinião, 14/10/2026

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