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Mensagens

Valha-nos a memória de Pedro Nunes! (abr 2013)

Em A Aventura do Pensamento Europeu – Uma História das Ideias Ocidentais, Jacqueline Russ apontou apenas dois nomes portugueses: Vasco da Gama e Fernão de Magalhães – e não por ideias que tivessem desenvolvido, mas pelos dados que trouxeram às teorias de outros. Em particular, as bibliografias dos cursos superiores portugueses de filosofia esgotam-se em autores estrangeiros; tanto a Gradiva na sua edição da História Concisa das Matemáticas, quanto a Universidade Aberta no seu grande volume História da Matemática (escrita por vários autores portugueses), para mencionarem a contribuição portuguesa tiveram que a acrescentar em anexos, que nos corpos dos textos não mereceriam lugar (à excepção de Pedro Nunes no §8.9 dessa última obra); quanto à física, no índice remissivo do best-seller mundial Breve História do Tempo (1ª ed.) a expressão mais próxima que encontrei foi “Nuvens de Magalhães”… Em suma, se nomeadamente na história da globalização as intervenções portuguesas são incontornáveis,…

"A mais profunda essência do trabalho" (abr 2013)

“Diga, por favor, a importância que atribui a (…) trabalho”. Perante esta pergunta do Estudo Europeu de Valores, especialmente em 1999 e 2008 os portugueses responderam com um valor elevado (v. Portal da Opinião Pública). Pergunto-me porém qual das seguintes interpretações dessa pergunta terá feito a maioria dos inquiridos: i) que importância atribui ao trabalho como forma de realização e desenvolvimento de algumas das suas inteligências, emoções, competências físicas… na produção de uma obra? ii) Que importância atribui a um emprego que lhe garanta algum rendimento ao fim do mês? Pela primeira interpretação, o trabalho tem valor em si mesmo visto constituir-se como o processo pelo qual o homem se cumpre. Encontramos as raízes desta concepção nas passagens do Livro do Génesis que caracterizam Deus como criador, o homem como criatura à imagem Daquele, logo primeiramente também como criador, pelo que o trabalho é necessário à dignidade humana. Mas também encontramos tais raízes – embora c…

Instituições: sim; cultura: também (mar 2013)

A avaliar pela pequena parte que li, e pela sinopse de Porque as Nações Falham (2013), Daron Acemoglu e James Robinson propõem uma explicação simples para a questão expressa nesse título: a opção por instituições – i.e. regras formais ou informais, e organizações que as implementam – que favorecem oligarquias, em detrimento de instituições eminentemente inclusivas. Ou seja, neste momento em que constatamos o falhanço português relativamente a nações europeias equiparáveis, optemos por essas últimas instituições que os resultados logo aparecerão. Infelizmente, porém, a simplicidade que essa explicação aparenta – como logo acusou Jeffrey Sachs na revista Foreign Affairs (vol. 91 (2012) nº 5) – constituirá antes um simplismo. Nomeadamente ao se opor à tese weberiana de que o plano cultural condiciona o desempenho económico. Bem como ao reconhecimento, no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 2013 (p. 66), de que “intangible factors (…) affect the organization of…

Mudança de mentalidade, ou apenas de políticas? (mar 2013)

Sobre a tese de que “é preciso mudar a mentalidade dos portugueses”, João César das Neves argumentou em "A evolução das mentalidades" (Diário de Notícias, 17/07/2006) que “este diagnóstico é falso”. Pois “Portugal foi grande no passado precisamente com o mesmo povo que hoje tem, e os períodos recentes de crescimento não exigiram outra mentalidade”. Julgo que esse argumento é inválido. Se fosse em geral – e não no passado, nem em conjunturas complexas e variáveis – que a grandeza de Portugal implicasse uma (constante) mentalidade portuguesa, obviamente não só esta última não teria de ser mudada para se alcançar a primeira, como isso seria o caminho para o desastre. Enquanto porém se não confirmar a tal mesmidade do povo português ao longo do tempo – sustentando que implementamos sempre, por exemplo, a iniciativa e a criatividade tecnológica do séc. XV… – mantém-se a hipótese de que as características mentais que, num dado período, tenham facultado a grandeza então verificada, e…

O exemplo aborígene (fev 2013)

Experimente o/a leitor/a pedir a alguns conhecidos seus que apontem, sem qualquer cálculo elaborado… para sudoeste. Se bastantes hesitarem não deverão porém ser julgados desorientados. Apenas quotidianamente não se orientam no espaço pelos pontos cardeais. Segundo as investigações de Lera Boroditsky, isso acontecerá porque nos habituamos a pensar no seio de uma linguagem pela qual os objectos são posicionados em relação uns aos outros – ex. …à direita de… – e não em relação àqueles pontos, como acontece com os aborígenes australianos. Dos quais qualquer criança consegue, sem hesitação, apontar para sudoeste. Como diz a autora (Scientific American, 304 (2011) 2: 44), “research in my lab and in many others has been uncovering how language shapes even the most fundamental dimensions of human experience: space, time, causality and relationships to others.” No que interessa a esta coluna de crónicas, há quinze dias referi o reconhecimento da temporalidade linear, aberta e progressiva com…

Uma condição de qualquer política de crescimento (fev. 2013)

É sabido que alguns ministros da economia europeus, entre eles o português, pretendem promover o relançamento da Europa mediante uma sua reindustrialização. Mas importa saber o que se deva entender hoje por “indústria”. A 13 de Janeiro último o jornal Público interrogou algumas pessoas ligadas ao sector, acreditando o director-geral da COTEC Portugal, Daniel Bessa, em sintonia geral com os demais entrevistados, “sobretudo no que os alemães designam de ‘indústrias de engenharia’: indústria, talvez, suportada por doses maciças de investigação e desenvolvimento, e de engenharia – e em que o valor vem destes ‘serviços’, muito mais do que da manufactura propriamente dita”. Todavia Alberto Castro, director do Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada da UCP, pergunta sobre o caso português: “Temos insuficiências. Baixas qualificações, ligações precárias entre a investigação e a aplicação, não sabemos desenhar os sistemas de incentivos. (…) Será um problema de cultura?” Julgo que sim …

Freud revisitado (jan. 2013)

No ano 2000 a dívida externa bruta portuguesa (sobre a qual se calculam os juros a pagar) montava a 123% do nosso PIB, e a líquida (o que devíamos menos o que nos deviam) a 40%. Em 2004, os valores percentuais eram respectivamente 165% e 63%. Para em 2010 esta dívida externa líquida ser já 108% do PIB, enquanto a dívida bruta chegava aos 229%. E não para se fazerem máquinas, mas sim estádios, viagens!… Perante dados como estes lembro-me das 4 páginas que compõem Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental, publicado em 1911, e que há já meio século a Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud disponibilizou em português no seu vol. XII (online e gratuito no Scribd). Uma vez que não se encontra uma mente colectiva, que então tanto pudesse ser sã quanto doente, possivelmente estarei a dar um salto maior do que a perna. Mas também é um facto que o fundador da psicanálise iniciou esse artigo com a frase: “Há muito tempo observamos que tod…