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Mensagens

Os dois porquinhos mais novos e a COP21

Suponhamos os três porquinhos da fábula a lerem o artigo “COP21 Paris climate talks: a beginner’s guide”, do Financial Times (30/11) – um jornal de todo insuspeito de privilegiar quaisquer outros interesses em detrimento dos económicos. Ou melhor, o porquinho mais velho a lê-lo, que os irmãos mais novos logo darão outro uso ao computador! De um lado, aquele porquinho deparar-se-á com a comunidade internacional a assumir que o clima aqueceu cerca de 1ºC desde o início da Revolução Industrial; que daí decorrem alterações gravosas já em curso; que as emissões de carbono, por atividade humana, são relevantes para esse aquecimento; e que será imprudente aumentar este último acima dos 2ºC. Do outro lado, com os fracassos das COP2 (Kyoto) e COP15 (Copenhaga), o mesmo porquinho reconhecerá a dificuldade de um acordo político ecologicamente suficiente – seja entre os países que enriqueceram graças a tais emissões durante o último século e meio (os quais querem que hoje todos as reduzam), e os pa…

Alterações climáticas - Regresso à ponte de um superpetroleiro

Neste último domingo foi novamente noticiado o projeto ClimAdaPT.Local, pelo trabalho de “identificar as fragilidades em cada município [relativas às alterações climáticas] e traçar estratégias para as ultrapassar” (Diário de Notícias).

Informação pública? Sim. Mas...

Uma identificação que, a avaliar pelos “Objetivos” e pelas “Fases” daquele projeto (v. respetivo site), se afigura assentar numa disponibilização de conhecimentos sobre clima, ordenamento do território… a autarcas e técnicos municipais, em vista à implementação das respostas localmente mais adequadas. Enfatiza-se assim um dos dois requisitos que tinham sido feitos na sessão de fevereiro de 2014 do Núcleo de Estudos de Ciência,Tecnologia e Sociedade (NECTS), do Instituto Cultural de Ponta Delgada, praticamente um ano antes do lançamento daquele projeto nacional (janeiro de 2015). Me parece faltar porém reconhecer no mesmo plano, e desenvolver, o outro requisito. O qual julgo dever ser tido em conta não apenas na Câmara Municip…

O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (2)

Na crónica precedente (11/11/2015) lembrei o sonho de certa Miss Nova Orleães de ter um filho com Einstein, na expetativa de juntar a beleza dela e a inteligência deste… Também lembrei a resposta do cientista. E, referindo dois prémios Breakthrough para as ciências da vida, mencionei as transformações da espécie humana que estão ficando ao nosso alcance graças ao poder tecnocientífico das NBIC – nanotecnologias, biotecnologias, informática, e ciências cognitivas (neurociências, inteligência artificial, robótica). Argumentei que o mais sensato será usar esse poder com alguma limitação. Resta saber qual. Foi a propósito desta questão que concluí essa outra crónica introduzindo a atual: “enquanto porém apenas perspetivamos essa revolução das NBIC temos de lidar hoje com uma outra revolução que parece estar em curso nos próprios alicerces de qualquer resposta ao que temos vindo a tratar”. Da herança moderna… Com efeito, na segunda metade do séc. XX foram estabelecidas normas como o princípio d…

O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (1)

Conta-se que face à aspiração de certa Miss Nova Orleães por um seu filho com Einstein, pela expetativa dela de acrescentar à sua beleza a inteligência do cientista, este, prudentemente (ainda que confessando o apetite pela experiência!), lembrou a possibilidade da criança sair antes ao pai na beleza, e à mãe na inteligência. A cautela percebe-se, pois, à época, a tecnologia de seleção artificial na evolução das espécies ainda não tinha progredido substancialmente desde a revolução neolítica. A saber, mediante a escolha dos animais reprodutores e de sementes, as técnicas de enxerto de plantas… estendidas ao transporte de sémen e à fecundação artificial. Todas essas técnicas facilitavam a transmissão de umas informações em detrimento de outras. Mas a informação disponível era sempre a que a natureza facultasse. Hoje, 12.000 anos depois do início do Neolítico, uma nova revolução se afigura vir quebrar essa limitação. E uma revolução de outra natureza ainda se afigura vir enquadrar a anter…

Um exemplo de Timothy Williamson sobre diálogos filosóficos

Explorando radicalmente os problemas do que possa haver de comum entre quem se enfrenta numa guerra civil, do fundamento da autoridade política... a cena 4 do Acto II de As Cinco Batalhas de Coimbra desenvolve precisamente o 1º exemplo sugerido por T. Williamson em "Strangers on a train", TPM, 70 (2015): 27-33 - "It is better to meet a realist, a conceptualist, and a nominalist, to hear them arguing with each other...".
Como esse filósofo reconhece, embora os diálogos filosóficos percam em explanação para os textos teóricos, representam afinal o modo como a filosofia (e mesmo as ciências) evoluem historicamente.
Mais do que isso, naquele texto dramático reportado ao início do séc. XIV sugere-se uma evolução histórica tanto condicionadora quanto condicionada por decisões de natureza filosófica. (Além das questões do estabelecimento de uma identidade portuguesa, e da génese de uma Modernidade ocidental, também então em jogo).

As eleições e o sistema social português de inovação e produção

O próximo dia 4 de outubro será mais um daqueles em que todos estaremos aproximadamente de acordo sobre o que não queremos – repetir o que possa ter contribuído para os últimos cinco anos – e em desacordo no que se segue – a identificação do que tenha sido isso, e a escolha da alternativa. Quer neste nosso âmbito da ciência e tecnologia no Ciência Hoje, quer no resto.

A perspetiva "institucionalista"

Um desacordo prévio, aliás, será sobre a ferramenta teórica a usar. De um lado, os tecnocratas da economia, os defensores de uma ideologia (socialismo) científica(o)… sustentam um modelo único de eficiência, ou da evolução histórica… – ex. o equilíbrio geral de Walras, o materialismo dialético… Assim os estados económicos distinguir-se-ão, e serão avaliados, pelo seu grau de proximidade a esse modelo ótimo; as ações políticas, por parecerem antecipar ou atrasar esse destino histórico, etc. No entanto essa própria desmultiplicação de modelos, que era suposto serem únicos, abre-nos a…

O 11 de setembro: xeque ao 11 de dezembro*

«What could now sustain them but the spirit of God and His grace?», escreveu William Bradford ao constatar a resistência dos seus companheiros ao rigor daquele primeiro inverno nesse outro lado do oceano. O lugar era a costa do que veio a chamar-se “Massachusetts”. A primavera era a de 1621. E essa foi a colónia constituída pelos sobreviventes dos cento e dois tripulantes que, com uma carga de provisões e uma licença para se estabelecerem na América, tinham partido de Plymouth no Mayflower, e ali desembarcaram a 11 de Dezembro**. Na sua interpretação calvinista, eles eram os novos Peregrinos, e, como o povo judeu fugindo do Egipto para a Terra Prometida, tinham virado as costas a uma Europa que se teria desviado da Palavra de Deus, e estavam iniciando uma res publica que haveria de cumprir enfim a vontade do Criador. Pois supunham que Deus os havia escolhido, que lhes falava como tinha feito a Moisés – segundo Calvino a letra da Bíblia é a Palavra de Deus, assim imediatamente compree…