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Mensagens

“Facista”, “Comuna”, “Neoliberal”!

Quando eu era novo, nesta ilha, se por exemplo um indivíduo estacionasse o carro à frente da garagem de outro, e este lhe dissesse para o tirar pois precisava de se servir dessa entrada, um dos impropérios que se poderia ouvir do infrator era “A rua é de todos… facista!”. O mesmo “facismo” que levava esse dono da casa a queixar-se de lhe terem garatujado umas palavras na parede que recentemente pintara de branco, ou o vendedor de gravatas a não baixar os preços enquanto houvesse quem os pagasse, o professor a não aceitar resoluções de equações do 3º grau mediante a fórmula do 2º grau… Os cientistas políticos não convergem numa definição exata de “fascismo”. Em todo o caso, associam-lhe traços como antirracionalismo; defesa da luta pela qual sobrevivem os mais fortes; elitismo destes sob a orientação de um líder autoritário que corporiza a nação; afinidade pelas políticas socialistas relativas às baixas classes socioeconómicas, e ao intervencionismo económico do governo. O leitor concor…

'Rufina' - entrevista a 'Novos Livros'

Miguel Soares de Albergaria | Rufina 1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro Rufina? R- Reforça a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um factor inato e/ou outros adquiridos. Mas num processo que apenas se cumpre se respeitar um sentido (não subjectivo) da vida humana: o da dedicação de cada uma destas a alguma(s) obra(s) consistente(s) que ultrapasse(m) essa vida que se lhes vota. Teorias da relatividade, Capela Sistina, chefia do governo britânico durante a II G.M.... No caso da mulher real que foi M. Rufina Melo Tavares, na sua terrível circunstância familiar e económica, a obra foi a criação e educação do filho para que este viesse a constituir-se num homem autónomo e igualmente construtivo ou generoso. Este livro representa assim também um reconhecimento da extraordinariedade de todas essas pessoas anónimas que, sem qualquer expectativa de recompensa ou sequer cons…

“A comunidade científica em tempos de disputa”

Vacinação ou não das crianças, e construção ou não de uma incineradora em S. Miguel – A comparação entre estas atuais disputas sócio-tecno-científicas desde logo nos faculta assinalar os (já!) 20 anos daquela que talvez seja a mais importante ação de promoção da cultura científica até hoje ocorrida em Portugal. Que mais não fosse por isto, valeria a pena abordar aqui aquelas disputas. Refiro-me ao ciclo de conferências “A ciência tal qual se faz”, que decorreu entre outubro de 1996 e janeiro de 1998 na Fundação Calouste Gulbenkian, em mais uma iniciativa do ministro José Mariano Gago, sob coordenação do filósofo Fernando Gil. E, concretamente, à comunicação que o sociólogo da ciência Harry M. Collins ali apresentou, sob o título que importei para esta crónica. Mas aquela comparação, além de comemorar a efeméride, creio que nos sugerirá ainda um desenvolvimento do esquema de Collins. O qual – pelo menos até 2010 – bem se aplicou à disputa entre os defensores e os oponentes da vacinação in…

Movimento perfeito

A tensão que se resolve, sem nunca se diluir, A harmonia que dura, apesar de sem regra nem repetição

Cª Luis Bravo, "Forever Tango" (Coliseu do Porto, 9/5/2017)

Inovação, crescimento, e sociedade açoriana

As teorias do crescimento económico, depois de lhe reconhecerem como fatores o trabalho e o capital, também reconheceram como tais, de um lado, as inovações tecnocientíficas (R. Solow…), de gestão… e do outro, as instituições (ex. patentes, direitos de autor) que devem ser elas próprias inovadas de forma a promoverem e protegerem aquela outra inovação em geral (D. North…). No contexto açoriano, este jornal – por cujo aniversário hoje estamos todos (mas primeiro os seus responsáveis e profissionais) de parabéns! – diversas vezes me abriu as suas páginas para abordar inovações tecnológicas, até científicas, e eventualmente institucionais, algumas das quais relevantíssimas para a economia e a sociedade desta ilha, e do arquipélago, outras que poderão ter tido aqui, ou talvez possam a vir ter, algum impacto positivo. Foi o caso de “A modernização da indústria de laticínios em S. Miguel – 1937-1946” – se não me falha a memória, precisamente neste suplemento pelo aniversário de há dois anos (…

Tecnocracia, retórica, e o caso das duas biólogas

Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais, etc., etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha.
As ciências e as tecnologias tal qual são feitas
Com efeito, imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio, e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Obviamente que não! O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse! – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se ao lo…

A sala que só tinha largura, e um novo partido em Portugal

Imagine o leitor que vai a casa de alguém, e que na sala de estar encontra o sofá encostado a uma parede; ao lado, junto à mesma parede, está uma pequena mesa; e ainda ao lado nessa parede, um televisor no chão. Os três objetos virados para o resto da sala, vazio. Não resistindo à curiosidade, pergunta ao anfitrião: Porque é que não pões o televisor em cima da mesa, e o sofá à frente de ambos? Como é que isso é possível – diz ele perplexo – se ao longo do rodapé daquela parede apenas tenho lugares ao lado uns dos outros? Mas qual é a corrente que te prende apenas à largura da sala?! – exclama o leitor – Basta que a essa dimensão acrescentes a da altura, e já contas com as posições em-cima-de, ou por-baixo-de. Acrescenta ainda a da profundidade, e logo surge a posição à-frente-de. Os portugueses têm estado com os partidos políticos, desde 1974, aproximadamente como o dono dessa casa com os seus móveis. Assim, uns dizem: vota em mim, que eu é que sei a melhor maneira para ti de gastarmos me…