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O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (2)

Na crónica precedente (11/11/2015) lembrei o sonho de certa Miss Nova Orleães de ter um filho com Einstein, na expetativa de juntar a beleza dela e a inteligência deste… Também lembrei a resposta do cientista. E, referindo dois prémios Breakthrough para as ciências da vida, mencionei as transformações da espécie humana que estão ficando ao nosso alcance graças ao poder tecnocientífico das NBIC – nanotecnologias, biotecnologias, informática, e ciências cognitivas (neurociências, inteligência artificial, robótica). Argumentei que o mais sensato será usar esse poder com alguma limitação. Resta saber qual. Foi a propósito desta questão que concluí essa outra crónica introduzindo a atual: “enquanto porém apenas perspetivamos essa revolução das NBIC temos de lidar hoje com uma outra revolução que parece estar em curso nos próprios alicerces de qualquer resposta ao que temos vindo a tratar”. Da herança moderna… Com efeito, na segunda metade do séc. XX foram estabelecidas normas como o princípio d…

O sonho da Miss Nova Orleães e uma bioética para o séc. XXI (1)

Conta-se que face à aspiração de certa Miss Nova Orleães por um seu filho com Einstein, pela expetativa dela de acrescentar à sua beleza a inteligência do cientista, este, prudentemente (ainda que confessando o apetite pela experiência!), lembrou a possibilidade da criança sair antes ao pai na beleza, e à mãe na inteligência. A cautela percebe-se, pois, à época, a tecnologia de seleção artificial na evolução das espécies ainda não tinha progredido substancialmente desde a revolução neolítica. A saber, mediante a escolha dos animais reprodutores e de sementes, as técnicas de enxerto de plantas… estendidas ao transporte de sémen e à fecundação artificial. Todas essas técnicas facilitavam a transmissão de umas informações em detrimento de outras. Mas a informação disponível era sempre a que a natureza facultasse. Hoje, 12.000 anos depois do início do Neolítico, uma nova revolução se afigura vir quebrar essa limitação. E uma revolução de outra natureza ainda se afigura vir enquadrar a anter…

Um exemplo de Timothy Williamson sobre diálogos filosóficos

Explorando radicalmente os problemas do que possa haver de comum entre quem se enfrenta numa guerra civil, do fundamento da autoridade política... a cena 4 do Acto II de As Cinco Batalhas de Coimbra desenvolve precisamente o 1º exemplo sugerido por T. Williamson em "Strangers on a train", TPM, 70 (2015): 27-33 - "It is better to meet a realist, a conceptualist, and a nominalist, to hear them arguing with each other...".
Como esse filósofo reconhece, embora os diálogos filosóficos percam em explanação para os textos teóricos, representam afinal o modo como a filosofia (e mesmo as ciências) evoluem historicamente.
Mais do que isso, naquele texto dramático reportado ao início do séc. XIV sugere-se uma evolução histórica tanto condicionadora quanto condicionada por decisões de natureza filosófica. (Além das questões do estabelecimento de uma identidade portuguesa, e da génese de uma Modernidade ocidental, também então em jogo).

As eleições e o sistema social português de inovação e produção

O próximo dia 4 de outubro será mais um daqueles em que todos estaremos aproximadamente de acordo sobre o que não queremos – repetir o que possa ter contribuído para os últimos cinco anos – e em desacordo no que se segue – a identificação do que tenha sido isso, e a escolha da alternativa. Quer neste nosso âmbito da ciência e tecnologia no Ciência Hoje, quer no resto.

A perspetiva "institucionalista"

Um desacordo prévio, aliás, será sobre a ferramenta teórica a usar. De um lado, os tecnocratas da economia, os defensores de uma ideologia (socialismo) científica(o)… sustentam um modelo único de eficiência, ou da evolução histórica… – ex. o equilíbrio geral de Walras, o materialismo dialético… Assim os estados económicos distinguir-se-ão, e serão avaliados, pelo seu grau de proximidade a esse modelo ótimo; as ações políticas, por parecerem antecipar ou atrasar esse destino histórico, etc. No entanto essa própria desmultiplicação de modelos, que era suposto serem únicos, abre-nos a…

O 11 de setembro: xeque ao 11 de dezembro*

«What could now sustain them but the spirit of God and His grace?», escreveu William Bradford ao constatar a resistência dos seus companheiros ao rigor daquele primeiro inverno nesse outro lado do oceano. O lugar era a costa do que veio a chamar-se “Massachusetts”. A primavera era a de 1621. E essa foi a colónia constituída pelos sobreviventes dos cento e dois tripulantes que, com uma carga de provisões e uma licença para se estabelecerem na América, tinham partido de Plymouth no Mayflower, e ali desembarcaram a 11 de Dezembro**. Na sua interpretação calvinista, eles eram os novos Peregrinos, e, como o povo judeu fugindo do Egipto para a Terra Prometida, tinham virado as costas a uma Europa que se teria desviado da Palavra de Deus, e estavam iniciando uma res publica que haveria de cumprir enfim a vontade do Criador. Pois supunham que Deus os havia escolhido, que lhes falava como tinha feito a Moisés – segundo Calvino a letra da Bíblia é a Palavra de Deus, assim imediatamente compree…

Viagem aos primórdios do darwinismo social em Portugal

Nestas semanas de lazer, uma rica sugestão de leitura – tão portuguesa quanto internacional, e, no âmbito social e humano, bem atual! – chega-nos pela mão de Charles Darwin, juntamente com John Dalton Hooker (botânico evolucionista, amigo de Darwin), o lamarckista Edmond Perrier, e mais sete dezenas de vultos científicos europeus e americanos da época. Entre os quais Gustave Le Bon, um dos primeiros cientistas sociais a aplicar o paradigma da seleção natural.

O extraordinário caso Arruda Furtado!

            Além de que basta um tablet ou equivalente, e algum sítio com acesso à rede, para podermos navegar pela correspondênciaque todas aquelas pessoas quiseram manter, e assim valorizaram e no-lo sugerem, com Francisco de Arruda Furtado – sobre quem, a sua obra, e a sua envolvente histórica, valeu a exposição relativa a este "discípulo de Darwin". Pela minha parte navegarei – com a casualidade própria de uma leitura de férias – pela extensão do paradigma darwiniano desde a malaco…

"Começando a pirâmide pelo vértice" (Em Demanda da Europa)

«Uma boa metáfora para a unidade de diversos países é a pirâmide, na base da qual o vértice representa o pólo aglutinador, enquanto os pontos da base representam os elementos da união. Perguntando-se então pelo modo de construção dessa "pirâmide", talvez a resposta mais natural seja a de que se comece pelo vértice, de forma a impô-lo depois às diversas partes.
Foi esse o modelo geral na Idade Moderna.
É certo que já no nosso tempo houve uma tentativa análoga: a do III Reich. No entanto o nazismo opôs-se à civilização ocidental, invocando antes raízes da cultura germânica anteriores ao helenismo e à cristandade - como bem se percebe na redução da pessoa à raça, ou na obediência cega a um Führer. De forma que o III Reich pode ser considerado anacrónico, não sendo típico de qualquer época da nossa história. E de qualquer modo o seu sucesso foi o conhecido.
Na Modernidade ocidental a "primazia do vértice" teve o seu primeiro momento político no séc. XVI, com o império …