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Mensagens

Duas pernas pode ser mau, quatro pernas é pior (junh 2013)

O Triunfo dos Porcos, na Manor Farm, deveu-se a esses animais terem convencido os restantes a adoptarem a regra de que “Duas pernas é mau, quatro pernas é bom”. Pois assim estes outros abdicaram do que distingue os homens, nomeadamente o juízo crítico, enquanto os porcos, fazendo eles planos racionais (!), se assenhorearam da quinta. O resto veio por arrasto. No fim do célebre livro de George Orwell sabemos que o modelo se propagou a outras quintas. Uma delas, tenho a certeza, terá forma rectangular, com umas ilhotas em frente, e fica a sul da inglesa Manor Farm. Bem, “certeza” não posso ter… mas de outro modo não consigo perceber uma série de acontecimentos. Por exemplo: Durante umas décadas, tanto no seio do processo autoritário de tomada de decisões quanto no do democrático, foi aí praticamente unânime, e pacífica, a decisão de se construir um novo aeroporto a noroeste da capital. Por definição, um aeroporto é uma estrutura para aterragem e descolagem de aviões, normalmente dotada de…

Duas implicações dos 25 Anos de Portugal Europeu (junh 2013)

Analisemos o recente estudo com o título acima referido, coordenado por Augusto Mateus e editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (disponível em PDF). A avaliação global deste nosso quarto de século encontra-se no gráfico 29.1: contra a tradição, a partir de 1993 mais pessoas preferiram vir viver para Portugal do que as que preferiram sair, num saldo migratório positivo crescente até 2002; nesse ano a tendência inverteu-se, em 2010 a imigração já pouco ultrapassou a emigração… e as estimativas na página inicial da Pordata (também da FFMS) para estes dias em que escrevi esta crónica têm sido sempre negativas. Depois de 81 mil milhões de euros em fundos estruturais executados entre 1989 e 2011 (a preços deste último ano, op.cit. p. 24), é forte!             Importa reconhecer que aquela primeira avaliação positiva se justifica. Nomeadamente, por tudo o que é implicado pelo aumento da esperança média de vida (gráficos 44.4 e 44.5). O problema é que esta melhoria das condições de v…

Mateus 12, 48-50 (mai 2013)

Nas últimas duas crónicas reconheci sinais de que bastantes portugueses preferirão pactuar com a corrupção – e outros desvios morais – do que fragilizar quaisquer laços dos respectivos grupos sociais primários (ex. família), ou arriscar a imagem pública destes últimos. Uma ultrapassagem dessa posição jogar-se-á em duas dimensões éticas. Devendo ocorrer em três planos persuasivos as intervenções a seu favor. Numa destas dimensões éticas, essas pessoas parecem considerar moralmente apenas os seus vínculos aos respectivos grupos sociais primários, quando porém todo o país interfere nas suas vidas. Daqui a questão: como se poderá intervir para alargar os limites daqueles grupos ao país que, de facto, é relevante a cada um de nós? Na outra dimensão, esses desvios morais são facultados por uma hierarquia de valores que privilegia a solidez do grupo social primário. Questão: como se poderá induzir uma reclassificação dos valores na cultura portuguesa, subordinando essa segurança à honra e à ho…

Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra… (mai 2013)

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural. Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português). Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de carácter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aqueles indicadores da corrupção impli…

B. Português N. (mai 2013)

Philippe Riès (ex-chefe do departamento económico da France Press), num artigo online intitulado “Scandale bancaire portugais: les vacances à Rio de Dias Loureiro” (03/01/2013), concluiu “la politique professionnelle est bien, dans certaines «démocraties» européennes, le chemin le plus sûr vers l'enrichissement personnel rapide d'une classe d'aventuriers”. Numa inquirição que seria para rir, se não fosse para chorar (ou para confiscar?!), o referido ex-ministro e ex-conselheiro de Estado não pôde explicar a sua assinatura em movimentos de milhões de euros no BPN… por não se lembrar de pormenores. E voltou para casa nesse cândido esquecimento – que suspeito ter-se estendido a muitos gabinetes da nossa “sociedade dirigente”. Como aquele onde o Presidente da República terá falado à filha de uma aplicação de capitais na compra de acções de um banco gerido por gente amiga, que lhes prometia a recompra, passado um ano, a juros muito superiores aos normais no mercado financeiro. Te…

Valha-nos a memória de Pedro Nunes! (abr 2013)

Em A Aventura do Pensamento Europeu – Uma História das Ideias Ocidentais, Jacqueline Russ apontou apenas dois nomes portugueses: Vasco da Gama e Fernão de Magalhães – e não por ideias que tivessem desenvolvido, mas pelos dados que trouxeram às teorias de outros. Em particular, as bibliografias dos cursos superiores portugueses de filosofia esgotam-se em autores estrangeiros; tanto a Gradiva na sua edição da História Concisa das Matemáticas, quanto a Universidade Aberta no seu grande volume História da Matemática (escrita por vários autores portugueses), para mencionarem a contribuição portuguesa tiveram que a acrescentar em anexos, que nos corpos dos textos não mereceriam lugar (à excepção de Pedro Nunes no §8.9 dessa última obra); quanto à física, no índice remissivo do best-seller mundial Breve História do Tempo (1ª ed.) a expressão mais próxima que encontrei foi “Nuvens de Magalhães”… Em suma, se nomeadamente na história da globalização as intervenções portuguesas são incontornáveis,…

"A mais profunda essência do trabalho" (abr 2013)

“Diga, por favor, a importância que atribui a (…) trabalho”. Perante esta pergunta do Estudo Europeu de Valores, especialmente em 1999 e 2008 os portugueses responderam com um valor elevado (v. Portal da Opinião Pública). Pergunto-me porém qual das seguintes interpretações dessa pergunta terá feito a maioria dos inquiridos: i) que importância atribui ao trabalho como forma de realização e desenvolvimento de algumas das suas inteligências, emoções, competências físicas… na produção de uma obra? ii) Que importância atribui a um emprego que lhe garanta algum rendimento ao fim do mês? Pela primeira interpretação, o trabalho tem valor em si mesmo visto constituir-se como o processo pelo qual o homem se cumpre. Encontramos as raízes desta concepção nas passagens do Livro do Génesis que caracterizam Deus como criador, o homem como criatura à imagem Daquele, logo primeiramente também como criador, pelo que o trabalho é necessário à dignidade humana. Mas também encontramos tais raízes – embora c…