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Mensagens

Onde intervir, e com que referências? (ag 2013)

“Só com o aparecimento de um novo paradigma social, sólido e que dê confiança, é que começa a desenvolver-se um optimismo realista que leva as pessoas novamente a tornarem-se produtivas e a investirem, em suma, a dinamizarem novamente a economia interna.” Mas, “para levar as pessoas a agirem nestas situações [crises económicas], é necessário um sentimento de pessimismo generalizado, que leva as pessoas a compreenderem que é necessário fazer alguma coisa.” Enfim, “os mecanismos de mobilização são os mesmos que sempre existiram. Por um lado, que os movimentos sociais não sejam vistos como tendo algum interesse particular, ou interesse de ‘classe’. Por outro lado, que girem em torno de uma visão comum do que pretendem para o futuro. (…) É a visão de futuro partilhada em torno de uma causa comum que move as pessoas.” Segundo Miguel Pereira Lopes – na entrevista “Portugueses entre a revolução e o reformismo?” ao portal Verdade, Ética e Responsabilidade (30/10/2012) – para ultrapassarmos tã…

E depois das play-stations, das férias nas Caraíbas?… (julh 2013)

Quando é que acabam, e que âmbito alcançam, as crises (que começam por ser) económicas? Em 1873 deu-se o crash da bolsa de Viena. A crise financeira resultante foi rapidamente saneada, mas dela restou uma “recessão” (redução moderada da produção) económica mundial até 1896. As duríssimas condições de vida e de trabalho dos mineiros nesse período, mas também a disposição para lutar e trabalhar por melhores dias, foram ilustradas por Émile Zola em Germinal (1885). E o séc. XX começou com o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, do lazer, a ascensão das classes médias… Embora entre tensões culturais e políticas mal enquadradas, que provavelmente alimentaram alguns dos incêndios das décadas seguintes. Em 1929 foi a vez da bolsa de Nova Iorque, de cujo crash resultou uma “depressão” (queda substancial da produção) económica mundial, provocando a miséria e o desenraizamento ilustrados por John Steinbeck em As Vinhas da Ira (1939). A geração apresentada neste romance havi…

Duas pernas pode ser mau, quatro pernas é pior (junh 2013)

O Triunfo dos Porcos, na Manor Farm, deveu-se a esses animais terem convencido os restantes a adoptarem a regra de que “Duas pernas é mau, quatro pernas é bom”. Pois assim estes outros abdicaram do que distingue os homens, nomeadamente o juízo crítico, enquanto os porcos, fazendo eles planos racionais (!), se assenhorearam da quinta. O resto veio por arrasto. No fim do célebre livro de George Orwell sabemos que o modelo se propagou a outras quintas. Uma delas, tenho a certeza, terá forma rectangular, com umas ilhotas em frente, e fica a sul da inglesa Manor Farm. Bem, “certeza” não posso ter… mas de outro modo não consigo perceber uma série de acontecimentos. Por exemplo: Durante umas décadas, tanto no seio do processo autoritário de tomada de decisões quanto no do democrático, foi aí praticamente unânime, e pacífica, a decisão de se construir um novo aeroporto a noroeste da capital. Por definição, um aeroporto é uma estrutura para aterragem e descolagem de aviões, normalmente dotada de…

Duas implicações dos 25 Anos de Portugal Europeu (junh 2013)

Analisemos o recente estudo com o título acima referido, coordenado por Augusto Mateus e editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (disponível em PDF). A avaliação global deste nosso quarto de século encontra-se no gráfico 29.1: contra a tradição, a partir de 1993 mais pessoas preferiram vir viver para Portugal do que as que preferiram sair, num saldo migratório positivo crescente até 2002; nesse ano a tendência inverteu-se, em 2010 a imigração já pouco ultrapassou a emigração… e as estimativas na página inicial da Pordata (também da FFMS) para estes dias em que escrevi esta crónica têm sido sempre negativas. Depois de 81 mil milhões de euros em fundos estruturais executados entre 1989 e 2011 (a preços deste último ano, op.cit. p. 24), é forte!             Importa reconhecer que aquela primeira avaliação positiva se justifica. Nomeadamente, por tudo o que é implicado pelo aumento da esperança média de vida (gráficos 44.4 e 44.5). O problema é que esta melhoria das condições de v…

Mateus 12, 48-50 (mai 2013)

Nas últimas duas crónicas reconheci sinais de que bastantes portugueses preferirão pactuar com a corrupção – e outros desvios morais – do que fragilizar quaisquer laços dos respectivos grupos sociais primários (ex. família), ou arriscar a imagem pública destes últimos. Uma ultrapassagem dessa posição jogar-se-á em duas dimensões éticas. Devendo ocorrer em três planos persuasivos as intervenções a seu favor. Numa destas dimensões éticas, essas pessoas parecem considerar moralmente apenas os seus vínculos aos respectivos grupos sociais primários, quando porém todo o país interfere nas suas vidas. Daqui a questão: como se poderá intervir para alargar os limites daqueles grupos ao país que, de facto, é relevante a cada um de nós? Na outra dimensão, esses desvios morais são facultados por uma hierarquia de valores que privilegia a solidez do grupo social primário. Questão: como se poderá induzir uma reclassificação dos valores na cultura portuguesa, subordinando essa segurança à honra e à ho…

Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra… (mai 2013)

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural. Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português). Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de carácter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aqueles indicadores da corrupção impli…

B. Português N. (mai 2013)

Philippe Riès (ex-chefe do departamento económico da France Press), num artigo online intitulado “Scandale bancaire portugais: les vacances à Rio de Dias Loureiro” (03/01/2013), concluiu “la politique professionnelle est bien, dans certaines «démocraties» européennes, le chemin le plus sûr vers l'enrichissement personnel rapide d'une classe d'aventuriers”. Numa inquirição que seria para rir, se não fosse para chorar (ou para confiscar?!), o referido ex-ministro e ex-conselheiro de Estado não pôde explicar a sua assinatura em movimentos de milhões de euros no BPN… por não se lembrar de pormenores. E voltou para casa nesse cândido esquecimento – que suspeito ter-se estendido a muitos gabinetes da nossa “sociedade dirigente”. Como aquele onde o Presidente da República terá falado à filha de uma aplicação de capitais na compra de acções de um banco gerido por gente amiga, que lhes prometia a recompra, passado um ano, a juros muito superiores aos normais no mercado financeiro. Te…