Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2018

Plástico – do quotidiano à decisão em desafios globais

O Museu de Leiria, e o Centro Interuniversitário de História da Ciência e Tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estão a preparar para 2019 uma exposição cuja importância cultural não imagino que possa ser ultrapassada por qualquer outra. Para a qual pedem a nossa contribuição em fotografias, informações e eventualmente em peças, a enviar neste mês e no próximo – daí o momento da presente crónica. Refiro-me à exposição sobre a história dos plásticos. Um tipo de materiais que, de tanto os aproveitarmos no nosso quotidiano, tanto os reconhecemos como utilíssimos quanto (não sendo hoje facilmente recicláveis) os tornamos um problema ambiental global. Para cuja resposta nos confrontamos com a questão da evolução tecnológica obedecer a alguma dinâmica interna, determinando a sociedade – e restar conformar-nos – ou, inversamente, ter essa última controlo sobre aquela evolução – e devermos então preparar alguma resposta. Nem de propósito, precisamente o “triunfo da b…

A corrida de bicicletas

Passado o inverno começam as corridas de bicicletas. Mas uma está em curso há já uns anos. Nela, há algum tempo atrás vinham os ciclistas a subir a montanha. Uns “trepadores” à frente, depois estendia-se o pelotão, mas todos progredindo com custo, naturalmente mais devagar do que tinham rolado antes na planície. Para trás do pelotão, quatro atletas começaram a arrastar-se até tenderem a cair para a berma. Num último fôlego gritaram por socorro. Os diretores das outras equipas disseram “Solidariamente, não podemos abandoná-los”, enquanto pensavam que sem concorrentes suficientes nem haveria prova para eles ganharem. Pelo que mandaram os seus carros irem rebocá-los até perto do cume da montanha. Quando lá chegaram, o candidato a diretor de uma destas equipas atrasadas inchou o peito e bradou “Não chega! Vocês têm é que pôr o nosso ciclista ao nível de todos por igual!” Os outros diretores nem lhe responderam. Mas o povo da vila que se fazia representar por essa equipa gostou da voz grossa,…

Da moralidade das caravelas… à necessidade de um Museu das Descobertas

A aproximar-se mais um 10 de junho, e com o levante que por aí vai pelo projeto de um museu das Descobertas, tomemos eticamente o caso das caravelas portuguesas. Perguntando-nos se em si mesmas, e com elas os respetivos designers e construtores, merecem a aprovação moral tanto dos europeus e suas extensões civilizacionais, quanto daqueles que para disso participarem enfrentam hoje a morte no Saara e Mediterrâneo, ou a caminho da fronteira entre o México e os EUA. Ou se merecem a condenação moral, por terem servido para transportar escravos, atacar povoações… Ou se ainda, como diria o sr. Lazar, caravelas não constroem globalizações, as mãos é que puxam as adriças e seguram a roda de leme, na escolha de transportar café ou escravos. Só os usos das caravelas terão sentidos morais Pela minha parte, fui apresentado a essa terceira tese – da neutralidade moral da tecnologia – pela resposta do referido armeiro: “Mr. Bond, as balas não matam. É o dedo que puxa o gatilho” (O Homem da Pistola Do…

O regresso de três velhíssimas questões

Vendo bem as coisas, neste fim da segunda década do séc. XXI fará sentido assinalar o dia do trabalhador a 1 de maio, e não a 12 de abril. Mas em qualquer caso, para entrarmos com os olhos abertos na terceira década deste século, teremos de os voltar para o séc. IV a.C. A revolta ludita Pois, de um lado, assinala-se hoje a grande manifestação de 1886 em Chicago, reivindicando a redução da jornada de trabalho para 8h. Redução?! Nestes tempos em que se precipitam notícias de máquinas – quer dizer, de coisas que desenvolvem, ou que se sucedem a outras que chamávamos “máquinas” – que a cada ano superam as expetativas do ano anterior sobre as suas próximas capacidades de reunião e tratamento de informação, de tomada de decisão, e até de geração por essas "máquinas" de comportamentos adequados com base em dados para cuja interpretação elas não recebem regras, ou seja, capacidade de “aprendizagem” nessa adequação, o que se perspetiva é a extinção de muitos postos de trabalho humano. O…

“Falando em corrupção… malefícios evitáveis?”

Pouco assisti à investigação da SIC sobre (a alegada) corrupção entre o Sr. Ricardo Salgado, de um lado, e os Srs. José Sócrates, Manuel Pinho, Zeinal Bava… do outro lado. Mas o caso parece cheio daqueles episódios em que a realidade ultrapassa a ficção. A ficção rasca. E como tal, confesso, acaba por me interessar mais ir seguindo o FCP. Todavia, no futebol, lá vem o Benfica e a operação e-toupeira. Levanto os olhos aos céus… e logo tem de passar um avião na rota de Lisboa, onde me lembro que viajará o Sr. Carlos César, ou a D. Berta Cabral, que mal aterrarem irão receber o (legalíssimo) reembolso por essa viagem apesar de ter sido a Assembleia da República a pagá-la, isto é, o leitor e eu. Tal como aliás somos nós quem paga os reembolsos. Não há como fugir à coisa. Em especial a 25 de abril. Pelo que trago a estas páginas o seu livro que um antigo colega de faculdade teve recentemente a amabilidade de me enviar: Sociedade e Estado em Construção: Desafios do Direito e da Democracia em A…

"É natural?"

Tomemos o exemplo do trigo. A sua domesticação, há pouco mais de uma dezena de milhares de anos, é um dos marcos da maior revolução – o Neolítico – por que o Homo Sapiens passou nos 300 mil anos que a nossa espécie leva. Com efeito, o trigo selvagem – que se reproduz por si mesmo, ou seja, “naturalmente” – espalha em volta os grãos que assim não são facilmente recolhidos. Para os aproveitar, numa agricultura que requereu a sedentarização e lançou a civilização humana, foi preciso intervir intencionalmente – “artificialmente” – numa seleção dos espécimes cujas espigas, por defeito natural, preservassem os grãos, para fazer a planta reproduzir-se então mediante a ação humana. Pela qual depois, mediante artefactos para isso criados, fosse feita a colheita, e a moagem por meio de outros artefactos, o acondicionamento e transporte da farinha em outros artefactos ainda… mediante organizações do trabalho para esse fim também criadas, etc. Mesmo sem chegar aos atuais cereais transgénicos, “é n…

O comércio global e os “teoristas de sociedades impossíveis”

Cumpriram-se nesta semana 92 anos sobre a publicação de um dos contributos do (julgo) maior intelectual português de sempre – aliás, o único nos nossos nove séculos que merecerá destaque mundial – a favor do liberalismo económico: o artigo “A evolução do comércio”, publicado por Fernando Pessoa no Nº 3 da Revista de Comércio e Contabilidade, Lisboa, em 25/03/1926. Cuja evocação abro com uma citação dedicada aos altermundialistas de hoje, aos socialistas do Bloco de Esquerda, PCP, e PS+D’s que com eles geringonçam, mas igualmente aos conservadores que rejubilam desde o brexit às promessas de Trump: “A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas de sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas”. Pessoa, que desenvolveu a sua carreira profissional precisamente no setor comercial, reconheceu a cultura como o outro traço distintivo da civilização. Entre os quais, argumenta, se estabelece tan…

Da liberdade – eutanásia; política económica

Esta semana o presidente do Governo Regional e o seu secretário das finanças anunciaram uma viragem liberal numa importante dimensão da política económica açoriana. Palmas! Mas também não quero deixar de participar aqui na discussão em curso sobre a eutanásia, e a minha próxima vinda a esta Coluna poderá ser tardia para isso. Divido-me então, mas first things first. 1.A questão política da eutanásia, e uma sua resposta liberal – Tomemos o caso (real) de uma jovem italiana que desenvolveu uma personalidade eminentemente prática e desportiva, até que na casa dos 20 anos sofreu um acidente de ski e ficou tetraplégica. Não tendo conseguido esboçar um outro projeto de vida, muitos anos depois pediu a morte ao pai. E este acabou por pedi-la às autoridades que teriam competência na matéria. Duas perguntas se formulam aqui. De um lado: devo eu, uma vez posto/a numa situação como aquela, considerar que já tirei o partido que pude da vida, e que não faz sentido prolongar o sofrimento …

A canábis recreativa e os Horácios

Imaginemos que o leitor resolve substituir o sofá da sua sala por uma tábua bonita montada sobre um cavalete, com outra tábua perpendicular para encosto. E eu intervenho: “Não te deixo fazer isso porque te vai fazer mal à coluna”. Ao que o leitor responde: “Mas eu acho que a cor da madeira diz bem com o resto da minha sala, e só isso é que me interessa…”. Então apresento relatórios de 9 em cada 10 ortopedistas a confirmarem que o ângulo reto e a dureza fazem mal à saúde: “Cor ou não cor, estraga-te a coluna, portanto não te dou licença para mudares o teu sofá na tua sala”. E mantenho a proibição ainda que o leitor sugira pagar uma taxa superior aos custos públicos que os seus futuros tratamentos ortopédicos possam ter. Ou será que o leitor (supondo que não me mandava logo para trás do sol posto) deveria ter dito apenas: “Não é da tua conta. Ponto final”? Assim está o consumo recreativo de canábis. Nove em cada dez neuropsicólogos dizem que causa perdas de memória, de controlo motor… Mas…

Da modernização da indústria açoriana de laticínios, e de um seu "capitão da indústria"

O texto seguinte constitui a maior parte dos "Apontamentos sobre Eduardo Soares de
Albergaria pelo seu filho Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, presentemente com 80 anos", manuscrito do arquivo familiar dos descendentes do Eng. Jacinto Soares de Albergaria.
Foram aqui selecionados os "apontamentos" que se referem à modernização da indústria de laticínios em S. Miguel; bem como às faculdades e comportamentos de Eduardo Soares de Albergaria significativos para questões como a de como efetivamente se faz a tecnologia e respetivo investimento (em meios distantes dos grandes centros políticos, económicos...); a da determinação da tecnologia sobre a sociedade, ou a inversa, ou de alguma forma ambas; as caraterísticas pessoais dos empreendedores; até a especificidade do conhecimento tecnológico que se não reduz a aplicação do conhecimento científico...
Não foram incluídos "apontamentos" de cariz mais pessoal, ou relativos à intimidade familiar.
As passagen…