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Há mais coisas na tecnologia, Heidegger, Ellul… do que são sonhadas nas vossas filosofias

A forma da crítica de Hamlet a Horácio julgo assentar aqui como uma luva[1]. Mas com a intenção inversa, pois, se o príncipe da Dinamarca lamentou a excessiva racionalidade do amigo, inclino-me a criticar uma racionalidade insuficiente daquele (referidos no título) filósofo alemão, daquele teólogo, filósofo e sociólogo francês, etc., quando se dispuseram a falar sobre tecnologia sem, aparentemente, terem analisado os fenómenos que costumamos designar com essa palavra.
Procurarei esboçar esta crítica com base num caso: o da tecnologia de ordenha.
(Pergunto-me pelo acerto de trazer um tema destes a uma plataforma eminentemente sobre cinema, música, grande literatura… Ou se calhar é esta última que nos confronta com as coisas da vida. Nem que seja de alguma forma enviesada como, depois de ler as páginas acima mencionadas, porventura ter eu sonhado numa destas noites de verão com a flor mágica de Oberon, que nos faz apaixonarmo-nos pelo que virmos em seguida[2], sonhando depois com uma sala de ordenha e, nesse enlevo, ultrapassar aqui até o dobro do tamanho que me impus nestas crónicas! E são tantas as coisas equiparáveis que nos esperam, uma vez despertados, nestes vagarosos dias de férias, por tais grandes leituras).
Um “saber só de experiências feito”…
Prolegómeno: qualquer técnica de ordenha tem de se ajustar ao processo fisiológico que, no caso do gado bovino, começa com a produção do leite pelas células epiteliais dos alvéolos glandulares no úbere, aproveitando elementos no sangue que passa por esse último. Dos alvéolos, o leite é impelido para a cisterna (bacinete) logo acima do canal do teto, o qual contém uma segunda cisterna cujo orifício para o exterior é fechado por fibras musculares (esfíncter). O úbere é composto por quatro destes sistemas orgânicos autónomos, cada um organizado desde uma artéria no topo até um teto em baixo. Se o leite acumulado no bacinete não for extraído, os seus constituintes serão absorvidos, ou alterados, pelo organismo do animal.
Essa extração faz-se pelo aumento artificial da diferença positiva entre a pressão do leite no úbere, e a pressão atmosférica no exterior do esfíncter, superando-se a resistência deste no orifício do teto. O que se pode obter quer aumentando a primeira pressão, quer diminuindo a segunda pela criação de uma depressão ou vácuo.
Este último método é implementado naturalmente pela sucção dos vitelos. Ao passo que o outro princípio operacional tem sido implementado manualmente desde talvez 5000 anos a.C. – pela técnica de apertar a base do teto (entre as bases do indicador e do polegar) para que o leite não reflua deste para o bacinete, pressionando-se em seguida (com os outros três dedos e a palma da mão) a cisterna do teto em direção ao orifício externo. A primeira utilização de instrumentos facilitadores da ordenha, no entanto, desviou esta última desses dois princípios: desde 400 a.C. os egípcios terão usado, como cateteres, palhas de trigo introduzidas nos canais dos tetos, forçando os esfíncteres e depois deixando o leite fluir por gravidade.
Mas só no séc. XIX, e em regiões que participavam da Revolução Industrial, a tecnologia de ordenha foi enfim impulsionada. Inicialmente ainda segundo o princípio operacional dos antigos cateteres, com a patente do inglês William Blurton, em 1836, de tubos metálicos ligados a um sifão que transportava o leite até um balde. Desenvolvimentos desta tecnologia foram comercializados pelo menos até 1916.
No entanto ela era violenta para os esfíncteres, e requeria uma esterilização perfeita dos cateteres – o que geralmente não seria feito – sob pena de potenciar infeções mamárias.
Fosse igualmente por sugestão física, já não da gravidade mas da dinâmica de fluidos (decisiva na máquina a vapor), fosse antes e tão-somente por sugestão direta do processo natural de mamar – qualquer tratador de gado terá experimentado nos dedos como os vitelos o fazem – em 1851 os britânicos Hodges e Brockenden terão sido os primeiros a construir uma máquina de ordenha por vácuo. Não imitando completamente no entanto a sucção natural do leite, uma vez que o teto não era descongestionado como pelos movimentos de cabeça e língua dos vitelos.
Nos EUA, em 1860, L.O. Colvin patenteou a primeira máquina de ordenha por vácuo a ser comercializada. Composta por uma câmara colocada diretamente entre os bocais de ordenha, de onde aspirava o leite com a distensão de um diafragma acionado por duas manivelas, e o balde coletor, onde o leite era despejado pela contração do diafragma nessa câmara. Em 1878, no mesmo país, Anna Baldwin patenteou uma máquina cuja bomba de vácuo, idêntica às usadas para retirar água de poços, era ligada aos bocais de ordenha por um tubo, sendo operada manualmente. Numa das variantes da máquina de William Mehring, em 1893, a bomba podia ser acionada com os pés mediante pedais. Entretanto, em França, Louis Grasset tinha patenteado em 1863 uma destas máquinas cujos bocais eram constituídos por funis de borracha, aconselhando o produtor – num explícito plano de uso já atento aos problemas infeciosos desta tecnologia – que esses componentes fossem lavados por imersão.
Apesar de inconvenientes como a dor causada nos animais, máquinas portáteis de uso individualizado, com bombas de vácuo acionadas pelo operador, continuam a ser (ou ainda recentemente eram) utilizadas em regiões pobres do mundo.
Em 1889, o picheleiro escocês William Murchland aplicou esse princípio operacional do vácuo em instalações que permitiam a ordenha simultânea de vários animais, prefigurando as atuais salas de ordenha. A sua bomba era ainda acionada manualmente, mas o nível de vácuo era controlado por uma coluna de água, mantendo-se assim constante a depressão em volta dos tetos. Ou seja, afastando-se da variante natural deste princípio operacional – a sucção cíclica dos vitelos – esta tecnologia implementava uma outra variante dele  vácuo contínuo  para aumentar a diferença entre as pressões interna e externa ao teto também por criação duma depressão externa.
Dois anos depois, Stewart Nicholson e John Gray desenharam uma instalação de ordenha cuja bomba de vácuo era acionada por uma máquina a vapor, substituindo e ultrapassando a energia humana.
As longas tubagens do vácuo nessas instalações geraram os primeiros problemas de flutuação e portanto de controlo deste último, tendo suscitado objeções pelos efeitos na saúde mamária dos bovinos – os tetos ficavam congestionados, e o vácuo por vezes penetrava nos seus canais, provocando hemorragias. Mas também facultava a obtenção de leite com boa qualidade.
Com base nessa experiência, em 1895 o veterinário Alexander Shields inventou um dispositivo que designou “pulsador”, constituído por uma válvula, operada mecanicamente, que de forma intermitente admitia ar na linha de vácuo para os bocais de ordenha, alternando assim o vácuo com a pressão atmosférica. Essa variação cíclica era transmitida a tetinas de borracha, que se contraíam e retraíam em volta dos tetos, esboçando assim também uma sua massagem que diminuía o respetivo congestionamento.
Entretanto, para que o leite fluísse pelo tubo desde a tetina até um balde coletor, outra linha transmitia o vácuo a este último, com uma válvula de não-retorno na sua tampa de modo que o vácuo se mantivesse aí constante.
Com essa ciclicidade a tecnologia aproximava-se da extração natural do leite pelos vitelos. Mas nem por isso foi imediatamente bem-sucedida. Em 1897, a Highland and Agriculture Society promoveu um concurso entre três máquinas de Murchland e quatro da empresa Thistle Mechanical Milking Machine Co., fundada por Shields. Tendo as primeiras vencido o prémio por facultarem leite com melhor qualidade, ao passo que as segundas lhe deram mau sabor, mesmo no caso daquela cujo design permitia a lavagem a vapor das tubagens. Os juízes consideraram também a maior simplicidade de construção das máquinas de Murchland, e o facto das máquinas Shields custarem o quíntuplo das anteriores. Esta empresa não teve assim sucesso.
Mas um dos seus diretores, Robert Kennedy, associou-se ao eng. William Lawrence e, ainda nesse ano, os dois produziram uma máquina que mantinha o princípio da pulsação, todavia obtida agora por uma pequena máquina de vácuo colocada na tampa do coletor de leite. As máquinas de Lawrence-Kennedy foram comparadas às de Murchland num concurso da Royal Agricultural Society of England, em 1900, sendo distinguidas segundo o parâmetro da higiene, pese embora as máquinas de Murchland continuassem a facultar uma ordenha mais rápida e mais completa (sem deixar leite nos úberes).
E durante algum tempo as duas variantes deste princípio operacional – vácuo contínuo vs. vácuo intermitente – mantiveram-se concorrenciais no mercado. Este caso ilustra bem como a evolução tecnológica pode não ser linear, mesmo depois de se testarem os primeiros modelos do design que, ulteriormente, se virá a estabilizar.
Em paralelo a essa evolução, o terceiro grande princípio operacional acima referido – pressão mecânica ao longo do teto – vinha sendo implementado desde 1878 em máquinas com designs diversos, designadas “ordenhadores” (ing. lactators). Como o ordenhador de Crees, patenteado em Inglaterra em 1881, cujo mecanismo fazia dois rolos descerem de cada lado do teto comprimindo a cisterna deste até ao orifício do canal, para se afastarem do teto no movimento de retorno à sua base, e repetirem o movimento anterior já com a cisterna do teto novamente cheia. Ou o complexo ordenhador patenteado por Beyer e Rohdes nos EUA em 1887, funcionando (se bem percebo o seu diagrama) por pressão de placas nos dois lados do teto, num movimento diagonal de uma destas de modo que a pressão ocorresse de cima para baixo. Ou ainda o ordenhador Alfa Dalen, de 1908, única máquina com este princípio operacional comercializada pela Alfa Laval (uma das empresas mundialmente mais relevantes no setor).
Esta pista evolutiva – aquela em que a tecnologia mais se constituía como um prolongamento da ação do homem – acabou no entanto por ser abandonada, visto apresentar problemas desde a difícil higiene de dispositivos mecanicamente complexos, até a dificuldade das peças serem ajustadas a particularidades anatómicas dos animais, como a diferença de tamanho dos tetos.
Em contraponto a esses problemas da ordenha por pressão mecânica, bem como aos das máquinas de vácuo constante, aos das bombas de vácuo manuais (ou a pedais) sem pulsação regular, e aos dos dispositivos com cateteres, todos então em concorrência no mercado, em 1903 o lavrador australiano Alexander Gillies associou o sistema Lawrence-Kennedy a um bocal de ordenha com duas câmaras – um modelo que já havia sido tentado na Escócia e nos EUA.
O vácuo era aí transmitido ao espaço anular entre as duas câmaras do bocal – concretamente, entre o recipiente externo e, dentro deste, uma ventosa de borracha (qual luva), a qual ficaria em contacto com o teto. Em cada fase de vácuo, a ventosa era distendida (sugada) para as paredes internas do copo que a continha, aumentando o espaço em volta do teto e assim provocando aí uma depressão atmosférica, com a consequente abertura do canal desse último. Em cada fase de pressão atmosférica normal no espaço anular, a borracha ajustava-se ao teto, anulando a depressão, e mesmo massajando-o de forma a evitar o seu congestionamento, em alternância à sucção tal como no mamar dos vitelos, enquanto o teto era novamente cheio dada a pressão interna no bacinete.
Essa máquina de Lawrence-Kennedy-Gillies foi a primeira a incorporar todos os tipos de especificações ou componentes que caracterizam as atuais máquinas de ordenha. (A algum eventual leitor que não apenas ainda me esteja a acompanhar (se calhar sonhou igualmente com a flor de Oberon e depois com uma ordenha!), mas que até lamente terminar aqui esse escorço histórico, sobre a história desta fileira produtiva agora no nosso país sugiro este estudo que a Confraria Nacional do Leite em boa hora promoveu e disponibilizou).
…Para uma filosofia que se não limite a jogos de associação de palavras
Sobre como se processe então isso a que chamamos “tecnologia” ou “técnica” (deixemos agora a questão sobre se estes conceitos se distinguem), a história da estabilização da ordenha mecanizada ilustra que:
i)       A tecnologia pode não começar simples e diretamente em resposta a alguma necessidade humana. Dependerá também de condições históricas, nomeadamente demográficas e culturais.
ii)     Uma vez encetada essa resposta, a evolução tecnológica pode divergir segundo diversos princípios operacionais concorrentes, tanto imitando diretamente processos naturais de obtenção do efeito pretendido, quanto imitando outros processos técnicos de intervenção sobre a natureza que obtenham aquele efeito, quanto mesmo forçando a natureza.
iii)   Esta última orientação não é de forma alguma exclusiva da tecnologia moderna.
iv)    A avaliação desses modelos concorrentes será feita segundo parâmetros estabelecidos no seio dos grupos sociais relevantes – produtores da tecnologia, utilizadores, responsáveis institucionais… – nomeadamente a qualidade do produto (segundo os valores assumidos, e a capacidade científico-técnica de a aferir), a complexidade da estrutura física do modelo técnico, os custos da sua produção, utilização e manutenção, etc. Cuja hierarquia será estabelecida por negociação, ou segundo relações de força no interior e entre esses grupos.
v)      O que, segundo este caso de estudo, não significa porém que tanto as soluções técnicas quanto a respetiva avaliação sejam absolutamente construídas segundo tais relações sociais. Se assim fosse, não se justificaria que os juízes da Royal Agricultural Society of England lamentassem, no concurso aberto em 1878 para a melhor máquina de ordenha, que nenhum invento tivesse correspondido satisfatoriamente – “The want of such a machine is the one missing link in dairy management” (Journal R.A.S.E., 1879). Poupando-se a qualquer “[great] regret” (ibid.), poderiam simplesmente estipular, porventura em conjunção com outros grupos relevantes, que uma qualquer solução técnica já teria constituído esse link. Alguma resistência, pois, travaria os desejos de todos esses intervenientes na produção de leite.
Apontando duas pistas de reflexão assim balizadas, de um lado não poderemos aceitar, sem reserva nem dispensa de confirmação mais desenvolvida, a tese “romântica” de Heidegger, e de outros autores da abordagem dita “humanista” à tecnologia, de que a versão moderna desta se opõe à antiga por essa outra respeitar a natureza, ao passo que a atual a domestica e a força. Admiti aqui que talvez se encontrem sugestões frutuosas em A Questão da Técnica, e antes até em alguns parágrafos de Ser e Tempo. Mas a serem atendidas sob esta suspeita de que qualquer seu aproveitamento válido poderá ter que corrigir o desvio introduzido por tamanha “romantização”.
De outro lado, também aqui reconheci a possibilidade da tecnologia se investir de algum determinismo sobre a sociedade humana – politicamente, nos casos mencionados por L. Winner. Segundo outro autor que se costuma reportar àquela abordagem “humanista”, Jacques Ellul (La Technique ou l’Enjeu du Siècle, 1954), esse determinismo tornou-se particularmente potente, ou inescapável. No entanto, o hiato temporal entre a ordenha no Antigo Egipto e a eclosão dos inventos referidos no séc. XIX, a ramificação destes e o modo como as decisões de design técnico foram tomadas nestes casos, e os primeiros (e reduzidos!) condicionamentos do maneio do gado pela atual ética animal, julgo introduzirem uma séria reserva, e exigirem ulterior confirmação, também quanto a essas teses deterministas – as quais dificilmente quer explicarão os dois primeiros factos, quer se sustentarão face ao terceiro.
Em qualquer caso – e para terminarmos com um contemporâneo do dramaturgo inglês com quem começámos, mas mais próximo nosso – é precisamente para que nenhum Velho do Restelo venha a ter razão sobre tais empreendimentos reflexivos que importa enquadrá-los, sempre (!), “c’um saber só de experiências feito”.



[1] “There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of your philosophy”.
[2] Como a rainha Titânia, que assim se apaixonou por um burro – in Sonho de uma Noite de Verão.


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