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Mensagens

Um exemplo de Timothy Williamson sobre diálogos filosóficos

Explorando radicalmente os problemas do que possa haver de comum entre quem se enfrenta numa guerra civil, do fundamento da autoridade política... a cena 4 do Acto II de As Cinco Batalhas de Coimbra desenvolve precisamente o 1º exemplo sugerido por T. Williamson em "Strangers on a train", TPM, 70 (2015): 27-33 - "It is better to meet a realist, a conceptualist, and a nominalist, to hear them arguing with each other...".
Como esse filósofo reconhece, embora os diálogos filosóficos percam em explanação para os textos teóricos, representam afinal o modo como a filosofia (e mesmo as ciências) evoluem historicamente.
Mais do que isso, naquele texto dramático reportado ao início do séc. XIV sugere-se uma evolução histórica tanto condicionadora quanto condicionada por decisões de natureza filosófica. (Além das questões do estabelecimento de uma identidade portuguesa, e da génese de uma Modernidade ocidental, também então em jogo).

As eleições e o sistema social português de inovação e produção

O próximo dia 4 de outubro será mais um daqueles em que todos estaremos aproximadamente de acordo sobre o que não queremos – repetir o que possa ter contribuído para os últimos cinco anos – e em desacordo no que se segue – a identificação do que tenha sido isso, e a escolha da alternativa. Quer neste nosso âmbito da ciência e tecnologia no Ciência Hoje, quer no resto.

A perspetiva "institucionalista"

Um desacordo prévio, aliás, será sobre a ferramenta teórica a usar. De um lado, os tecnocratas da economia, os defensores de uma ideologia (socialismo) científica(o)… sustentam um modelo único de eficiência, ou da evolução histórica… – ex. o equilíbrio geral de Walras, o materialismo dialético… Assim os estados económicos distinguir-se-ão, e serão avaliados, pelo seu grau de proximidade a esse modelo ótimo; as ações políticas, por parecerem antecipar ou atrasar esse destino histórico, etc. No entanto essa própria desmultiplicação de modelos, que era suposto serem únicos, abre-nos a…

O 11 de setembro: xeque ao 11 de dezembro*

«What could now sustain them but the spirit of God and His grace?», escreveu William Bradford ao constatar a resistência dos seus companheiros ao rigor daquele primeiro inverno nesse outro lado do oceano. O lugar era a costa do que veio a chamar-se “Massachusetts”. A primavera era a de 1621. E essa foi a colónia constituída pelos sobreviventes dos cento e dois tripulantes que, com uma carga de provisões e uma licença para se estabelecerem na América, tinham partido de Plymouth no Mayflower, e ali desembarcaram a 11 de Dezembro**. Na sua interpretação calvinista, eles eram os novos Peregrinos, e, como o povo judeu fugindo do Egipto para a Terra Prometida, tinham virado as costas a uma Europa que se teria desviado da Palavra de Deus, e estavam iniciando uma res publica que haveria de cumprir enfim a vontade do Criador. Pois supunham que Deus os havia escolhido, que lhes falava como tinha feito a Moisés – segundo Calvino a letra da Bíblia é a Palavra de Deus, assim imediatamente compree…

Viagem aos primórdios do darwinismo social em Portugal

Nestas semanas de lazer, uma rica sugestão de leitura – tão portuguesa quanto internacional, e, no âmbito social e humano, bem atual! – chega-nos pela mão de Charles Darwin, juntamente com John Dalton Hooker (botânico evolucionista, amigo de Darwin), o lamarckista Edmond Perrier, e mais sete dezenas de vultos científicos europeus e americanos da época. Entre os quais Gustave Le Bon, um dos primeiros cientistas sociais a aplicar o paradigma da seleção natural.

O extraordinário caso Arruda Furtado!

            Além de que basta um tablet ou equivalente, e algum sítio com acesso à rede, para podermos navegar pela correspondênciaque todas aquelas pessoas quiseram manter, e assim valorizaram e no-lo sugerem, com Francisco de Arruda Furtado – sobre quem, a sua obra, e a sua envolvente histórica, valeu a exposição relativa a este "discípulo de Darwin". Pela minha parte navegarei – com a casualidade própria de uma leitura de férias – pela extensão do paradigma darwiniano desde a malaco…

"Começando a pirâmide pelo vértice" (Em Demanda da Europa)

«Uma boa metáfora para a unidade de diversos países é a pirâmide, na base da qual o vértice representa o pólo aglutinador, enquanto os pontos da base representam os elementos da união. Perguntando-se então pelo modo de construção dessa "pirâmide", talvez a resposta mais natural seja a de que se comece pelo vértice, de forma a impô-lo depois às diversas partes.
Foi esse o modelo geral na Idade Moderna.
É certo que já no nosso tempo houve uma tentativa análoga: a do III Reich. No entanto o nazismo opôs-se à civilização ocidental, invocando antes raízes da cultura germânica anteriores ao helenismo e à cristandade - como bem se percebe na redução da pessoa à raça, ou na obediência cega a um Führer. De forma que o III Reich pode ser considerado anacrónico, não sendo típico de qualquer época da nossa história. E de qualquer modo o seu sucesso foi o conhecido.
Na Modernidade ocidental a "primazia do vértice" teve o seu primeiro momento político no séc. XVI, com o império …

Inter- e transdisciplinaridades - Sim, mas...

No Número anterior desta revista assumi (ingenuamente) de dois conceituados autores o elogio do diálogo entre ciências e tecnologias, e entre elas e as demais áreas da vida social. Nesse texto também lembrei, a outro propósito, o adágio o diabo está nos detalhes. Ocorre-me agora, porém, que será prudente aplicar este último igualmente àquele elogio, ou melhor, ao modo, e aos limites, da sua aplicação. Para nos acautelarmos, de um lado, com aculturações como a que há quase duas décadas deu azo a um dos episódios não só mais divertido, mas também mais significativo da história do pensamento contemporâneo: o caso Sokal.

Da parolice nas ciências sociais e nas humanidades...

Tem o nome do físico norte-americano que, em 1996, submeteu à revista Social Text o artigo “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”. O gongorismo do título não foi acidental, ou muito menos fruto de presunção intelectual. Ao contrário, visava apresentar logo à part…

Um Nobel de medicina que nem medicina sabe

A talho de foice das declarações de Sir Tim Hunt no mês passado – sobre um desejável apartheid de género nos laboratórios, para se corrigir a “dirupção científica” causada pelas paixões entre homens e mulheres, mais os choros delas, diz ele, quando ouvem críticas – julgo vir a lapidar frase de Abel Salazar: “o médico que só sabe medicina nem medicina sabe”. Uma vez porém que o Nobel e o grau de Cavaleiro lhe foram atribuídos não por uma sua inovação no tratamento de algumas doenças, mas pelos resultados da sua investigação no âmbito da fisiologia, deveremos ajustar o juízo numa paráfrase. Como talvez esta: o investigador que do processo só sabe os resultados nem os resultados sabe.

Em defesa de Sir Tim

Confesso que sinto por Sir Tim a simpatia por quem rompe com a ditadura do social e culturalmente correto. Mas a tentativa (!) de objetividade obriga-me a nem por isso deixar de julgar que errou. Por defeito, não por excesso. E no sentido da resposta a dar ao problema, não no reconheciment…