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Mensagens

A cultura portuguesa e a cultura das ciências

Num dos mais célebres textos da nossa história das ideias, apresentado no Casino Lisbonense a 27 de maio de 1871, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, Antero de Quental reconheceu ter-se tornado crónica uma decadência socioeconómica de Portugal em relação aos seus pares europeus. Tendo argumentado que esse fenómeno radicaria na cultura moderna portuguesa. E que, nesta, seriam três as “causas” da nossa decadência, Das quais pelo menos as duas primeiras partilham uma desvalorização da racionalidade crítica – e assim do espírito das ciências modernas. Em vésperas do dia de Portugal, aqui regresso ao diálogo com esse meu ilustre conterrâneo, para acrescentar um comentário em prol do reforço da cultura própria a essas ciências no seio da cultura com que nos definimos coletivamente. Regresso assim também a um dos livros que, em troca, restaram dos mais “ignorados” da nossa história editorial recente (como escreveu, creio que na única menção que por um momento …

Login, logo existo?

A câmara orienta-se de um corredor para o quarto onde dois rapazes orientais estão embrenhados em frente de um televisor, manipulando freneticamente os comandos de pequenas consolas. Semelhantes às que a imagem seguinte mostra nas mãos de outros dois rapazes, aparentemente portugueses, numa manipulação igualmente furiosa até ao clamor de vitória destes últimos, e os esgares de derrota do primeiro par. Se alguém lhes perguntasse, os jovens desse anúncio televisivo talvez dissessem “Estivemos a jogar futebol!”. Na minha juventude – nesse jurássico sem internet nem telemóveis – esta expressão designava porém um esforço do corpo todo, em arrancadas nas diversas direções, atentos aos movimentos da bola e dos outros rapazes num espaço envolvente, em choque com as forças deles, com a dureza da bola, do chão… das caneladas. Que diferença da vivência de se estar sentado na beira de um sofá, raspando quando muito nos cotovelos de alguém ao lado, ambos distraídos de tudo menos do retângulo lumin…

Industrialização e "conjuntos sociotecnológicos" - O caso dos laticínios açorianos

As verbas do novo Quadro Comunitário de Apoio, e do programa do BCE para compra de dívida aos bancos europeus, estão supostamente destinadas à produção de bens e de serviços transacionáveis, e em particular a uma reindustrialização de Portugal e da Europa. Urge porém esclarecer se bastam a promulgação de regulamentos e a disponibilidade financeira, mais a capacidade tecnológica igualmente disponível, para que tais processos industriais e produtivos se cumpram. Ou se, ao contrário, para este cumprimento teremos de cuidar ainda de outras condições. E neste caso, quais. A primeira dessas teses – que aqui discuti há perto de um ano – é a “de um determinismo tecnológico – a tecnologia seria a variável independente de uma função de alterações sociais”. A segunda convoca o que Wiebe Bijker (Of Bicycles, Bakelites, and Bulbs: Toward a Theory of Sociotechnical Change) chamou “conjuntos sociotecnológicos”. A favor dos quais julgo colocar-se o caso da modernizaçãodos laticínios açorianos, em part…

"Aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo" (J. Santayana y Borrás)

Em vez de se aproveitar o 1º edifício da 1ª fábrica moderna em S. Miguel, da mais importante fileira
económica dos Açores, para um museu da economia, para uma escola técnica de produção leiteira e laticínios... além da preservação de património arquitectónico único - de modo que melhor se escolha que momentos do passado valerá a pena repetir, evitando uma "condenação" também aos erros antigos -

este é, há muitos anos e não se sabe por quantos mais, o destino que se deu a esse terreno no extremo oriental de Ponta Delgada

A modernização da indústria de laticínios em S. Miguel – 1937-1946

1.Refletindo sobre a exposição de Victor Machado de Faria e Maia[i], à data intendente de pecuária do distrito de Ponta Delgada, poderemos isolar o período entre 1937 – reunião de agosto na Junta Geral do distrito, com a proposta de uma modalidade de construção e exploração de uma moderna fábrica de laticínios (v. abaixo) – e 1946 – apetrechamento final dessa fábrica, começada a construir em 1942 mas noutra modalidade que não a inicialmente prevista e desejada, e “ultimato” aos restantes industriais locais pela Direção Geral dos Serviços Pecuários – como os anos decisivos não só para o crescimento quantitativo da fileira do leite em S. Miguel, até rapidamente assumir a primazia socioeconómica, como também para o modo como este processo se tornou possível. O parágrafo seguinte (2) apresenta resumidamente essa exposição do intendente de pecuária, para na sua base analisarmos nos parágrafos consequentes as movimentações no setor em S. Miguel ao longo desse período (3.1, 3.2), e reconhecer…

Em 2015 continuo a supor que poderíamos ter pedido baunilha...

Ao longo do ano há pouco terminado, o Edge.org colocou à discussão a questão What scientific idea is ready for retirement? Jerry Coyne apontou como resposta a ideia de livre-arbítrio:

Não, não poderíamos tê-la pedido

“When pressed, nearly all scientists and most philosophers admit this. Determinism and materialism, they agree, win the day. But they're remarkably quiet about it. Instead of spreading the important scientific message that our behaviors are the deterministic results of a physical process, they'd rather invent new "compatibilist" versions of free will: versions that comport with determinism. "Well, when we order strawberry ice cream we reallycouldn'thave ordered vanilla", they say, "but westill have free will in another sense. And it's the only sense that's important."”             Duvido que o sentido compatibilista de “livre-arbítrio” seja o único que é importante… ou sequer que importe significativamente. Depois, no meu esc…