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Mensagens

Livre arbítrio - Da literatura antiga às neurociências

Em época de pôr as leituras em dia, nenhuma obra merecerá mais essa atenção do que a Ilíada. Na qual se encontra – além do resto! – uma das mais comoventes passagens (do pouco que conheço) da história da literatura: Heitor, príncipe de Tróia, ao se dirigir para o combate onde representará a sua cidade contra Aquiles, campeão grego e melhor de todos os guerreiros, cruza-se com a esposa mais o filho. E, a caminho da sua quase certa morte violenta, para não assustar a criança com uma imagem bélica, Heitor tira o capacete ao se despedir de ambos. O enigma de Heitor Fosse o príncipe troiano determinado hereditariamente, ou pela sua educação, ou pela circunstância do cerco dos gregos… qual espécie de marioneta, e nele ou não haveria lugar a grande cuidado com uma criança, à margem da caminhada para o combate final. Ou, como Páris, tentaria furtar-se a este último, reduzindo-se à vivência das emoções amorosas. Mas, em Heitor, houve lugar a estas e ao combate mortal. Duas interpretações são poss…

Para uma eficaz intervenção cultural em Portugal - estrutura e fatores da evolução cultural

O sentido da vida humana - Duas propostas literárias semelhantes na forma, alternativas (mas talvez não opostas) na sugestão

Um mérito científico de J. Rodrigues dos Santos

Nos últimos dois meses, em alguns dos principais órgãos de comunicação social portugueses, levantou-se uma acesa discussão sobre um tema, aliás dois temas, alheios ao futebol, à economia, e distantes da política partidária quotidiana. Coisa rara! Refiro-me à questão da origem do fascismo, que José Rodrigues dos Santos (JRS) atribui ao marxismo. Uma questão que logo se desdobrou em duas: a da determinação dessa origem, e a do processo apropriado para determinar a origem de uma ideologia.
O crédito que poderemos dar à primeira resposta depende do valor da segunda. Não se querendo então JRS ficar pelo reconhecimento social de quem o lê apenas para se distrair, e pelo correspondente avolumar da conta bancária dele, o jornalista e escritos veio reclamar "que a afirmação [de que o fascismo tem origens marxistas, é] (...) fundamentada (...) ao pormenor em As Flores de Lótus e em O Pavilhão Púrpura" ("O fascismo tem origem no marxismo", Público, 29/05/2016)
Esta pretensão de…

O Velho e o Mar

A vida e a morte.
Facilmente se constroem e enredam fileiras de enfeites que as disfarcem.
Mais difícil é ficar só com elas, mais o que as eleve.

Uma janela de 100 anos sobre a ciência contemporânea - O primado da razão

Faz este mês exatamente um século que Albert Einstein publicou o artigo com um pormenor decisivo para a validade da teoria geral da relatividade (publicada em 2015): a previsão de ondas gravitacionais na base desta teoria. Daí o relevo que a comunicação social, em fevereiro passado, deu à interpretação de uma certa medição como sendo a deteção de ondas gravitacionais. Além do justo alvoroço nos meios estritos da física, esse processo parece-me revelador do que são em geral as ciências modernas e contemporâneas. Desde logo, sobre quão estas últimas têm vindo a afastar-se da observação espontânea do mundo natural e das relações sociais, e a privilegiar o exercício da razão. Um tempo vs. muitos tempos Einstein foi exemplo disso já com a teoria restrita da relatividade, em 1905, face a um problema com as medições da velocidade da luz – Pelo menos desde o best-seller Breve História do Tempo, de Stephen W. Hawking (1988), não faltam ao leitor apresentações avalizadas desse momento da história …

A cabeça não é a oitava maravilha

Quando a cabeça está convencida / De que ela é / A oitava maravilha / O corpo é que paga / O corpo é que paga. / Deixa sofrer, deixa sofrer / Se isso te dá prazer…

Filosofia: Modernidade vs. séc XXI

Contra António Variações se ergueu a maioria dos filósofos do séc. XX, e mesmo boa parte da filosofia das ciências desse período. Argumentavam que o que chamamos “realidade” será uma projeção da nossa forma de perceção, de pensar e dizer… Mesmo as elaboradíssimas justificações científicas, que certeza nos poderão facultar quando verificamos que as ciências nos garantem hoje teses com a mesma segurança com que ontem nos garantiam o contrário? Quando nos apercebemos das influências sociais, religiosas, políticas… sobre investigações científicas, e mesmo sobre algumas formulações dos seus resultados? Um (não é o único) grão de areia nessa engrenagem teórica, como muito bem aponta o cantor português, é que depois, à conta disso, algum “corpo” recebe uma conta para pagar. Ou seja, haverá alguma …