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Afinal, o que é a tecnologia? – O caso dos xenobotes

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Faz amanhã um ano que, normalmente aos primeiros sábados de cada mês, sempre entre 495-500 palavras, aqui abordamos as intermediações da tecnologia entre o homem e o mundo. Fazendo um ponto da situação, esta será uma boa ocasião para abordar a questão básica que seria a primeira, mas que foi ficando adiada: afinal, o que é a tecnologia? O que é isso, desde as pedras lascadas do Homo Habilis até artefactos atuais como os xenobotes, que distingue a atividade dos espécimes do género “Homo”, ou seja, a forma humana de existir? C. Mitcham Um dos autores mais referidos nesta área, o historiador Carl Mitcham, registou quatro usos do termo “tecnologia”: como designação de i ) objetos, coisas como máquinas ou mesmo sistemas físicos, mas artefactuais. Em relação às ii ) atividades de design, produção e de utilização daqueles objetos. Designação de iii ) conhecimento, em especial o “saber-como” fazer as coisas, (eventualmente) distinto do “saber o que” as coisas são. E, ainda neste âmbito antr...

Desafios e oportunidades dos novos “loucos anos 20”

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O Pew Research Center e o Imagining the Internet Center apresentaram em fevereiro os resultados do inquérito que fizeram a 915 especialistas, de diversas áreas, sobre as suas expetativas em relação à qualidade da vida humana em 2025, dadas as atuais tendências tecnológicas, especialmente as digitais, e reações à pandemia. Em geral, 47% dos inquiridos esperam que a vida seja globalmente pior para a maioria das pessoas, 39% esperam o oposto, e 14% esperam que a vida não seja muito diferente para a maioria da população. Todavia, mais interessantes do que essas estimativas, são as identificações dos processos em curso. Pois daí ressalta o que hoje (!) devemos fazer para que precisamente, já pelo meio desta década e nos tempos seguintes, sejamos dos winners e não dos losers  – em que os primeiros 86% daqueles inquiridos concordam em dividir a população à saída da pandemia . Entre as mudanças que estão a emergir rapidamente, os peritos reconhecem: a crescente procura de dispositivo...

W.G. Vincenti, “O que os engenheiros sabem” (2)

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No início do ano letivo, trouxe a esta coluna o esquema dos tipos e variantes de conhecimento tecnológico proposto por Walter G. Vincenti ( “‘O que os engenheiros sabem’ (1)” ). Começado há pouco o segundo semestre, aqui fica uma referência às categorias cognitivas que esse autor reconheceu no cerne da produção tecnológica – desde aviões ou vacinas até software . É a aplicação destas categorias que nós contribuintes compramos ao financiar essas escolas. i ) Conceitos fundamentais – primeiramente, o princípio operacional do artefacto: o funcionamento global do artefacto que cumpre o propósito que este serve – p. ex. ordenha por vácuo em condições tão controladas quanto possível. É conforme esse princípio que o artefacto se define – ex. sala de ordenha – e que o sucesso deste último é avaliado em termos técnicos. Outro conceito fundamental é o de configuração normal do artefacto a desenhar: a disposição geral dos componentes que na comunidade técnica se reconheça cumprir melhor ...

A Covid-19 e o “enviesamento do crescimento exponencial”

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Há um ano, enquanto chegavam notícias da expansão da Covid-19 aos primeiros países europeus, a saúde pública portuguesa continuava regular. Só mais tarde apareceram aqui os primeiros casos, e poucos. Mas, a 14 de março, a ministra da saúde reconheceu que o crescimento da pandemia no país se tornara exponencial. E na segunda quinzena desse mês, segundo  dados da Johns Hopkins University , estivemos nos primeiros lugares mundiais nesse parâmetro (segundo os números conhecidos, claro). Esse tipo de crescimento é ilustrado pela história do pedido do matemático indiano Sessa Ibn Daher ao seu soberano, quando este o quis premiar pela invenção do jogo do xadrez: um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira, oito… sempre duplicando até à 64ª casa. O soberano logo aceitou, mas, quando calcularam a riqueza assim indicada, o reino inteiro não a valia. Em troca, num crescimento linear o aumento é sempre aproximadamente o mesmo – p. ex. em cada nova casa d...

A "intimidade" das novas bicicletas e a 3ª década deste século

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Neste ano que fechou a segunda década do século, foi apresentado mais um protótipo significativo das tecnologias da década que começou ontem. E assim também sobre o modo de ser humano e do mundo que serão intermediados por tais tecnologias. É o caso da ebike Ena , depois da Ava e da Ari, apresentadas pelo Exertion Games Lab na Austrália. O segundo destes protótipos aumenta a experiência humana de operacionalizar uma bicicleta, produzindo sons (como um motor de combustão em aceleração) e luzes de alerta, em correspondência ao movimento do corpo (em aceleração, mais inclinado) ou do conjunto (e.g. quase parado no trânsito urbano). Já a ebike Ari acelera o motor elétrico de compensação, ou aconselha sonoramente o ciclista para reduzir a velocidade, de modo a apanhar o maior número de “verdes” nos semáforos com que se cruzará, a cujo sistema a bicicleta tem acesso. Enfim, a Ena EEG (eletroencefalograma) inclui um capacete com elétrodos que informam o artefacto se o ciclista se encontra ...

A Covid-19 e a sociedade do risco

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Em tempo de balanço do ano Covid, reconheceremos que se estão a acelerar e intensificar dois processos que assim nos condicionarão em força na década que se inicia com o fim deste mês. Por um lado, o extraordinário sucesso que a tecnologia se prepara para alcançar na compensação do surto do novo coronavírus, ao bater todos os records temporais de invenção e validação de vacinas. E de “invenção” mesmo se trata, uma vez que algumas dessas vacinas são compostas não pelo vírus enfraquecido, como tradicionalmente, mas apenas pelo seu ARN, numa vacina já não natural mas sintética. Ou seja, ela constitui propriamente um artefacto tecnológico, não é meramente o uso intencional de um objeto natural. A ser aplicada mediante uma campanha logística de dimensão planetária de produção de milhares de milhões de unidades de vacina, da sua armazenagem e transporte em condições artificiais, ministração, recolha e resolução das respetivas seringas. Por outro lado, ainda no passado fim de semana manifes...

Admirável homem novo - A "fusão" com a tecnologia

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Na madrugada (hora açoriana) de 28 para 29 do último mês de agosto, Elon Musk apresentou via youtube o andamento na Neuralink da produção da tecnologia que, ao mediar a nossa relação com o mundo, mais se fundirá connosco. E ilustrou a mais ingénua e perigosa atitude que podemos ter hoje perante estas novas tecnologias. Concretamente, Musk apresentou um porco com um implante no cérebro em comunicação com um computador, comparando-se o seu comportamento com os de porcos sem implantes. O dispositivo enviava para o computador informação sobre variações elétricas no cérebro. No caso, a ativação de certas secções cerebrais perante comida. Tal como poderia comunicar variações em situação sexual etc. – ou estritamente no caso humano, de trabalho, política… O que permite construir padrões cerebrais associados aos comportamentos entretanto observados, e depois inferir os comportamentos mais prováveis de cada animal (humano) uma vez que o computador indicie um certo padrão no respetivo cérebro....