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Manuais escolares digitais e mediação tecnológica

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Foi anunciado recentemente  que o Governo Regional irá dedicar dinheiro dos contribuintes à aquisição de tablets e sua oferta progressiva a todos os estudantes, para a utilização de manuais, ao que parece na notícia, apenas digitais. Colocam-se, naturalmente, questões de fiscalização e escrutínio das contas públicas – como se controlam os contratos com os fornecedores?… Assim como questões práticas – quem e como pagará os tablets que se estraguem?… Mas, antes, colocam-se questões de princípio a uma tal utilização de tecnologia. Designadamente, em dois níveis consequentes. Num nível mais básico, com Don Ihde, reconhecemos que cada utilização de alguma tecnologia marca ou determina, a jusante, os objetos visados e, assim, o mundo intervencionado. Mas marca igualmente, a montante da utilização, os seres humanos que a utilizam. Como abordaremos em baixo. Aquele filósofo americano distingue quatro tipos dessa mediação entre o homem e o mundo pela tecnologia. A mediação em causa na opção...

As novas armas anticarro e a ordem das determinações da ação prática

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A guerra, na sua radicalidade, expressa a ação humana como talvez nenhum outro fenómeno. É o caso do impacto de uma inovação tecnológica na atual guerra na Ucrânia. No recente artigo “ Ukraine’s three-to-one advantage ” ( The Atlantic , março de 2022), Elliot Ackerman reflete sobre uma sua conversa com um ex-fuzileiro americano com comissões feitas no Iraque – tal como o próprio Ackerman – que tinha acabado de combater os russos na Ucrânia. Este outro militar deu-lhe conta de como a tática de intervenção no solo no Iraque, com blindados a abrirem caminho para a infantaria, não teria sucesso agora neste conflito, dado o aparecimento no cenário bélico das armas anticarro Javelin (americanas) e NLAW (britânicas). As quais anulam a vantagem dos blindados, inclusive pela manuseabilidade dessas armas. Repete-se, assim, a forma da evolução da tática militar que se verificou quando a artilharia anulou o poder defensivo das muralhas, e a defesa territorial abdicou dos castelos; quando a met...

O caso da Ucrânia e o “instrumentalismo” de J. Dewey

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EFE / I. Ortega De um lado, temos acordos comerciais e financeiros que, a troco de mais um confortozinho nas sociedades ocidentais cujas economias mal cresciam, as vieram deixando reféns das oligarquias russa ou chinesa. Temos precisamente as estratégias expansionistas destes últimos países, progressivamente implementadas no fornecimento de gás ou na construção da Nova Rota da Seda. E teríamos a generalidade dos ucranianos, tivessem eles vergado face aos blindados e helicópteros russos, para salvar coisas como mais um jantarinho no tabuleiro assistindo a qualquer telenovela ou concurso televisivo. Do outro lado, no entanto, temos a resistência que cada ucraniano está a implementar juntamente com os seus próximos e as instituições do país. Começaram-na e mantêm-na a despeito das recordações, que seguramente têm, da Crimeia, da Geórgia e da Chechénia, ou até de Praga e de Budapeste. Desde há cerca de um século que diversos autores têm associado escolhas práticas como aquelas primeiras a ...

O próximo governo e a política de economia do conhecimento

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O programa do PS para estas eleições enfatizou a economia do conhecimento no desenvolvimento do país. Uma ênfase explícita ou implicitamente partilhada por outros partidos. Em resposta, aliás, a desafios e oportunidades dos novos ‘loucos anos 20’  como os reconhecidos, há precisamente um ano, num grande inquérito americano sobre transformações tecnológicas, e assim sociais, para esta década. O conceito dessa economia, porém, e depois a implementação dela, não são simples. Com efeito, a expressão “economia do conhecimento” tem um duplo significado, o que lhe constitui também duas dimensões: por um lado, significa uma estrutura produtiva e distributiva baseada nas tecnociências; por outro lado, significa os próprios processos de produção e distribuição de conhecimentos tecnológicos e científicos. Essas duas dimensões são autónomas, isto é, uma política económica que cuide diretamente de uma delas não cuida automaticamente da outra. Alguma política de produção e distribuição do própr...

Ponta Delgada, Capital Europeia de uma Cultura integral – tecnologia e ciência

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Em 1959, C.P. Snow proferiu a conferência “The two cultures”, em que distinguiu a cultura das ciências e a cultura das Humanidades. E desconsiderou a segunda pela sua falta de rigor e pela sua irrelevância para o melhoramento das condições de vida das populações. A avaliação social dos cursos “de ciências” e “de letras” revela bem como essa continua a ser a disposição comum. Exatamente meio século depois, Jerome Kagan retomou a questão da ponderação de diferentes culturas disciplinares em The Three Cultures – Natural Sciences, Social Sciences and the Humanities in the 21st. Century . Mas apontou as respetivas assunções seminais, vocabulários e contributos. Para argumentar que nenhuma esgota a experiência humana do mundo e de nós próprios. As três culturas – ou quatro, se descolarmos as artes das Humanidades – devem, pois, ser consideradas e até articuladas. J. Kagan, The Three Cultures Abordamos aqui apenas a primeira – aquela que consolidou a distinção da cultura de matriz europei...

Inteligência Artificial, escola e futuro próximo

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No recente Fórum Regional da Qualificação Profissional, o Secretário Regional Duarte Freitas (na fotografia) relevou “ os desafios da indústria agro-alimentar e ainda a digitalização e a economia azul, áreas com grande potencial de desenvolvimento nos Açores ” ( C.A. , 19/11/2021). Entretanto, no país e na região, finalmente se acordou para a iminente falta de professores. Um denominador comum entre uma solução desta carência – não só pela substituição de docentes, também pela dignificação das funções que então lhes serão próprias – e aquela digitalização na indústria etc., será o tratamento da Inteligência Artificial na educação escolar ( IAED ). Nomeadamente, em três dimensões: aprender sobre a IA, aprender para a IA, e aprender com a IA. A primeira dimensão introduzirá as outras duas, mas desenvolver-se-á com estas. Nos EUA, o programa AI4k12 (IA para o ensino básico e secundário) contempla 5 ideias sobre IA que todos os alunos devem conhecer: i ) perceção (sentidos humanos ...

Martin Heidegger - A raiz da distopia tecnológica

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É frequente o lamento de que nos alienamos da nossa condição humana nesta sociedade crescentemente tecnologizada. Motivados pelo recente volume da revista Atlântida (IAC) sobre utopias e distopias , perguntemo-nos: mas não somos nós, seres humanos, quem determina os fins para os quais usamos as tecnologias, e que assim as controlamos? Martin Heidegger, provavelmente o mais célebre e o mais obscuro pensador sobre a tecnologia e o homem, respondeu que não somos. Aqui fica uma tentativa de em menos de 500 palavras interpretar essa resposta. Primeiro, assinalemos que a sua obra se foca na condição básica de tudo o que esteja envolvido em quaisquer acontecimentos ou ações, desde este computador até à pessoa que se encontra a utilizá-lo: tudo isso é (existe). A sua primeira condição é a de ser . Heidegger acentuou que, na tradição encetada na Grécia Antiga, o ser teria sido pensado, digamos, como um processo de adveniência de cada ente à presença dos demais. Em especial, a-presentação àquel...