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Da essência da tecnologia - Um caso açoriano

No nosso quotidiano, da leitura deste jornal impresso ou online à bebida de um café tirado de uma máquina, compreender a tecnologia é esclarecer boa parte do que vivemos e somos. Procuremos então caracterizá-la, primeiro na base de um caso de estudo açoriano, e depois ensaiando outra aplicação do conceito antes exemplificado.

Um caso propriamente açoriano

Tomemos o caso das ordenhas móveis - apresentadas por Fátima Amorim et al., no abrangente apesar de pequeno estudo Vacas leiteiras em pastoreio, da IDEASS, como “uma inovação açoriana” (p. 1). Aliás, “a inovação mais interessante no maneio das vacas leiteiras nos Açores (…) constituindo a base deste modelo produtivo” (p. 8). Os autores não sustentam esta sua última afirmação. Mas, intuitivamente, pelo menos não nos é difícil reconhecer às ordenhas móveis “uma grande vantagem nas zonas em que as explorações agrícolas possuem terrenos com muitas parcelas, dispersas por vários locais” (ibid.).
Este caso ilustra assim a condição de se apresentar já realizada, por alguém, em algum sítio, num certo momento, com que Hans Radder começa por caracterizar a tecnologia em geral – sempre além pois de qualquer teoria ou projeto de intenções.
Por outro lado, o referido estudo acentua a integração sociotécnica das ordenhas móveis, desde o “conhecimento da população das técnicas a utilizar na produção, do interesse para aprender novas tecnologias, do nível de escolaridade…” (p. 11), até outras tecnologias correlativas, como a demarcação das áreas de pastoreio com fio elétrico, ou os chassis, máquinas de vácuo, tanques… cuja combinação – e esta foi a inovação tecnológica em causa – resulta na ordenha móvel (v. p. 8). Ilustrando outra das caraterísticas que Radder atribui à tecnologia: a sistematicidade, em ordem a uma função ou à realização de alguma obra.
Este filósofo da Universidade de Amesterdão também caracteriza a tecnologia pela heterogeneidade dos elementos combinados – igualmente ilustrada pelas anteriores referências.
As quais sugerem a divisão do trabalho entre quem desenvolve a tecnologia (quaisquer produtores de ideias), quem a produz (serralheiros), e quem opera com ela (lavradores) – outra caraterística da tecnologia segundo Hans Radder.

A relação entre tecnologia e ciência

O autor tem participado da crítica, e ultrapassagem, do anterior modelo linear da relação da tecnologia com a ciência – que colocava a primeira em consequência da segunda. Naturalmente, Radder assume essa relação como mais uma caraterística da tecnologia. Mas não como mera ciência aplicada. Antes o conhecimento tecnológico incorpora habilidades e técnicas operativas; além de poder tomar os conhecimentos teóricos (ex. gravidade) não concetualmente em si mesmos, mas mediante objetos ou acontecimentos que os incorporem (ex. a queda habitual dos corpos). Autonomizando-se assim do conhecimento propriamente científico.
Apesar do sítio Ciência Hoje estar (espero que só temporariamente!) indisponível, acrescento que apontei ali o “cálculo experimental”, e a observação de estruturas naturais (ex. plantas), com que o célebre eng. Edgar Cardoso desenvolvia os seus projetos de pontes complexas e inovadoras sem se reduzir ao conhecimento físico e químico.
Também o conhecimento implicado nas ordenhas móveis não contradirá o científico – ex. as lavagens e desinfeções são articuláveis com as teorias microbiológicas relevantes. Mas a exequibilidade (1ª caraterística de Radder) daquela tecnologia não exige o domínio destas últimas (estava bonito se assim fosse!…). Nem mesmo o plano original destas máquinas de ordenha terá requerido tal conhecimento concetual – bastaria notar o estrago do leite em ordenhas cujas tubagens e tanques não fossem alvo de procedimentos ditos de “esterilização” (registando-se apenas esses comportamentos, sem se atribuir qualquer significado à palavra entre aspas). Assim como a montagem de uma casa metálica sobre um chassis pode partir da mera observação de um camião, sem qualquer compreensão sequer da mecânica clássica, etc.
Note-se que a anterior caracterização da tecnologia não se compromete com alguma materialidade – como o metal, tubagens… que constituem as ordenhas móveis.
Estas são assim tão “tecnológicas” quanto, por exemplo, os sistemas de edição de um jornal. Visto serem executados – por certas pessoas, para outras pessoas, com os respetivos conhecimentos teóricos e práticos, os respetivos valores e decisões correspondentes, etc. Certamente heterogéneos. Com divisões do trabalho. E relacionados a teorias científicas – psicológicas, etc., as quais porém também tomam as experiências como base de observação, sendo ainda aquelas teorias "filtradas" e moduladas pelos jornalistas durante a prática desta atividade.
Em suma, a tecnologia não é uma mera aplicação de conhecimentos científicos. É antes constituída por um complexo que inclui fatores muito heterogéneos (entre os quais esses conhecimentos, mas também outros obtidos no próprio processo técnico, além ainda em alguns momentos do senso comum). E é desse complexo que depende o sucesso de qualquer tecnologia, do fio elétrico e ordenhas móveis às máquinas de café e à edição de jornais.

P.S. – Agradeço a Susana Carvalho as fotografias de ordenhas móveis que tirou e me enviou, ao saber que eu pretendia tomar essa tecnologia como caso de estudo nestas crónicas, agradecendo mais ainda a intenção com que o fez.

1ª versão in: Correio dos Açores, 12/01/2016

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