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A economia é uma ciência... ou será engenharia, artesanato?

Particularmente neste período em que se discute se as receitas assumidas no Orçamento do Estado são ou não prováveis, e se a opção da atual maioria parlamentar por uma política económica pelo lado da procura (aumento de salários…) é ou não prometedora no contexto económico português, a pergunta acima não é de todo um fait divers, ou uma especulação gratuita. Ao contrário, é absolutamente determinante, e urgente. Pois ao conhecimento de tipo científico é reconhecida uma muito maior fiabilidade do que ao senso comum, particularmente em questões complexas. O que nos convida a confiar nos economistas “cientistas”… se os há. Caso contrário, maior crédito merecerão uns economistas, digamos, “engenheiros”, “artesãos”… A questão coloca-se em especial desde o fim do séc. XVIII, quando Adam Smith e os consequentes economistas clássicos pretenderam equacionar os fenómenos económicos à imagem do que Galileu, Kepler, Newton… tinham já feito, com extraordinário sucesso, aos fenómenos físicos.

Uma econ…

Da essência da tecnologia - Um caso açoriano

No nosso quotidiano, da leitura deste jornal impresso ou online à bebida de um café tirado de uma máquina, compreender a tecnologia é esclarecer boa parte do que vivemos e somos. Procuremos então caracterizá-la, primeiro na base de um caso de estudo açoriano, e depois ensaiando outra aplicação do conceito antes exemplificado.
Um caso propriamente açoriano

Tomemos o caso das ordenhas móveis - apresentadas por Fátima Amorim et al., no abrangente apesar de pequeno estudo Vacas leiteiras em pastoreio, da IDEASS, como “uma inovação açoriana” (p. 1). Aliás, “a inovação mais interessante no maneio das vacas leiteiras nos Açores (…) constituindo a base deste modelo produtivo” (p. 8). Os autores não sustentam esta sua última afirmação. Mas, intuitivamente, pelo menos não nos é difícil reconhecer às ordenhas móveis “uma grande vantagem nas zonas em que as explorações agrícolas possuem terrenos com muitas parcelas, dispersas por vários locais” (ibid.). Este caso ilustra assim a condição de se apres…

Os dois porquinhos mais novos e a COP21

Suponhamos os três porquinhos da fábula a lerem o artigo “COP21 Paris climate talks: a beginner’s guide”, do Financial Times (30/11) – um jornal de todo insuspeito de privilegiar quaisquer outros interesses em detrimento dos económicos. Ou melhor, o porquinho mais velho a lê-lo, que os irmãos mais novos logo darão outro uso ao computador! De um lado, aquele porquinho deparar-se-á com a comunidade internacional a assumir que o clima aqueceu cerca de 1ºC desde o início da Revolução Industrial; que daí decorrem alterações gravosas já em curso; que as emissões de carbono, por atividade humana, são relevantes para esse aquecimento; e que será imprudente aumentar este último acima dos 2ºC. Do outro lado, com os fracassos das COP2 (Kyoto) e COP15 (Copenhaga), o mesmo porquinho reconhecerá a dificuldade de um acordo político ecologicamente suficiente – seja entre os países que enriqueceram graças a tais emissões durante o último século e meio (os quais querem que hoje todos as reduzam), e os pa…

Alterações climáticas - Regresso à ponte de um superpetroleiro

Neste último domingo foi novamente noticiado o projeto ClimAdaPT.Local, pelo trabalho de “identificar as fragilidades em cada município [relativas às alterações climáticas] e traçar estratégias para as ultrapassar” (Diário de Notícias).

Informação pública? Sim. Mas...

Uma identificação que, a avaliar pelos “Objetivos” e pelas “Fases” daquele projeto (v. respetivo site), se afigura assentar numa disponibilização de conhecimentos sobre clima, ordenamento do território… a autarcas e técnicos municipais, em vista à implementação das respostas localmente mais adequadas. Enfatiza-se assim um dos dois requisitos que tinham sido feitos na sessão de fevereiro de 2014 do Núcleo de Estudos de Ciência,Tecnologia e Sociedade (NECTS), do Instituto Cultural de Ponta Delgada, praticamente um ano antes do lançamento daquele projeto nacional (janeiro de 2015). Me parece faltar porém reconhecer no mesmo plano, e desenvolver, o outro requisito. O qual julgo dever ser tido em conta não apenas na Câmara Municip…

O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (2)

Na crónica precedente (11/11/2015) lembrei o sonho de certa Miss Nova Orleães de ter um filho com Einstein, na expetativa de juntar a beleza dela e a inteligência deste… Também lembrei a resposta do cientista. E, referindo dois prémios Breakthrough para as ciências da vida, mencionei as transformações da espécie humana que estão ficando ao nosso alcance graças ao poder tecnocientífico das NBIC – nanotecnologias, biotecnologias, informática, e ciências cognitivas (neurociências, inteligência artificial, robótica). Argumentei que o mais sensato será usar esse poder com alguma limitação. Resta saber qual. Foi a propósito desta questão que concluí essa outra crónica introduzindo a atual: “enquanto porém apenas perspetivamos essa revolução das NBIC temos de lidar hoje com uma outra revolução que parece estar em curso nos próprios alicerces de qualquer resposta ao que temos vindo a tratar”. Da herança moderna… Com efeito, na segunda metade do séc. XX foram estabelecidas normas como o princípio d…

O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (1)

Conta-se que face à aspiração de certa Miss Nova Orleães por um seu filho com Einstein, pela expetativa dela de acrescentar à sua beleza a inteligência do cientista, este, prudentemente (ainda que confessando o apetite pela experiência!), lembrou a possibilidade da criança sair antes ao pai na beleza, e à mãe na inteligência. A cautela percebe-se, pois, à época, a tecnologia de seleção artificial na evolução das espécies ainda não tinha progredido substancialmente desde a revolução neolítica. A saber, mediante a escolha dos animais reprodutores e de sementes, as técnicas de enxerto de plantas… estendidas ao transporte de sémen e à fecundação artificial. Todas essas técnicas facilitavam a transmissão de umas informações em detrimento de outras. Mas a informação disponível era sempre a que a natureza facultasse. Hoje, 12.000 anos depois do início do Neolítico, uma nova revolução se afigura vir quebrar essa limitação. E uma revolução de outra natureza ainda se afigura vir enquadrar a anter…

Um exemplo de Timothy Williamson sobre diálogos filosóficos

Explorando radicalmente os problemas do que possa haver de comum entre quem se enfrenta numa guerra civil, do fundamento da autoridade política... a cena 4 do Acto II de As Cinco Batalhas de Coimbra desenvolve precisamente o 1º exemplo sugerido por T. Williamson em "Strangers on a train", TPM, 70 (2015): 27-33 - "It is better to meet a realist, a conceptualist, and a nominalist, to hear them arguing with each other...".
Como esse filósofo reconhece, embora os diálogos filosóficos percam em explanação para os textos teóricos, representam afinal o modo como a filosofia (e mesmo as ciências) evoluem historicamente.
Mais do que isso, naquele texto dramático reportado ao início do séc. XIV sugere-se uma evolução histórica tanto condicionadora quanto condicionada por decisões de natureza filosófica. (Além das questões do estabelecimento de uma identidade portuguesa, e da génese de uma Modernidade ocidental, também então em jogo).