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Mensagens

A transparência da nossa consciência – um ídolo do teatro?

Neste retorno à normalidade após o verão, venho colar no meu ecrã um post-it com a inscrição “Navegar entre os aforismos de Francis Bacon!”. E, embora já tenha entrado na idade em que dificilmente terei algo parecido com um conselho a dar a alguém, atrever-me-ei a sugerir que especialmente os estudantes de Pensamento Contemporâneo, e cadeiras afins, nas licenciaturas ou mestrados de engenharias e demais técnicas, ponderem algo equivalente àquele post-it. Erasmo, Descartes, Galileu… Com Erasmo de Roterdão (1469-1536) e os seus pares, depois da terrível Peste Negra do séc. XIV, e da conceção medieval do ser humano no seio de um universo centrado num Criador transcendente, foi reabilitada uma dignidade propriamente humana. Não necessariamente substitutiva da dignidade divina, mas valorizadora da liberdade, da ação, e da vida humana. Gerando-se assim um otimismo em relação à história que as sucessivas gerações de mulheres e homens podem construir. Assim se plantou o tronco Moderno. Que es…
Mensagens recentes

“Conhece-te a ti próprio” – mas em que base?

Sobre Yuval Noah Harari e uma resolução da questão do uso da Inteligência Artificial, das biotecnologias… na pista de “Conhece-te a ti mesmo

Curiosamente, na sua recente entrevista a Yuval N. Harari(Público, Ípsilon, 24/08/2018, 08:00h), Alexandra Prado Coelho usou a palavra “próprio” para formular a célebre proposição socrática aqui no título. Que o seu entrevistado propôs como máxima para respondermos aos próximos desafios da Inteligência Artificial, da biotecnologia… Se bem o interpretei, o historiador israelita estaria antes a pensá-la como “Conhece-te a ti mesmo”. Mas creio que esta última palavra indicia um caminho que eventualmente não levará a lado algum. Ao contrário daquela outra palavra portuguesa, que nos projetará para a questão nuclear de quaisquer tecnologias, num caminho que nada indica ser aporético. Um pormaior linguístico Supondo que tenham conversado em inglês, imagino que Harari tenha usado a expressão “Know thyself” – se isso não é verdade, para o que se segue será

Há mais coisas na tecnologia, Heidegger, Ellul… do que são sonhadas nas vossas filosofias

A forma da crítica de Hamlet a Horácio julgo assentar aqui como uma luva[1]. Mas com a intenção inversa, pois, se o príncipe da Dinamarca lamentou a excessiva racionalidade do amigo, inclino-me a criticar uma racionalidade insuficiente daquele (referidos no título) filósofo alemão, daquele teólogo, filósofo e sociólogo francês, etc., quando se dispuseram a falar sobre tecnologia sem, aparentemente, terem analisado os fenómenos que costumamos designar com essa palavra. Procurarei esboçar esta crítica com base num caso: o da tecnologia de ordenha. (Pergunto-me pelo acerto de trazer um tema destes a uma plataforma eminentemente sobre cinema, música, grande literatura… Ou se calhar é esta última que nos confronta com as coisas da vida. Nem que seja de alguma forma enviesada como, depois de ler as páginas acima mencionadas, porventura ter eu sonhado numa destas noites de verão com a flor mágica de Oberon, que nos faz apaixonarmo-nos pelo que virmos em seguida[2], sonhando depois com uma s…

Aquelas coisas desinteressantes onde todavia começam as resoluções dos problemas

São cada vez mais os autores que dão conta do complexo de problemas que a Inteligência Artificial, as biotecnologias, etc., colocam não só à organização social, laboral… mas ao ser humano tal como este se constitui desde o advento do Homo sapiens, e à natureza em geral. Foi aliás por aí que comecei esta série de crónicas. Mas veja-se antes, aqui, a "pandemia electrónica" ainda agora muito bem reconhecida por José Malta. Ou o artigo de Paulo Jorge Falcão Alves (Omnia, 2018, 8 (1)), com as pistas bibliográficas que abre. Ou a crónica de Maria de Sousa Pereira Coutinho (Observador, 19/06/2018), até por abrir antes uma objeção à proposta que aqui deixarei.
Passos em frente na resolução desses problemas com certeza se requerem, e urgentemente. No entanto, qualquer caminhada que nasça torta tarde ou nunca se endireita. Pelo que nestas linhas infletirei antes duas notas atrás. Uma cartilha da resolução de problemas “Problema”, etimologicamente, significa um obstáculo posto à frent…

Pela estufa, contra a Natureza

Habituei-me a ouvir e a ler que Adam Smith teria defendido que existe um mecanismo de autorregulação das relações entre os membros de qualquer comunidade, de tal modo que, se ninguém interferir nelas, as comunidades se organizarão espontaneamente pelo melhor. Seria a esse mecanismo que se referiria a metáfora da “mão invisível do mercado”. Chamando-se então “liberais” aos que acreditam na existência dessa “mão”, e “intenvencionistas” aos que não confiam nela. Até que li algumas passagens do próprio Adam Smith. E encontrei este professor de filosofia moral, na Glasgow de meados do séc. XVIII, a defender quase o contrário.  Começando pela passagem onde afirma que, se produtores num determinado mercado (o das passagens aéreas, o dos serviços escolares, o dos cuidados médicos…) se encontrarem por acaso numa qualquer sala, passados vinte minutos estarão a “conspirar” (o termo é do autor) sobre como evitar a concorrência entre si, e como cada um poderá oferecer o mínimo e pior possível pelo …

Plástico – do quotidiano à decisão em desafios globais

O Museu de Leiria, e o Centro Interuniversitário de História da Ciência e Tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estão a preparar para 2019 uma exposição cuja importância cultural não imagino que possa ser ultrapassada por qualquer outra. Para a qual pedem a nossa contribuição em fotografias, informações e eventualmente em peças, a enviar neste mês e no próximo – daí o momento da presente crónica. Refiro-me à exposição sobre a história dos plásticos. Um tipo de materiais que, de tanto os aproveitarmos no nosso quotidiano, tanto os reconhecemos como utilíssimos quanto (não sendo hoje facilmente recicláveis) os tornamos um problema ambiental global. Para cuja resposta nos confrontamos com a questão da evolução tecnológica obedecer a alguma dinâmica interna, determinando a sociedade – e restar conformar-nos – ou, inversamente, ter essa última controlo sobre aquela evolução – e devermos então preparar alguma resposta. Nem de propósito, precisamente o “triunfo da b…

A corrida de bicicletas

Passado o inverno começam as corridas de bicicletas. Mas uma está em curso há já uns anos. Nela, há algum tempo atrás vinham os ciclistas a subir a montanha. Uns “trepadores” à frente, depois estendia-se o pelotão, mas todos progredindo com custo, naturalmente mais devagar do que tinham rolado antes na planície. Para trás do pelotão, quatro atletas começaram a arrastar-se até tenderem a cair para a berma. Num último fôlego gritaram por socorro. Os diretores das outras equipas disseram “Solidariamente, não podemos abandoná-los”, enquanto pensavam que sem concorrentes suficientes nem haveria prova para eles ganharem. Pelo que mandaram os seus carros irem rebocá-los até perto do cume da montanha. Quando lá chegaram, o candidato a diretor de uma destas equipas atrasadas inchou o peito e bradou “Não chega! Vocês têm é que pôr o nosso ciclista ao nível de todos por igual!” Os outros diretores nem lhe responderam. Mas o povo da vila que se fazia representar por essa equipa gostou da voz grossa,…