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Mensagens

Mateus 12, 48-50 (mai 2013)

Nas últimas duas crónicas reconheci sinais de que bastantes portugueses preferirão pactuar com a corrupção – e outros desvios morais – do que fragilizar quaisquer laços dos respectivos grupos sociais primários (ex. família), ou arriscar a imagem pública destes últimos. Uma ultrapassagem dessa posição jogar-se-á em duas dimensões éticas. Devendo ocorrer em três planos persuasivos as intervenções a seu favor. Numa destas dimensões éticas, essas pessoas parecem considerar moralmente apenas os seus vínculos aos respectivos grupos sociais primários, quando porém todo o país interfere nas suas vidas. Daqui a questão: como se poderá intervir para alargar os limites daqueles grupos ao país que, de facto, é relevante a cada um de nós? Na outra dimensão, esses desvios morais são facultados por uma hierarquia de valores que privilegia a solidez do grupo social primário. Questão: como se poderá induzir uma reclassificação dos valores na cultura portuguesa, subordinando essa segurança à honra e à ho…

Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra… (mai 2013)

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural. Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português). Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de carácter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aqueles indicadores da corrupção impli…

B. Português N. (mai 2013)

Philippe Riès (ex-chefe do departamento económico da France Press), num artigo online intitulado “Scandale bancaire portugais: les vacances à Rio de Dias Loureiro” (03/01/2013), concluiu “la politique professionnelle est bien, dans certaines «démocraties» européennes, le chemin le plus sûr vers l'enrichissement personnel rapide d'une classe d'aventuriers”. Numa inquirição que seria para rir, se não fosse para chorar (ou para confiscar?!), o referido ex-ministro e ex-conselheiro de Estado não pôde explicar a sua assinatura em movimentos de milhões de euros no BPN… por não se lembrar de pormenores. E voltou para casa nesse cândido esquecimento – que suspeito ter-se estendido a muitos gabinetes da nossa “sociedade dirigente”. Como aquele onde o Presidente da República terá falado à filha de uma aplicação de capitais na compra de acções de um banco gerido por gente amiga, que lhes prometia a recompra, passado um ano, a juros muito superiores aos normais no mercado financeiro. Te…

Valha-nos a memória de Pedro Nunes! (abr 2013)

Em A Aventura do Pensamento Europeu – Uma História das Ideias Ocidentais, Jacqueline Russ apontou apenas dois nomes portugueses: Vasco da Gama e Fernão de Magalhães – e não por ideias que tivessem desenvolvido, mas pelos dados que trouxeram às teorias de outros. Em particular, as bibliografias dos cursos superiores portugueses de filosofia esgotam-se em autores estrangeiros; tanto a Gradiva na sua edição da História Concisa das Matemáticas, quanto a Universidade Aberta no seu grande volume História da Matemática (escrita por vários autores portugueses), para mencionarem a contribuição portuguesa tiveram que a acrescentar em anexos, que nos corpos dos textos não mereceriam lugar (à excepção de Pedro Nunes no §8.9 dessa última obra); quanto à física, no índice remissivo do best-seller mundial Breve História do Tempo (1ª ed.) a expressão mais próxima que encontrei foi “Nuvens de Magalhães”… Em suma, se nomeadamente na história da globalização as intervenções portuguesas são incontornáveis,…

"A mais profunda essência do trabalho" (abr 2013)

“Diga, por favor, a importância que atribui a (…) trabalho”. Perante esta pergunta do Estudo Europeu de Valores, especialmente em 1999 e 2008 os portugueses responderam com um valor elevado (v. Portal da Opinião Pública). Pergunto-me porém qual das seguintes interpretações dessa pergunta terá feito a maioria dos inquiridos: i) que importância atribui ao trabalho como forma de realização e desenvolvimento de algumas das suas inteligências, emoções, competências físicas… na produção de uma obra? ii) Que importância atribui a um emprego que lhe garanta algum rendimento ao fim do mês? Pela primeira interpretação, o trabalho tem valor em si mesmo visto constituir-se como o processo pelo qual o homem se cumpre. Encontramos as raízes desta concepção nas passagens do Livro do Génesis que caracterizam Deus como criador, o homem como criatura à imagem Daquele, logo primeiramente também como criador, pelo que o trabalho é necessário à dignidade humana. Mas também encontramos tais raízes – embora c…

Instituições: sim; cultura: também (mar 2013)

A avaliar pela pequena parte que li, e pela sinopse de Porque as Nações Falham (2013), Daron Acemoglu e James Robinson propõem uma explicação simples para a questão expressa nesse título: a opção por instituições – i.e. regras formais ou informais, e organizações que as implementam – que favorecem oligarquias, em detrimento de instituições eminentemente inclusivas. Ou seja, neste momento em que constatamos o falhanço português relativamente a nações europeias equiparáveis, optemos por essas últimas instituições que os resultados logo aparecerão. Infelizmente, porém, a simplicidade que essa explicação aparenta – como logo acusou Jeffrey Sachs na revista Foreign Affairs (vol. 91 (2012) nº 5) – constituirá antes um simplismo. Nomeadamente ao se opor à tese weberiana de que o plano cultural condiciona o desempenho económico. Bem como ao reconhecimento, no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 2013 (p. 66), de que “intangible factors (…) affect the organization of…

Mudança de mentalidade, ou apenas de políticas? (mar 2013)

Sobre a tese de que “é preciso mudar a mentalidade dos portugueses”, João César das Neves argumentou em "A evolução das mentalidades" (Diário de Notícias, 17/07/2006) que “este diagnóstico é falso”. Pois “Portugal foi grande no passado precisamente com o mesmo povo que hoje tem, e os períodos recentes de crescimento não exigiram outra mentalidade”. Julgo que esse argumento é inválido. Se fosse em geral – e não no passado, nem em conjunturas complexas e variáveis – que a grandeza de Portugal implicasse uma (constante) mentalidade portuguesa, obviamente não só esta última não teria de ser mudada para se alcançar a primeira, como isso seria o caminho para o desastre. Enquanto porém se não confirmar a tal mesmidade do povo português ao longo do tempo – sustentando que implementamos sempre, por exemplo, a iniciativa e a criatividade tecnológica do séc. XV… – mantém-se a hipótese de que as características mentais que, num dado período, tenham facultado a grandeza então verificada, e…