Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A velha lição da nova lei do financiamento dos partidos

Desde as carteiras da cabulice no ensino básico, de truque nenhum se esqueceu a grande maioria dos nossos deputados à Assembleia da República. A espera pelo virar de costas do professor, para então rapidamente avançarem revisões à lei do financiamento dos partidos; o uso de siglas anónimas nos bilhetinhos, como as letras A, B e C em vez da identificação partidária nas propostas de lei; o extravio de quaisquer atas ou relatórios que esclarecessem a autoria das ideias mais luminosas… Seria até enternecedora tanta juvenilidade, não fossem neste caso truques de carteirista. Pelo que a nossa costela securitária nos leva a ponderar: com gente desta, se calhar o melhor seria fechar de vez o estaminé (leia-se: a A.R.). Ao que a costela racional tem porém de objetar: será melhor, se o valor da democracia liberal – aquela em que cada cidadão detém um voto para participar nas decisões coletivas – depender da seleção dos mais competentes e honestos; ou se, principalmente, houver alternativa menos m…

Da arte dramática

Os termos gregos theastai – de onde deriva “teatro” – e drama significam, respetivamente, “ver” ou “olhar-para”, e “ação”. Daí as afirmações comuns de que o texto dramático é escrito para ser visto (quando muito ouvido na rádio, etc.), e que apresenta imitações da ação humana. Mas será evitando precipitarmo-nos no uso de “visão” que melhor acederemos ao sentido mais curial dessa imitação da ação. Com a dramaturgia a poder então revelar-se como uma grande arte, que se demarcará da pequena arte (entre outras coisas, creio que foi com alguma urticária que esta distinção tem provocado desde o século passado que o nosso frei João Martins antecipadamente se preocupou*). O campo de aplicação das palavras da família de “visão”, “ver”, etc., não se esgota em processos como o da impressão que a luz refletida nesta superfície clara com arabescos escuros (esta página e letras) provoca na retina da respetiva leitora, até ser trabalhada na zona psicovisual do seu cérebro. Pois, além dessas “perceçõe…

Eurogrupo, liberalismo, imperfeição

Dizer que a eleição do ministro das finanças português para a presidência do Eurogrupo trará vantagens significativas a Portugal constitui mais uma daquelas anedotas: “Vai um alemão, um francês e um português num avião, um dos motores começa a arder…”, e safa-se o espertalhão lusitano por convencer os outros a desgraçarem-se por cumprirem as regras, enquanto ele toma estas últimas apenas como papas e bolos para enganar tolos. Só quem acredita nessas anedotas é que não vê logo que, se cargos como aqueles pesassem a favor dos países natais dos respetivos detentores, dois em cada três deles seriam alemães, e o terceiro francês. Tendo assim a apostar que o Doutor Mário Centeno foi esta semana adotado como porta-voz dos interesses económicos da França, que enjeitou o socialismo nas últimas legislativas, e da Alemanha, que mantém como chanceler a Sra. Merkel em cuja fotografia muitos apoiantes do governo de que ele continua ministro ainda há pouco pintavam bigodinhos à Hitler. O que estabelece…

O porquinho mais velho, com urgência!

1.Uma nota particular: Em época de discussão dos orçamentos regional e do Estado, é agora que mais se impõe responder à ameaça deixada pela rota do Ophelia. Ao facto de 6 dos 10 verões portugueses mais quentes desde 1931 serem deste século (IPMA). Em cuja segunda metade o aquecimento global médio poderá colocar o pesqueiro de Ponta Delgada onde agora é a avenida marginal (Climate Central)… No próximo mês faz dois anos que, na minha série de crónicas sobre ciência, tecnologia e sociedade que o Correio dos Açores tem facultado aos três leitores delas, publiquei “Os dois porquinhos mais novos e a COP21”. Como não corro o risco de alguém se lembrar dessa crónica (até o Ophelia subitamente rumar a norte creio que também nunca mais me tinha lembrado dela), regresso aqui ao porquinho mais velho da fábula e a uma sua leitura dos sucessivos relatórios do IPCC, e do artigo do Financial Times (30/11/2015) de introdução à Conferência do Clima de Paris. Esse jornal inglês, que não costuma ser propri…

A ilusão tecnocrática – na pista de Mota Amaral

“Ao contrário do que parecem pensar os seus corifeus, a tecnocracia nunca é asséptica”. A afirmação é de João Bosco Mota Amaral, na crónica “Ideologia e realidade” publicada neste jornal a 5 do mês passado. Um texto que, a bem tanto da cultura política quanto da cultura tecnológica nestas ilhas, não deve passar despercebido. As linhas que se seguem tentam ser um pequeno contributo para isto. “Tecnocracia” e alienação… ou má-fé política Literalmente, “tecnocracia” significa a entrega da autoridade ou do poder político não a agentes ideologicamente condicionados, mas sim a técnicos das questões em causa. Os quais se distinguiriam dos “políticos”, de um lado, por conhecerem a melhor forma disponível de as resolver, do outro lado, por serem ideologicamente neutros. Uma denúncia minimalista dessa pretensão será revelar que as questões políticas não se reduzem a questões técnicas, mas não discutindo se, nestas outras, se verifica alguma forma resolutiva indiscutivelmente melhor do que quaisq…

3 notas facebookianas sobre a Catalunha… e os Açores

Uma nota – “Duas ‘democracias’ decorreram das Revoluções dos séc. XVII e XVIII: a ‘ditadura da maioria’ decorreu da Rev. Francesa. Das Rev. Gloriosa (Inglaterra, séc. XVII) e Rev. Americana (independência e Constituição dos EUA) decorreu a decisão da maioria, mas no limite do respeito pelas minorias – inclusive a vontade da minoria não/pertencer ao conjunto (exceção da Secessão dos Estados do sul!). Esta 2ª ‘democracia’ é a liberal. Que permite minorias jacobinas. Já a ‘democracia’ jacobina tem destinado às minorias a guilhotina e a Sibéria. Numa ‘democracia’ em que a maioria, que em parte vive à custa de uma minoria, impõe a esta última a pertença à primeira – como eventualmente agora entre Madrid e a Catalunha – restam aos liberais revoluções como as dos ingleses e americanos”. Na ligeireza própria do Facebook, onde há três semanas publiquei o anterior textozinho, não sublinhei o “eventualmente”. Na menor ligeireza que atribuímos à leitura de jornais, já essa palavra deverá pesar outro …

Um louvor do comunitarismo

À porta de eleições autárquicas, é oportuno realçar o relevo que na tradição liberal se tem atribuído ao poder local, e questionarmo-nos pelo seu sentido – eventualmente bem exemplificado no concelho de Ponta Delgada por propostas de alguns atuais candidatos… tanto pela positiva quanto pela negativa. O relevo desse nível político numa sociedade liberal foi reconhecido logo por Alexis de Tocqueville, na sua célebre viagem pelos Estados Unidos da América em 1831/2. Esse país era então composto pela união de 24 nações soberanas, estando cada um destes Estados dividido em condados – administrativos e judiciais – e, primeiramente, em comunas (townships). As quais eram formadas pelos habitantes de cada localidade, em vista à resolução das respetivas questões coletivas. No caso da Nova Inglaterra, nesse primeiro nível político não se aplicava a lei da representatividade, a democracia era exercida direta ou participativamente pelos cidadãos. Entre os quais alguns eram aleatoriamente designados p…