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Os açorianos e a "segunda era da máquina" (2)

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Na semana passada recebi uma série de notícias do atentado em Barcelona, enquanto não fazia ideia do que pudesse estar a acontecer ao meu vizinho. É mais um exemplo da nossa participação na “sociedade global” definida por Niklas Luhmann. Participação esta que nos sujeita a uma revolução que se poderá tornar maior do que qualquer outra já experimentada pela humanidade. A cumprir-se provavelmente no tempo de vida das gerações nascidas nas décadas de 80 ou de 90 do século passado, se não já durante a reforma das gerações de 60 ou de 70. Inteligência artificial – do desemprego ao alerta de Hawking Designadamente, a passagem de uma sociedade conforme à produção mediante a operação de ferramentas e máquinas e até a programação destas últimas, para outra sociedade conforme a máquinas capazes de aprendizagem e de autoprogramação – v. “ A ‘segunda era da máquina’... (I) ”, que o leitor tem à distância de alguns toques no seu smartphone (e onde com um só toque pode abrir a obra em que Br...

A “segunda era da máquina” e os açorianos (1)

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Foto A. Barreto, in:  Sorumbático Os jovens que hoje editam digitalmente apresentações de excursões e passeios por esta ilha não se lembram. Mas nós, da geração acima, temos ainda a imagem das estradas regionais, ao cair da tarde, cruzadas por homens a cavalo sobre albardas com uma ou duas bilhas de leite ao lado. Ou em carroças, quando o número das bilhas aumentava para três ou quatro. E por camiões-cisterna que transportavam para as fábricas o leite reunido nos postos espalhados pela ilha. Enquanto um pouco antes, à tarde como de manhãzinha, onde houvesse umas dezenas de vacas havia meia dúzia de trabalhadores a ordenhá-las. Depois vieram as ordenhas mecânicas, os jipes… E os ajuntamentos de trabalhadores passaram para as grandes obras, fossem públicas fossem prédios de apartamentos (além já dos serviços). A produção de leite até aumentara. Mas agora bastava um par de trabalhadores por lavoura comum. Em menos tempo do que dura a vida profissional de um homem, poré...

Novos Livros, Condições do Atraso do Povo Português

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1- De que trata este seu livro Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos ? R- Primeiro, e como infelizmente não é difícil, reconhece um crónico atraso sócio-económico de Portugal (pelo menos) desde o advento da economia industrializada, da urbanização da sociedade… por comparação aos nossos pares europeus. Segundo, equaciona esse problema radicalmente na nossa cultura, como base do estabelecimento e implementação das instituições sociais, políticas e económicas com as quais nos temos organizado. Terceiro, refuta empírica e logicamente o diagnóstico de Antero de Quental, uma vez deslocado dos séc. XVI-XIX para desde este último até à década passada (ou mesmo no período considerado pelo meu ilustre conterrâneo) – que as “causas” (“da decadência dos povos peninsulares”) seriam o catolicismo de Trento, um consequente autoritarismo político, e enfim uma cultura económica orientada para a conquista e não para a indústria e comércio. Quarto, para propor en...

“A comunidade científica em tempos de disputa”

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Vacinação ou não das crianças, construção ou não de uma incineradora em S. Miguel …  – A comparação entre estas atuais disputas sócio-tecno-científicas desde logo nos faculta assinalar os (já!) 20 anos daquela que talvez seja a mais importante ação de promoção da cultura científica até hoje ocorrida em Portugal. Que mais não fosse por isto, valeria a pena abordar aqui aquelas disputas. Refiro-me ao ciclo de conferências “A ciência tal qual se faz”, que decorreu entre outubro de 1996 e janeiro de 1998 na Fundação Calouste Gulbenkian, em mais uma iniciativa do ministro José Mariano Gago, sob coordenação do filósofo Fernando Gil. E, concretamente, à comunicação que o sociólogo da ciência Harry M. Collins ali apresentou, sob o título que importei para esta crónica. Mas aquela comparação, além de comemorar a efeméride, creio que nos sugerirá ainda um desenvolvimento do esquema de Collins. O qual – pelo menos até 2010 – bem se aplicou à disputa entre os defensores e os oponentes d...

Tecnocracia ou cientismo e retórica

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Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha. As ciências e as tecnologias tal qual são feitas Imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Certamente não. O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se enquanto o temp...

Incineradora, participação pública, e hipótese de uma "conferência de consenso"

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No último meio século, os estudos sobre tudo o que intervém no desenvolvimento e implementação das tecnologias derrubaram a anterior crença ingénua de que estas seriam decididas por razões estritamente técnicas. De modo que a definição clássica de tecnologia – como mera aplicação de conhecimentos científicos, que por sua vez seriam neutros a fatores sociais, económicos… – foi substituída por definições mais complexas e abrangentes (v. este  texto   sobre o eng. Edgar Cardoso). Se se opta por um regime democrático, daí decorre a exigência de participação pública nas decisões de implementação de certas tecnologias. Muito bem exemplificada pelo processo em curso nesta ilha sobre a construção de uma central de incineração de resíduos sólidos urbanos. Como Luís Anselmo bem apontou neste jornal em “Sinais da sociedade civil!” (15/03/2017). Mas, assim, este processo também sofre o problema de eficiência que se reconhece em tais participações. Democraticidade vs. eficiência ...

Facebook, Snapchat... e as relações simétricas entre tecnologia e sociedade

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Na semana da Web Summit o tema impõe-se: que relações se estabelecem entre a tecnologia e a sociedade? Reflitamos sobre a eventual experiência de uma leitora que esteja a ler estas palavras no seu smartphone, intercalando com uns saltos ao facebook, enquanto espera na sala de embarque de um aeroporto rumo àquela conferência em Lisboa. A geração Y, a geração Z, e a geração silenciosa Porventura terá escolhido os voos de ida e volta numa aplicação desse aparelho que lhos tenha selecionado segundo preços, horários e escalas. Assim como o local de alojamento em Lisboa, e porventura o carro alugado. Tendo ela não só nessa altura marcado e pago tudo isso também com o smartphone, como o terá utilizado ontem para fazer o check-in em casa enquanto jantava, trazendo o cartão de embarque digitalizado para ser lido oticamente nos controlos do aeroporto. Enfim, antes de responder à chamada para o embarque, essa leitora poderá fazer um breve comentário a esta crónica naquela rede social. E ...