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Mensagens

Açores a caminho do resgate financeiro?

Graças ao Dr. Ricardo Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca, aqueles de nós que não estamos por dentro dos meandros político-económicos regionais ficamos a saber que o Relatório e Contas da Musami, de 2016, alerta para que “a permanente política de limite financeiro [na região autónoma dos Açores] está a conduzir as contas da região para uma situação de resgate, com uma dívida sempre crescente e com muitos mecanismos de endividamento ativos, através de empresas deficitárias e organismos com autonomia financeira totalmente dependentes do orçamento regional” (p. 25). Em boa hora o conhecido político nos chamou a atenção para isto. Já se a forma como o fez foi igualmente boa – leia-se “democrática” – ao ter promovido um inquérito a quem terá tido a responsabilidade – preferirá o Sr. presidente o termo “desplante”?… – de um tal diagnóstico económico, deixaremos aqui para outra oportunidade. Falando por mim, nem sabia que dispomos online de tais avaliações da nossa conjunt…

“Pessoa” – entre fervura e água fria

Numa pequena entrevista em maio à revista literária digital Novos Livros, voltei a assumir o meu compromisso com “a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um fator inato e/ou outros adquiridos.” De regresso a este âmbito da integração sociocultural das ciências, porém, logo me vejo obrigado a deitar, naquela fervura literária, alguma água fria das neurociências.
A redução da mente ao cérebro
Com efeito, intimamente experimentamo-nos como livres. Por exemplo, eu experimento esta minha escrita destas palavras como resultado de uma minha decisão livre de as escrever; o leitor experimenta a sua leitura delas como resultado da sua decisão livre de ter começado a lê-las e ainda continuar, etc. Entretanto, há muito se tornou um lugar-comum que tais experiências mentais não ocorrem fora dos cérebros de cada um. E é aqui que começam os problemas – como logo reconheceu o grande filósofo e grande m…

'Condições do Atraso do Povo Português' - entrevista a 'Novos Livros'

1- De que trata este seu livro Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos? R- Primeiro, e como infelizmente não é difícil, reconhece um crónico atraso sócio-económico de Portugal (pelo menos) desde o advento da economia industrializada, da urbanização da sociedade… por comparação aos nossos pares europeus. Segundo, equaciona esse problema radicalmente na nossa cultura, como base do estabelecimento e implementação das instituições sociais, políticas e económicas com as quais nos temos organizado. Terceiro, refuta empírica e logicamente o diagnóstico de Antero de Quental, uma vez deslocado dos séc. XVI-XIX para desde este último até à década passada (ou mesmo no período considerado pelo meu ilustre conterrâneo) – que as “causas” (“da decadência dos povos peninsulares”) seriam o catolicismo de Trento, um consequente autoritarismo político, e enfim uma cultura económica orientada para a conquista e não para a indústria e comércio. Quarto, para propor então uma hipótese …

“Facista”, “Comuna”, “Neoliberal”!

Quando eu era novo, nesta ilha, se por exemplo um indivíduo estacionasse o carro à frente da garagem de outro, e este lhe dissesse para o tirar pois precisava de se servir dessa entrada, um dos impropérios que se poderia ouvir do infrator era “A rua é de todos… facista!”. O mesmo “facismo” que levava esse dono da casa a queixar-se de lhe terem garatujado umas palavras na parede que recentemente pintara de branco, ou o vendedor de gravatas a não baixar os preços enquanto houvesse quem os pagasse, o professor a não aceitar resoluções de equações do 3º grau mediante a fórmula do 2º grau… Os cientistas políticos não convergem numa definição exata de “fascismo”. Em todo o caso, associam-lhe traços como antirracionalismo; defesa da luta pela qual sobrevivem os mais fortes; elitismo destes sob a orientação de um líder autoritário que corporiza a nação; afinidade pelas políticas socialistas relativas às baixas classes socioeconómicas, e ao intervencionismo económico do governo. O leitor concor…

'Rufina' - entrevista a 'Novos Livros'

Miguel Soares de Albergaria | Rufina 1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro Rufina? R- Reforça a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um factor inato e/ou outros adquiridos. Mas num processo que apenas se cumpre se respeitar um sentido (não subjectivo) da vida humana: o da dedicação de cada uma destas a alguma(s) obra(s) consistente(s) que ultrapasse(m) essa vida que se lhes vota. Teorias da relatividade, Capela Sistina, chefia do governo britânico durante a II G.M.... No caso da mulher real que foi M. Rufina Melo Tavares, na sua terrível circunstância familiar e económica, a obra foi a criação e educação do filho para que este viesse a constituir-se num homem autónomo e igualmente construtivo ou generoso. Este livro representa assim também um reconhecimento da extraordinariedade de todas essas pessoas anónimas que, sem qualquer expectativa de recompensa ou sequer cons…

“A comunidade científica em tempos de disputa”

Vacinação ou não das crianças, e construção ou não de uma incineradora em S. Miguel – A comparação entre estas atuais disputas sócio-tecno-científicas desde logo nos faculta assinalar os (já!) 20 anos daquela que talvez seja a mais importante ação de promoção da cultura científica até hoje ocorrida em Portugal. Que mais não fosse por isto, valeria a pena abordar aqui aquelas disputas. Refiro-me ao ciclo de conferências “A ciência tal qual se faz”, que decorreu entre outubro de 1996 e janeiro de 1998 na Fundação Calouste Gulbenkian, em mais uma iniciativa do ministro José Mariano Gago, sob coordenação do filósofo Fernando Gil. E, concretamente, à comunicação que o sociólogo da ciência Harry M. Collins ali apresentou, sob o título que importei para esta crónica. Mas aquela comparação, além de comemorar a efeméride, creio que nos sugerirá ainda um desenvolvimento do esquema de Collins. O qual – pelo menos até 2010 – bem se aplicou à disputa entre os defensores e os oponentes da vacinação in…

Movimento perfeito

A tensão que se resolve, sem nunca se diluir, A harmonia que dura, apesar de sem regra nem repetição

Cª Luis Bravo, "Forever Tango" (Coliseu do Porto, 9/5/2017)