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Mensagens

Inter- e transdisciplinaridades - Sim, mas...

No Número anterior desta revista assumi (ingenuamente) de dois conceituados autores o elogio do diálogo entre ciências e tecnologias, e entre elas e as demais áreas da vida social. Nesse texto também lembrei, a outro propósito, o adágio o diabo está nos detalhes. Ocorre-me agora, porém, que será prudente aplicar este último igualmente àquele elogio, ou melhor, ao modo, e aos limites, da sua aplicação. Para nos acautelarmos, de um lado, com aculturações como a que há quase duas décadas deu azo a um dos episódios não só mais divertido, mas também mais significativo da história do pensamento contemporâneo: o caso Sokal.

Da parolice nas ciências sociais e nas humanidades...

Tem o nome do físico norte-americano que, em 1996, submeteu à revista Social Text o artigo “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”. O gongorismo do título não foi acidental, ou muito menos fruto de presunção intelectual. Ao contrário, visava apresentar logo à part…

Um Nobel de medicina que nem medicina sabe

A talho de foice das declarações de Sir Tim Hunt no mês passado – sobre um desejável apartheid de género nos laboratórios, para se corrigir a “dirupção científica” causada pelas paixões entre homens e mulheres, mais os choros delas, diz ele, quando ouvem críticas – julgo vir a lapidar frase de Abel Salazar: “o médico que só sabe medicina nem medicina sabe”. Uma vez porém que o Nobel e o grau de Cavaleiro lhe foram atribuídos não por uma sua inovação no tratamento de algumas doenças, mas pelos resultados da sua investigação no âmbito da fisiologia, deveremos ajustar o juízo numa paráfrase. Como talvez esta: o investigador que do processo só sabe os resultados nem os resultados sabe.

Em defesa de Sir Tim

Confesso que sinto por Sir Tim a simpatia por quem rompe com a ditadura do social e culturalmente correto. Mas a tentativa (!) de objetividade obriga-me a nem por isso deixar de julgar que errou. Por defeito, não por excesso. E no sentido da resposta a dar ao problema, não no reconheciment…

A cultura portuguesa e a cultura das ciências

Num dos mais célebres textos da nossa história das ideias, apresentado no Casino Lisbonense a 27 de maio de 1871, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, Antero de Quental reconheceu ter-se tornado crónica uma decadência socioeconómica de Portugal em relação aos seus pares europeus. Tendo argumentado que esse fenómeno radicaria na cultura moderna portuguesa. E que, nesta, seriam três as “causas” da nossa decadência, Das quais pelo menos as duas primeiras partilham uma desvalorização da racionalidade crítica – e assim do espírito das ciências modernas. Em vésperas do dia de Portugal, aqui regresso ao diálogo com esse meu ilustre conterrâneo, para acrescentar um comentário em prol do reforço da cultura própria a essas ciências no seio da cultura com que nos definimos coletivamente. Regresso assim também a um dos livros que, em troca, restaram dos mais “ignorados” da nossa história editorial recente (como escreveu, creio que na única menção que por um momento …

Login, logo existo?

A câmara orienta-se de um corredor para o quarto onde dois rapazes orientais estão embrenhados em frente de um televisor, manipulando freneticamente os comandos de pequenas consolas. Semelhantes às que a imagem seguinte mostra nas mãos de outros dois rapazes, aparentemente portugueses, numa manipulação igualmente furiosa até ao clamor de vitória destes últimos, e os esgares de derrota do primeiro par. Se alguém lhes perguntasse, os jovens desse anúncio televisivo talvez dissessem “Estivemos a jogar futebol!”. Na minha juventude – nesse jurássico sem internet nem telemóveis – esta expressão designava porém um esforço do corpo todo, em arrancadas nas diversas direções, atentos aos movimentos da bola e dos outros rapazes num espaço envolvente, em choque com as forças deles, com a dureza da bola, do chão… das caneladas. Que diferença da vivência de se estar sentado na beira de um sofá, raspando quando muito nos cotovelos de alguém ao lado, ambos distraídos de tudo menos do retângulo lumin…

Industrialização e "conjuntos sociotecnológicos" - O caso dos laticínios açorianos

As verbas do novo Quadro Comunitário de Apoio, e do programa do BCE para compra de dívida aos bancos europeus, estão supostamente destinadas à produção de bens e de serviços transacionáveis, e em particular a uma reindustrialização de Portugal e da Europa. Urge porém esclarecer se bastam a promulgação de regulamentos e a disponibilidade financeira, mais a capacidade tecnológica igualmente disponível, para que tais processos industriais e produtivos se cumpram. Ou se, ao contrário, para este cumprimento teremos de cuidar ainda de outras condições. E neste caso, quais. A primeira dessas teses – que aqui discuti há perto de um ano – é a “de um determinismo tecnológico – a tecnologia seria a variável independente de uma função de alterações sociais”. A segunda convoca o que Wiebe Bijker (Of Bicycles, Bakelites, and Bulbs: Toward a Theory of Sociotechnical Change) chamou “conjuntos sociotecnológicos”. A favor dos quais julgo colocar-se o caso da modernizaçãodos laticínios açorianos, em part…

"Aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo" (J. Santayana y Borrás)

Em vez de se aproveitar o 1º edifício da 1ª fábrica moderna em S. Miguel, da mais importante fileira
económica dos Açores, para um museu da economia, para uma escola técnica de produção leiteira e laticínios... além da preservação de património arquitectónico único - de modo que melhor se escolha que momentos do passado valerá a pena repetir, evitando uma "condenação" também aos erros antigos -

este é, há muitos anos e não se sabe por quantos mais, o destino que se deu a esse terreno no extremo oriental de Ponta Delgada