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A mostrar mensagens com a etiqueta Ciência e tecnologia e sociedade (CTS)

“A comunidade científica em tempos de disputa”

Vacinação ou não das crianças, e construção ou não de uma incineradora em S. Miguel – A comparação entre estas atuais disputas sócio-tecno-científicas desde logo nos faculta assinalar os (já!) 20 anos daquela que talvez seja a mais importante ação de promoção da cultura científica até hoje ocorrida em Portugal. Que mais não fosse por isto, valeria a pena abordar aqui aquelas disputas. Refiro-me ao ciclo de conferências “A ciência tal qual se faz”, que decorreu entre outubro de 1996 e janeiro de 1998 na Fundação Calouste Gulbenkian, em mais uma iniciativa do ministro José Mariano Gago, sob coordenação do filósofo Fernando Gil. E, concretamente, à comunicação que o sociólogo da ciência Harry M. Collins ali apresentou, sob o título que importei para esta crónica. Mas aquela comparação, além de comemorar a efeméride, creio que nos sugerirá ainda um desenvolvimento do esquema de Collins. O qual – pelo menos até 2010 – bem se aplicou à disputa entre os defensores e os oponentes da vacinação in…

Inovação, crescimento, e sociedade açoriana

As teorias do crescimento económico, depois de lhe reconhecerem como fatores o trabalho e o capital, também reconheceram como tais, de um lado, as inovações tecnocientíficas (R. Solow…), de gestão… e do outro, as instituições (ex. patentes, direitos de autor) que devem ser elas próprias inovadas de forma a promoverem e protegerem aquela outra inovação em geral (D. North…). No contexto açoriano, este jornal – por cujo aniversário hoje estamos todos (mas primeiro os seus responsáveis e profissionais) de parabéns! – diversas vezes me abriu as suas páginas para abordar inovações tecnológicas, até científicas, e eventualmente institucionais, algumas das quais relevantíssimas para a economia e a sociedade desta ilha, e do arquipélago, outras que poderão ter tido aqui, ou talvez possam a vir ter, algum impacto positivo. Foi o caso de “A modernização da indústria de laticínios em S. Miguel – 1937-1946” – se não me falha a memória, precisamente neste suplemento pelo aniversário de há dois anos (…

Tecnocracia, retórica, e o caso das duas biólogas

Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais, etc., etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha.
As ciências e as tecnologias tal qual são feitas
Com efeito, imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio, e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Obviamente que não! O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse! – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se ao lo…

Da incineradora (e outras obras) – Duas formas válidas de argumentar disjuntivamente

Suponhamos que um pequeno conjunto de pessoas, mais ou menos conhecido, decide – por motivos que ficam à imaginação do leitor – convencer a restante população desta ilha que será bom construir aqui, digamos, uma incineradora de resíduos sólidos urbanos (poderíamos exemplificar com outros empreendimentos com impacto público). E que, para o efeito, um dos elementos desse conjunto vem a terreiro, digamos, numa sessão de esclarecimento na Lagoa, com argumentos como o seguinte:

Por um "silogismo disjuntivo"

Ou bem que construímos a incineradora (A) ou bem que não a construímos (B). Se a construirmos (A), então reduzimos o volume atual desses resíduos (A1), criamos dúzia e meia de postos de trabalho (A2)… e, last but not least, trazemos para a região (enfim, para algumas contas bancárias geridas por pessoas daquele conjunto, depois logo se vê) umas dezenas de milhões de euros da UE (An). Portanto – aceitando como evidente a bondade pelo menos de alguma consequência desta série – dev…

Incineradora, participação pública, e hipótese de uma "conferência de consenso"

No último meio século, os estudos sobre tudo o que intervém no desenvolvimento e implementação das tecnologias derrubaram a anterior crença ingénua de que estas seriam decididas por razões estritamente técnicas. De modo que a definição clássica de tecnologia – como mera aplicação de conhecimentos científicos, que por sua vez seriam neutros a fatores sociais, económicos… – foi substituída por definições mais complexas e abrangentes, como a que tentei exemplificar nestas páginas em “A tecnologia e a ciência – um caso açoriano” (e noutro textoali referido sobre o eng. Edgar Cardoso). Voltaremos aqui a estas denúncias. Das quais entretanto, se se opta por um regime democrático, decorre a exigência de participação pública nas decisões de implementação de certas tecnologias. Muito bem exemplificada pelo processo em curso nesta ilha sobre a construção de uma central de incineração de resíduos sólidos urbanos. Como Luís Anselmo bem apontou neste jornal em “Sinais da sociedade civil!” (15/03/20…

"Não há milagres" - o caso Afonso Chaves

Em tempo de “pós-verdade”, de “factos alternativos”, todas as “narrativas” se equivalem. Assim por exemplo, de um lado, temos o papa Calisto III a decretar, em 1456, que a oração Pai-nosso incluísse a expressão: “livrai-nos, Senhor, do mal, do turco e do cometa”. E, à cautela, excomungou este último como instrumento do diabo. Numa narrativa que assume o pressuposto – de origem pagã! – de uma causalidade dos astros sobre as disposições humanas. E que estabelece ingenuamente (i.e. sem fundamentação crítica) relações entre fenómenos por uma sua mera contiguidade, como, temporalmente, a simultaneidade entre o cerco de Maomé II a Belgrado após conquistar Constantinopla e uma bolinha brilhante deixando atrás de si um risco luminoso no céu.

Um exemplo, em S. Miguel, contra a "pós-verdade"!

De outro lado, na passagem do séc. XVII para o séc. XVIII, temos Edmond Halley a atender antes ao registo rigoroso, desde 467 a.C., da repetição a cada 75 anos de um fenómeno celeste em tudo semelhan…

A “indução pessimista” – o caso Mont’Alverne de Sequeira

Na última semana, o porta-voz da nova administração do país com mais impacto no mundo, contra fotografias, números de bilhetes de metro… apresentou “factos alternativos” à medida dos desejos deste novo presidente e sua trupe. Não haveria melhor ilustração da “pós-verdade” com que fechámos o ano passado. No entanto… será que mesmo o conhecimento científico – ex. sobre o aquecimento global – nos aproxima de uma realidade? Ou deixar-nos-á sempre no seio das ideias que vamos construindo? – ex. teorias climatéricas inventadas pelos chineses unicamente por conveniência deles.

A história de um tema que também foi tratado nas Conferências do Ateneu

Uma das vias de abordagem a essa questão da natureza do conhecimento científico é a reflexão sobre a história das ideias científicas. Tomemos aqui um caso que nos seja próximo. Dificilmente encontraremos algum que no-lo seja mais do que o de “A duração da vida humana” – pelo muito que isto por certo dirá a cada um de nós; e por ter sido o tema (e títu…