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Convergência das NBIC (I): um desafio na nova metade da década

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Depois de mais de 300.000 anos coletando os produtos da Natureza, há cerca de 12.000 anos deixámos de nos ajustar a esta última e passámos a ajustá-la a nós. Correspondentemente, deixámos de viver em pequenos bandos, com relações personalizadas, e criámos grandes sociedades com relações e instituições tendencial ou mesmo assumidamente formais. Até à segunda década deste século, quando firmámos um conjunto de processos sociotécnicos que eventualmente contribuirão para uma nova era nessa história. Em particular, com esta novidade de o Homo Sapiens perder a exclusividade, para algoritmos artificiais e com vantagem destes últimos, de alguns dos procedimentos que nos têm facultado o nosso poder único. No dobrar da metade desta terceira década, com o tempo histórico aparentemente em plena aceleração, dificilmente outro conjunto de questões nos merecerá mais atenção. Na década anterior, refiro-me a acontecimentos como o Prémio Breakthrough de 2015, que distinguiu a tecnologia CRISPR-Cas9. A q...

A reindustrialização e a tecnologia como vontade

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Enquanto ainda se discute o Orçamento do Estado, sobre o financiamento e orientação de uma eventual reindustrialização e desenvolvimento tecnológico do nosso país, concordaremos que ou serão eminentemente comunitários, ou em boa parte nacionais, ou não se realizarão quaisquer dessas inovações que impliquem investimento. Em última análise, porém, a opção sobre esse financiamento e orientação implica uma decisão no âmbito do que um autor já clássico, ainda que numa obra que cumpre agora o número redondo de trinta anos apenas, chamou a “tecnologia como volição”. Uma decisão também salientada, embora de forma mais simplificada, pelos recentes Nobel da economia Daron Acemoglu e Simon Johnson. No plano da modalidade de financiamento, dada a carta pública do nosso Primeiro-ministro à Presidente da Comissão Europeia, a opção portuguesa parece ser a comunitária. Tanto por um aumento das dotações nacionais para o orçamento da UE, quanto pela mutualização de dívida contraída pela Comissão Europ...

De incêndios vários à decisão e prestação de contas

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Desde os incêndios todos os verões até a decisão que demorou 50 anos sobre um novo aeroporto, parece bem termos um problema com as decisões em alternativas da nossa vida coletiva. (Que um dos nossos maiores entretenimentos televisivos sejam os infindáveis e em regra inconsequentes comentários de eventos políticos, é mais um sintoma desta dificuldade). Numa aproximação ao esclarecimento da estrutura desse problema, em particular quando as alternativas se abrem sobre equipamentos públicos, será útil atender a um outro incêndio: o que deflagrou no hospital público da ilha mais povoada dos Açores, São Miguel, em maio passado. A área de implantação desse complexo é tendencialmente retangular. Mas, apesar de o incêndio ter ocorrido apenas na secção onde se encontrava a central elétrica, afastada do centro do conjunto, todos os doentes foram evacuados e os serviços foram suspensos. Por sorte, a iniciativa privada construíra poucos anos antes um hospital de dimensões suficientes para acol...

A escola e os conhecimentos práticos

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Passado o verão, centenas de milhar de estudantes e professores, e indiretamente as respetivas famílias, aprestam-se a encetar mais um ano de aquisição/transmissão de conhecimentos e desenvolvimento de competências. Especialmente nos ensinos secundário e superior, cada uma dessas pessoas estará a orientar-se conforme uma distinção entre conhecimentos ditos “teóricos” e “práticos” (para simplificar, ignoremos aqui as competências). Aos teóricos, destinam-se principalmente o ensino secundário regular, muitos cursos universitários e bastantes “cadeiras” no ensino superior politécnico. Já a generalidade dos cursos deste último tipo de ensino, partes importantes de alguns cursos universitários (ex. engenharias ou medicina), e o ensino técnico profissional destinam-se principalmente aos conhecimentos práticos. Em conformidade a essa distinção, para que cada estudante, professor ou família de apoio melhor cumpra a respetiva orientação para uns ou outros currículos e tipos de escola, convé...

No verão, back to basics com D. Hume

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E esta é a pista mais relevante que julgo Hume nos ter aberto, ainda que em poucas frases como as seguintes: “O grande subversor (…) dos princípios excessivos do ceticismo é a ação, o trabalho e as ocupações da vida comum”. David Hume (Edimburgo, 1711-1776) serviu a Coroa britânica na embaixada em Paris, cidade onde também ficaram famosas as suas noitadas com amigos. Ou seja, o homem era reconhecido como alguém capaz de aumentar a probabilidade de a vida correr bem, quer na dimensão pessoal e de socialização, quer na dimensão pública ou comum. Afigura-se-nos assim uma boa leitura para este próximo tempo de lazer, em que também podemos preparar mais um ano de vida. Inclusive pelo reduzido tamanho, e pela linguagem acessível, da obra que referirei adiante. Na dimensão pública, Hume esteve na origem do primeiro sistema monetário internacional – o padrão-ouro – com a sua contribuição para a Teoria Quantitativa da Moeda. No entanto, a herança mais relevante que nos deixou encontrar-se-á no ...

O mal está aqui

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Fui ver O Mal Não Está Aqui , de Ryusuke Hamaguchi (2023), por uma pequena sucessão de coincidências mais a boa memória de um outro filme do mesmo realizador. As críticas são díspares. Mas, desde as suas primeiras cenas, me ocorreram passagens do diagnóstico e da terapia que Albert Borgmann propôs da nossa cultura e sociedade tão mediadas tecnologicamente. E assistir ao filme do realizador japonês, em diálogo com este filósofo (falecido fez agora um ano) de nascimento alemão mas adotivo do e adotado pelo Estado norte-americano de Montana, mais do que premiou a aposta. Designadamente, a cena, demorada, da recolha de água num riacho, agachando-se a pessoa junto a um pequeno desnível onde a água recém-degelada corre límpida, para a apanhar da poça num potezinho, com o cuidado de não levantar impurezas do fundo. Aos elementos desses contextos na floresta ou na cidade, bem como aos utensílios usados – ex. potes –, Borgmann chama “coisas” (ing. things ). Com as quais a pessoa se relaciona in...

EU AI Act (III) – O risco da abordagem baseada nos riscos

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Em dezembro passado, o Parlamento e o Conselho Europeus inauguraram mundialmente a regulamentação da produção e implementação da Inteligência Artificial (IA). Ainda que a aplicação desse diploma seja progressiva. Como está expresso no website oficial da Comissão Europeia (CE, página “ AI Act ”), no desenho desse regulamento foi adotada uma abordagem baseada nos riscos da IA. Isto é, considerando o produto (multiplicação) do grau de prejuízo atribuído a certos resultados desses sistemas tecnológicos pela probabilidade de tais resultados ocorrerem – assim, se a probabilidade de uma certa ocorrência até for baixa, mas se considere enorme a gravidade desse resultado, o risco deste será alto. Este tipo de avaliação de tecnologias costuma fazer-se em três momentos: o reconhecimento ou estimativa (ing. assessment ) dos riscos, a avaliação ( evaluation ) destes últimos, e a sua gestão. Creio que o maior risco que corremos com essa abordagem se joga nas condições desse terceiro momento que ...