Da moralidade das caravelas… à necessidade de um Museu das Descobertas
A aproximar-se mais um 10 de junho, e com o levante que por aí vai pelo projeto de um museu das Descobertas, tomemos eticamente o caso das caravelas portuguesas. Perguntando-nos se em si mesmas, e com elas os respetivos designers e construtores, merecem a aprovação moral tanto dos europeus e suas extensões civilizacionais, quanto daqueles que para disso participarem enfrentam hoje a morte no Saara e Mediterrâneo, ou a caminho da fronteira entre o México e os EUA. Ou se merecem a condenação moral, por terem servido para transportar escravos, atacar povoações… Ou se ainda, como diria o sr. Lazar, caravelas não constroem globalizações, as mãos é que puxam as adriças e seguram a roda de leme, na escolha de transportar café ou escravos.
Só os usos das caravelas terão sentidos morais
Pela minha parte, fui apresentado a essa terceira tese – da neutralidade moral
da tecnologia – pela resposta do referido armeiro: “Mr. Bond, as balas não
matam. É o dedo que puxa o gatilho” (O
Homem da Pistola Doirada).
A tese tem a atratividade das ideias simples:
i) Um objeto técnico definir-se-á apenas pela sua estrutura física – ou virtual, se se estender o
conceito de “objeto técnico” além da matéria.
ii) Ainda que essa estrutura propicie em especial uma certa
função ou família de funções, pode facultar outras – ex. uma PPK está
especialmente vocacionada para disparar projéteis, mas pode servir de
pesa-papéis, etc.
iii) Pelo que o sr. Lazar, quando soube para que “parte” ela
estava apontada sob o tampo da mesa, teria de dirigir o engulho que sentiu na
garganta apenas ao agente que decidiu que essa seria a melhor forma de a usar
ao serviço de sua majestade.
A mesma neutralidade moral se atribuirá às caravelas. Alargada a quem as
desenhou e construiu. A escolha daquilo para que serviram, e portanto a responsabilidade
moral, terá cabido apenas a quem de cada vez as manobrou no mar, mais a quem a
isso os comandou.
A constituição da caravela é já moral
Acentuei com itálico o “apenas” logo
no passo (i) do argumento acima
porque me parece estar aí o calcanhar de Aquiles da tese da neutralidade moral
da tecnologia.
No caso de uma pistola, será evidente que a respetiva estrutura física
propicia especialmente usos à James
Bond. Esta família de funções é pois constitutiva daquele objeto técnico. O
qual não se define então simplesmente pela respetiva estrutura física.
Pelo que quem a desenha, quem decide a consequente produção, e quem assim
produz esses objetos, está a implicar-se nos usos normais deles. Ainda que porventura
sem a mesma responsabilidade de quem escolhe entre disparar, apenas ameaçar… ou
usar essa pesada coisa de aço, por acaso em forma de “L”, para segurar uns
papéis levantados pelo vento.
Responsabilização equivalente será mais difícil em objetos estruturalmente
tão vocacionados para o mútuo enriquecimento entre povos e pessoas, quanto para
a opressão de uns sobre outros. Suponho que nestes casos, como o das caravelas,
os seus autores se corresponsabilizam então em bloco pelo mundo assim encetado,
tanto no que tenha de construtivo quanto de destrutivo.
Mas não exploremos já quais possam ser os níveis de moralidade tecnológica,
mantendo-nos na abordagem inicial a uma verificação dela. Uma das dimensões que
a revela é a política – v. Langdon Winner (pp. 128, 129).
Com efeito – e metendo eu a foice em seara de que nada sei (correções nos
comentários abaixo são desde já agradecidas) – a estrutura das caravelas determina
que estas apenas funcionem se operacionalizadas por comunidades pequenas mas
organizadas. A saber, compostas por uns quantos elementos que manobrarão as
adriças… um outro, solitário, na roda de leme, outro ainda comandando-os a
todos, distinguido por conhecimentos como o do astrolábio, e investido da
autoridade requerida tanto pelos prováveis problemas interpessoais num grupo
fechado meses a fio, quanto pela articulação e urgência das respostas aos
garantidos desafios do mar. Ou seja, a estrutura da caravela determina desde
logo uma hierarquia rígida para a sua utilização, pois sem ela o objeto não
desempenharia a função que terá justificado a sua construção.
(Já agora, o astrolábio também será um fator do autoritarismo, um
vergonhoso símbolo do esclavagismo?…)
Essa dimensão política será talvez menos percetível em objetos de uso
individual, como uma espada (ou uma PPK). Ainda aí, porém, o requisito de faculdades
físicas e mentais adequadas a esse uso induzirá a sociedade, uma vez que
construa e forneça tais artefactos, a organizar-se de tal forma que tenha
sucesso em atividades personalizadas. Já o sucesso de superbombardeiros,
mísseis, drones militares… e robôs
industriais ou domésticos, etc., promove antes redes de engenheiros, de nerds de joguinhos eletrónicos, e dos
respetivos produtos.
A tecnologia pode até investir-se politicamente ao participar da forma de resolução
da escolha entre modelos de sociedade como esses. Ainda que normal e felizmente
isso aconteça de modo mais prosaico do que a forma prática como (a tiro de
pistola) se resolveu a sessão pública onde M e uma ministra discutiam, de forma
teórica, o interesse da manutenção dessa cota
secção 00 (Skyfall).
Dois telegramas
finais (os jovens leitores que googlem
“telegrama” mais o uso metafórico que nós cotas
damos a essa palavra)
1)
A
complexidade moral das caravelas… e dos astrolábios, etc., até todo o
empreendimento das “Descobertas”, não inibe a construção de um museu que lhes
seja dedicado. Ao contrário, é um dos fatores que mais o requerem, como espaço
de desenvolvimento e cruzamento de interpretações críticas.
2)
Lembrete
do engenheiro mecânico aeronáutico Ludwig Wittgenstein a dicionaristas: travar o
uso de um nome por dúvidas prévias sobre esse último é não perceber que pouco
ou nenhum significado ele chega a ter que não seja precisamente naquele uso.
Uma vez que a produção do objeto se justifica, avance-se pois com esta;
cole-se ao objeto um dos rótulos com que a maioria dos membros da comunidade
mais facilmente se refiram a esse objeto; e deixe-se que o significado do
rótulo se vá construindo neste uso. Eventualmente, o de descobertas daquilo que as ditas marítimas terão sido.
In: Comunidade Cultura e Arte, 20/05/2018
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