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Mensagens

Um louvor do comunitarismo

À porta de eleições autárquicas, é oportuno realçar o relevo que na tradição liberal se tem atribuído ao poder local, e questionarmo-nos pelo seu sentido – eventualmente bem exemplificado no concelho de Ponta Delgada por propostas de alguns atuais candidatos… tanto pela positiva quanto pela negativa. O relevo desse nível político numa sociedade liberal foi reconhecido logo por Alexis de Tocqueville, na sua célebre viagem pelos Estados Unidos da América em 1831/2. Esse país era então composto pela união de 24 nações soberanas, estando cada um destes Estados dividido em condados – administrativos e judiciais – e, primeiramente, em comunas (townships). As quais eram formadas pelos habitantes de cada localidade, em vista à resolução das respetivas questões coletivas. No caso da Nova Inglaterra, nesse primeiro nível político não se aplicava a lei da representatividade, a democracia era exercida direta ou participativamente pelos cidadãos. Entre os quais alguns eram aleatoriamente designados p…

A lição de Lúcio de Miranda

O Correio dos Açores, na sua edição de 8 de outubro de 1932, publicou ao centro da sua primeira página a lição de abertura desse ano escolar no então Liceu Central de Antero de Quental (atual ESAQ), proferida pelo Dr. Lúcio de Miranda[1]. Remetendo para as margens notícias sobre “O último terramoto na ilha de S. Miguel”, ou “O problema do livre comércio de carnes”. Na abertura de mais um ano escolar, 85 anos depois, não acredito que nos jornais de hoje haja alguma notícia ou intervenção mais atual do que esta revisitação daquela oração de sapiência. “O encanto das matemáticas” Sob este título, o orador posicionou-se logo na introdução: “Desde a mais remota antiguidade, todos os povos que conheceram a civilização cultivaram as matemáticas. (…) ‘que servem tanto para facilitar as indústrias como para contentar os curiosos’ (…). O meu tema não é a utilidade das matemáticas – é a beleza.” Uma opção não apenas pessoal, mas porque “elas dominam pelo encanto todos aqueles que sabem perscruta…

Os açorianos e a "segunda era da máquina" (II)

Na semana passada recebi uma série de notícias do atentado em Barcelona, enquanto não fazia ideia do que pudesse estar a acontecer ao meu vizinho. É mais um exemplo da nossa participação na “sociedade global” definida por Niklas Luhmann. Participação esta que nos sujeita a uma revolução que se poderá tornar maior do que qualquer outra já experimentada pela humanidade. A cumprir-se provavelmente no tempo de vida das gerações nascidas nas décadas de 80 ou de 90 do século passado, se não já durante a reforma das gerações de 60 ou de 70. Inteligência artificial – do desemprego… ao alerta de Hawking Designadamente, a passagem de uma sociedade conforme à produção mediante a operação de ferramentas e máquinas e até a programação destas últimas, para outra sociedade conforme a máquinas capazes de aprendizagem e de autoprogramação – v. “A ‘segunda era da máquina’ e os açorianos (I)”, que o leitor tem à distância de alguns toques no seu smartphone (e onde com um só toque pode abrir a obra em que B…

Para manter as liberdades do turismo

A primeira diferença que as low cost fizeram foi a de aumentar a liberdade de muita gente. Pois aumentou o leque de escolhas de ações que temos o poder de levar por diante. Assim, do lado de cá, já não é apenas a classe média alta que pode ir passar uma semana a Londres (depois de se juntar dinheiro para o alojamento), ou dar um pulo ao Dragão para ver um jogo do FCP. Do lado de lá, para uma família lisboeta que planeie a viagem com antecedência, vir passar uns dias a S. Miguel já não custa o triplo de os ir passar à capital inglesa. O que permite, de novo do lado de cá, a muitos jovens a escolha de não emigrarem para Inglaterra. E a bastantes dos respetivos pais a escolha de voltarem a trabalhar, depois da suspensão das grandes obras públicas e habitacionais, e do encerramento de tantas representações comerciais. Aqueles de nós que assumimos a liberdade como primeiro valor político sempre discordámos assim da sucessão de governos regionais e da república, ora do PS ora do PSD, que durant…

Novas conferências do Casino (set 2013)

No último 27 de Maio passaram-se 142 anos sobre a primeira conferência no Casino Lisbonense, na qual Antero de Quental – entre a quinta e a sexta bancarrota portuguesa após o oiro do Brasil – se propôs identificar umas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos. 141 Anos depois, em correlação a esse célebre texto – e só não em plena sétima bancarrota porque os nossos parceiros internacionais aceitaram tutelar-nos (como em 1977 e em 1983) – publiquei o ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos. Cujas pistas procurei explorar na presente coluna de opinião. Visto que a maior parte delas já foram aqui ao menos assinaladas, me parece estar em boa altura de agradecer ao Açoriano Oriental ter-me aberto a sua página de “Opinião” desde Dezembro de 2012, e de dar por terminada a minha participação nela. Não quero porém terminar sem apontar três ideias que pouco ou nada terei abordado, e que assim não terei oportunidade de desenvolver. Como …

Onde intervir, e com que referências? (ag 2013)

“Só com o aparecimento de um novo paradigma social, sólido e que dê confiança, é que começa a desenvolver-se um optimismo realista que leva as pessoas novamente a tornarem-se produtivas e a investirem, em suma, a dinamizarem novamente a economia interna.” Mas, “para levar as pessoas a agirem nestas situações [crises económicas], é necessário um sentimento de pessimismo generalizado, que leva as pessoas a compreenderem que é necessário fazer alguma coisa.” Enfim, “os mecanismos de mobilização são os mesmos que sempre existiram. Por um lado, que os movimentos sociais não sejam vistos como tendo algum interesse particular, ou interesse de ‘classe’. Por outro lado, que girem em torno de uma visão comum do que pretendem para o futuro. (…) É a visão de futuro partilhada em torno de uma causa comum que move as pessoas.” Segundo Miguel Pereira Lopes – na entrevista “Portugueses entre a revolução e o reformismo?” ao portal Verdade, Ética e Responsabilidade (30/10/2012) – para ultrapassarmos tã…

E depois das play-stations, das férias nas Caraíbas?… (julh 2013)

Quando é que acabam, e que âmbito alcançam, as crises (que começam por ser) económicas? Em 1873 deu-se o crash da bolsa de Viena. A crise financeira resultante foi rapidamente saneada, mas dela restou uma “recessão” (redução moderada da produção) económica mundial até 1896. As duríssimas condições de vida e de trabalho dos mineiros nesse período, mas também a disposição para lutar e trabalhar por melhores dias, foram ilustradas por Émile Zola em Germinal (1885). E o séc. XX começou com o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, do lazer, a ascensão das classes médias… Embora entre tensões culturais e políticas mal enquadradas, que provavelmente alimentaram alguns dos incêndios das décadas seguintes. Em 1929 foi a vez da bolsa de Nova Iorque, de cujo crash resultou uma “depressão” (queda substancial da produção) económica mundial, provocando a miséria e o desenraizamento ilustrados por John Steinbeck em As Vinhas da Ira (1939). A geração apresentada neste romance havi…