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Mensagens

Viagem aos primórdios do darwinismo social em Portugal

Nestas semanas de lazer, uma rica sugestão de leitura – tão portuguesa quanto internacional, e, no âmbito social e humano, bem atual! – chega-nos pela mão de Charles Darwin, juntamente com John Dalton Hooker (botânico evolucionista, amigo de Darwin), o lamarckista Edmond Perrier, e mais sete dezenas de vultos científicos europeus e americanos da época. Entre os quais Gustave Le Bon, um dos primeiros cientistas sociais a aplicar o paradigma da seleção natural.

O extraordinário caso Arruda Furtado!

            Além de que basta um tablet ou equivalente, e algum sítio com acesso à rede, para podermos navegar pela correspondênciaque todas aquelas pessoas quiseram manter, e assim valorizaram e no-lo sugerem, com Francisco de Arruda Furtado – sobre quem, a sua obra, e a sua envolvente histórica, valeu a exposição relativa a este "discípulo de Darwin". Pela minha parte navegarei – com a casualidade própria de uma leitura de férias – pela extensão do paradigma darwiniano desde a malaco…

"Começando a pirâmide pelo vértice" (Em Demanda da Europa)

«Uma boa metáfora para a unidade de diversos países é a pirâmide, na base da qual o vértice representa o pólo aglutinador, enquanto os pontos da base representam os elementos da união. Perguntando-se então pelo modo de construção dessa "pirâmide", talvez a resposta mais natural seja a de que se comece pelo vértice, de forma a impô-lo depois às diversas partes.
Foi esse o modelo geral na Idade Moderna.
É certo que já no nosso tempo houve uma tentativa análoga: a do III Reich. No entanto o nazismo opôs-se à civilização ocidental, invocando antes raízes da cultura germânica anteriores ao helenismo e à cristandade - como bem se percebe na redução da pessoa à raça, ou na obediência cega a um Führer. De forma que o III Reich pode ser considerado anacrónico, não sendo típico de qualquer época da nossa história. E de qualquer modo o seu sucesso foi o conhecido.
Na Modernidade ocidental a "primazia do vértice" teve o seu primeiro momento político no séc. XVI, com o império …

Inter- e transdisciplinaridades - Sim, mas...

No Número anterior desta revista assumi (ingenuamente) de dois conceituados autores o elogio do diálogo entre ciências e tecnologias, e entre elas e as demais áreas da vida social. Nesse texto também lembrei, a outro propósito, o adágio o diabo está nos detalhes. Ocorre-me agora, porém, que será prudente aplicar este último igualmente àquele elogio, ou melhor, ao modo, e aos limites, da sua aplicação. Para nos acautelarmos, de um lado, com aculturações como a que há quase duas décadas deu azo a um dos episódios não só mais divertido, mas também mais significativo da história do pensamento contemporâneo: o caso Sokal.

Da parolice nas ciências sociais e nas humanidades...

Tem o nome do físico norte-americano que, em 1996, submeteu à revista Social Text o artigo “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”. O gongorismo do título não foi acidental, ou muito menos fruto de presunção intelectual. Ao contrário, visava apresentar logo à part…

Um Nobel de medicina que nem medicina sabe

A talho de foice das declarações de Sir Tim Hunt no mês passado – sobre um desejável apartheid de género nos laboratórios, para se corrigir a “dirupção científica” causada pelas paixões entre homens e mulheres, mais os choros delas, diz ele, quando ouvem críticas – julgo vir a lapidar frase de Abel Salazar: “o médico que só sabe medicina nem medicina sabe”. Uma vez porém que o Nobel e o grau de Cavaleiro lhe foram atribuídos não por uma sua inovação no tratamento de algumas doenças, mas pelos resultados da sua investigação no âmbito da fisiologia, deveremos ajustar o juízo numa paráfrase. Como talvez esta: o investigador que do processo só sabe os resultados nem os resultados sabe.

Em defesa de Sir Tim

Confesso que sinto por Sir Tim a simpatia por quem rompe com a ditadura do social e culturalmente correto. Mas a tentativa (!) de objetividade obriga-me a nem por isso deixar de julgar que errou. Por defeito, não por excesso. E no sentido da resposta a dar ao problema, não no reconheciment…

A cultura portuguesa e a cultura das ciências

Num dos mais célebres textos da nossa história das ideias, apresentado no Casino Lisbonense a 27 de maio de 1871, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, Antero de Quental reconheceu ter-se tornado crónica uma decadência socioeconómica de Portugal em relação aos seus pares europeus. Tendo argumentado que esse fenómeno radicaria na cultura moderna portuguesa. E que, nesta, seriam três as “causas” da nossa decadência, Das quais pelo menos as duas primeiras partilham uma desvalorização da racionalidade crítica – e assim do espírito das ciências modernas. Em vésperas do dia de Portugal, aqui regresso ao diálogo com esse meu ilustre conterrâneo, para acrescentar um comentário em prol do reforço da cultura própria a essas ciências no seio da cultura com que nos definimos coletivamente. Regresso assim também a um dos livros que, em troca, restaram dos mais “ignorados” da nossa história editorial recente (como escreveu, creio que na única menção que por um momento …

Login, logo existo?

A câmara orienta-se de um corredor para o quarto onde dois rapazes orientais estão embrenhados em frente de um televisor, manipulando freneticamente os comandos de pequenas consolas. Semelhantes às que a imagem seguinte mostra nas mãos de outros dois rapazes, aparentemente portugueses, numa manipulação igualmente furiosa até ao clamor de vitória destes últimos, e os esgares de derrota do primeiro par. Se alguém lhes perguntasse, os jovens desse anúncio televisivo talvez dissessem “Estivemos a jogar futebol!”. Na minha juventude – nesse jurássico sem internet nem telemóveis – esta expressão designava porém um esforço do corpo todo, em arrancadas nas diversas direções, atentos aos movimentos da bola e dos outros rapazes num espaço envolvente, em choque com as forças deles, com a dureza da bola, do chão… das caneladas. Que diferença da vivência de se estar sentado na beira de um sofá, raspando quando muito nos cotovelos de alguém ao lado, ambos distraídos de tudo menos do retângulo lumin…