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Mensagens

A condição económica portuguesa e a dívida externa (nem tanto a pública)

Aliás, podemos fazer um exercício útil para perceber melhor a raiz dos problemas. Primeiro, calcular o défice médio que vigorou de 2000 a 2007. De seguida, compará-lo com a performance económica registada no período subsequente (e que, neste caso, é dada pela diferença entre a taxa média de crescimento do PIB entre 2008 e 2014 e a taxa média de crescimento do PIB entre 2001 e 2007). Não há grande relação entre as duas. Mas e se trocarmos o défice público pelo défice externo? Bom, já estamos a chegar a algum lado. Deixem-me saltar os detalhes e avançar directamente para a explicação canónica desta imagem: ela representa uma crise típica de balança de pagamentos. O problema não foi o endividamento do Estado, mas o endividamento de toda a economia. Depois de vários anos a conceder empréstimos a custo quase nulo, os mercados abriram os olhos, apertaram as condições de crédito e forçaram um enorme credit crunch. in: Pedro Romano, "Dívida pública e dívida externa e o artigo de Vítor Ben…

Para um esboço da estrutura da realidade (1)

Cada pessoa crê no que quer que lhe faça sentido, ou verifica-se algo a que devemos chamar “realidade”?No segundo caso, dispomos apenas de uma sua conceção, ou são possíveis mais do que uma – neste caso, quais são as alternativas?Como se escolhe entre as conceções da realidade?Que conceção geral devemos então assumir (ou que hierarquia entre conceções diversas mas não mutuamente exclusivas)?Enfim, em particular, qual é a conceção apropriada do ser humano nesse quadro geral? A cada uma dessas 5 perguntas ensaio o argumento de uma resposta respetivamente nas 5 partes de um conjunto que me parece ficar bem intitulado pela expressão "A estrutura da realidade".

O cap. 1 - com uma resposta à 1ª pergunta - foi publicado aqui em 2011.
Resumo: "Neste texto reconhece-se o problema do estabelecimento do que há a partir de um choque entre dois mundos culturais. Nessa base, distinguem-se planos em que o problema se coloca, sugere-se uma sua hierarquização, e apontam-se duas estratégia…

Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra - e com a Geração Y lavará mais branco? (mai 2013)

Açoriano Oriental, 18/05/2013:

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural. Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português). Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de caráter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aquele…

Da incineradora (e outras obras) – Duas formas válidas de argumentar disjuntivamente

Suponhamos que um pequeno conjunto de pessoas, mais ou menos conhecido, decide – por motivos que ficam à imaginação do leitor – convencer a restante população desta ilha que será bom construir aqui, digamos, uma incineradora de resíduos sólidos urbanos (poderíamos exemplificar com outros empreendimentos com impacto público). E que, para o efeito, um dos elementos desse conjunto vem a terreiro, digamos, numa sessão de esclarecimento na Lagoa, com argumentos como o seguinte:

Por um "silogismo disjuntivo"

Ou bem que construímos a incineradora (A) ou bem que não a construímos (B). Se a construirmos (A), então reduzimos o volume atual desses resíduos (A1), criamos dúzia e meia de postos de trabalho (A2)… e, last but not least, trazemos para a região (enfim, para algumas contas bancárias geridas por pessoas daquele conjunto, depois logo se vê) umas dezenas de milhões de euros da UE (An). Portanto – aceitando como evidente a bondade pelo menos de alguma consequência desta série – dev…

A ideologia portuguesa e a regra modus tollens (julh. 2013)

Avaliemos, logicamente, o discurso ideológico português ao longo das últimas três décadas. Nomeadamente aplicando a regra referida no título. A qual, uma vez que saibamos que uma proposição (chamemos-lhe P) implica uma outra (Q) – em linguagem lógica: se P então Q – e que essa última é falsa (não-Q), nos permite deduzir que também a primeira proposição será falsa (não-P). 1.1.O §14 da Declaração de Princípios da Internacional Socialista estabelece que os membros desta associação ideológica se comprometem a garantir “a igualdade de direitos e oportunidades”. Na linguagem rigorosa do cálculo de predicados, dir-se-á (simplificadamente) que qualquer coisa que seja um país, se for social-democrata (P), então tende a ser igualitário (Q). Pois bem, os gráficos 37.2 e 37.3 de A. Mateus (coord.), 25 Anos de Portugal Europeu (disponível em PDF), revelam que persistimos como um dos países mais desiguais (não-Q) dos 27 países da UE. Logo, entre estes nossos pares, Portugal tem-se mantido como não …

"A democracia e a nação" portuguesa - em 2017 a lição de 1933

Então literalmente em paralelo (!) ao movimento salazarista, eis uma quase centenária argumentação a favor da democracia liberal.


Explicitando o sentido dessa democracia, e apontando momentos da história portuguesa que possam ser assumidos como recursos para o exercício e preservação daquele regime... Num ano em que, sabemo-lo hoje, o movimento paralelo seria já imparável.
Nesse 2 de janeiro já não importou que a conferência fosse aplaudida por 200 pessoas para as quais faltaram cadeiras, diz outro jornal, bem como que nos dias a seguir ela fosse comentada pela cidade, que dentro e fora do arquipélago diversos jornais a referissem... Em 1933 o rumo estava traçado. Em Portugal e na Europa.
Em 2017, um rumo equivalente ficará traçado se os populismos vingarem. Pois, dada a normal frustração a médio prazo das promessas populistas, quem as promove só mantém o poder se evoluir para regimes autoritários.
É pois logo no ovo populista que a serpente autoritária deve ser enfrentada. Esclarecen…

Incineradora, participação pública, e hipótese de uma "conferência de consenso"

No último meio século, os estudos sobre tudo o que intervém no desenvolvimento e implementação das tecnologias derrubaram a anterior crença ingénua de que estas seriam decididas por razões estritamente técnicas. De modo que a definição clássica de tecnologia – como mera aplicação de conhecimentos científicos, que por sua vez seriam neutros a fatores sociais, económicos… – foi substituída por definições mais complexas e abrangentes, como a que tentei exemplificar nestas páginas em “A tecnologia e a ciência – um caso açoriano” (e noutro textoali referido sobre o eng. Edgar Cardoso). Voltaremos aqui a estas denúncias. Das quais entretanto, se se opta por um regime democrático, decorre a exigência de participação pública nas decisões de implementação de certas tecnologias. Muito bem exemplificada pelo processo em curso nesta ilha sobre a construção de uma central de incineração de resíduos sólidos urbanos. Como Luís Anselmo bem apontou neste jornal em “Sinais da sociedade civil!” (15/03/20…