Avançar para o conteúdo principal

Da modernização da indústria açoriana de laticínios, e de um seu "capitão da indústria"

Eduardo Soares de Albergaria
O texto seguinte constitui a maior parte dos "Apontamentos sobre Eduardo Soares de
Albergaria pelo seu filho Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, presentemente com 80 anos", manuscrito do arquivo familiar dos descendentes do Eng. Jacinto Soares de Albergaria.
Foram aqui selecionados os "apontamentos" que se referem à modernização da indústria de laticínios em S. Miguel; bem como às faculdades e comportamentos de Eduardo Soares de Albergaria significativos para questões como a de como efetivamente se faz a tecnologia e respetivo investimento (em meios distantes dos grandes centros políticos, económicos...); a da determinação da tecnologia sobre a sociedade, ou a inversa, ou de alguma forma ambas; as caraterísticas pessoais dos empreendedores; até a especificidade do conhecimento tecnológico que se não reduz a aplicação do conhecimento científico...
Não foram incluídos "apontamentos" de cariz mais pessoal, ou relativos à intimidade familiar.
As passagens [entre parênteses retos] constituem acrescentos articuladores, ou pequenas retificações da expressão escrita.




«Lembro-me das histórias e conversas que ouvia sobre o meu pai quando jovem, antes de eu existir.
(…)
Contava, várias vezes, como o avô Vasconcelos [em cuja casa cresceu, por morte da mãe, ao cuidado de uma tia] o ensinava a andar nos navios à vela - com passadas de pernas abertas, para se equilibrar no veleiro que balançava no mar alto. Nessas viagens a Lisboa o meu pai devia ter uns cinco ou seis anos. Descrevia também a estadia no Hotel Borges, as compras no Ramiro Leão em frente ao hotel e as viagens ao Norte de Portugal para Sabrosa e Pedras Salgadas, em carro de cavalos (carrão).
(…)
Talvez com 17-18 anos embarca clandestino num navio à vela inglês. (…).
Essa vontade de se libertar e conhecer Mundo fica bem patente quando, com cerca de 20 anos, vai para Bruxelas durante, aproximadamente, 2 anos aprender piano e línguas. Conta que, em Paris, assistiu ao último enforcamento público de um condenado, em França. Volta para São Miguel mas, algum tempo depois, segue para a África. Desembarca no Congo Belga em Matadi, suponho eu, e vai para Leopoldville onde arranja emprego numa companhia belga. Por fim, volta para São Miguel, faz serviço militar e depois trabalha na arroteia de uma propriedade do avô Vasconcelos na estrada velha das Sete Cidades. Nessa altura devia ter uns 25-26 anos.
(…)
Isto é por volta de 1929-30. O meu pai, de vez em quando, comentava as notícias de França e da Argentina, que nessa altura estava a desenvolver-se e a receber imigrantes, pondo, até mesmo, a hipótese de imigrar para lá. (…). Agora penso que, no fundo, o Pai não se satisfazia com a vida pacata e sem perspectivas que levava, ansiava por horizontes mais vastos.
Nessa altura o Pai tinha uma pequena lavoura nas Vieiras e fazia até 140 pipas por ano de vinho, tendo inventado uma máquina movida com um motor eléctrico para retirar as uvas dos bagaços. Montou uma adega e fez dois enormes depósitos de cimento, coisa que na época ainda não se usava, para a fermentação das uvas. Tinha também um alambique de cobre para fazer aguardente do bagaço, e assim melhorar a rentabilidade da exploração.
Num ano em que o vinho se perdeu, apesar da junção de metabissulfito e outros tratamentos, montou uma vinagreira composta de duas pipas, com aparas de madeira numa das metades e que giravam muito lentamente sobre o eixo longitudinal. Estas pipas foram montadas no “Castelo Pequeno” do Tanque, nas [quinta das] Laranjeiras. É claro que esse movimento contínuo era accionado por um motor eléctrico com as necessárias desmultiplicações, calculadas por ele e forjadas na “Oficina da Calheta”.
Ele [lia] livros que vinham de França sobre agricultura e seus aproveitamentos industriais.
Em 1931-1932 construiu o Torreão, nas Laranjeiras, para fazer álcool etílico, por destilação fraccionada, em duas colunas de panelas de ferro, a partir de batata doce e de milho. Havia um caldeirão enorme de ferro com uma serpentina interior, por onde passava vapor de água, que cozia a batata e o milho até ficar numa papa espessa. Essa papa era, depois, vazada em duas eiras de cimento, construídas ao lado da Adega Velha, para arrefecer a dita papa e fermentá-la. Todas estas iniciativas e montagens, não só representavam avultados gastos de dinheiro, como uma enorme vontade de sair do “marasmo” económico e pobreza que então se vivia na Ilha. Para tentar vender o vinho-de-cheiro que produzia, o meu pai montou uma loja numa casa que tinha na Doca, que estava alugada à Marinha e foi depois arrasada para obras, onde (muitos anos mais tarde) foram feitas as exposições artesanais e de maquinaria nos dias do Senhor Santo Cristo.
Quanto ao investimento na produção de álcool etílico foi uma pura perda, porque 2 ou 3 anos depois saiu uma lei que proibia a sua venda no Continente; lei essa feita para proteger as destilarias do Continente que usavam o vinho como matéria-prima. A proibição da venda de álcool no Continente arrastou para a falência a Fábrica de Álcool da Lagoa e a Fábrica, cujas paredes ainda existem, na Ribeira Grande.
Para dar uma ideia do clima económico ao tempo, basta pensar que a terra pouco valia porque o consumo interno era pequeníssimo e as suas produções (agrícolas ou industrializadas), não encontravam consumo.
É nessa altura que o avô Eugénio [da Câmara, sogro de E.S.A.], entre outros, montou uma desnatadeira e batedeira para fazer manteiga afim de valorizar o seu leite. Foi também na Carreira que o avô montou um “secador de chicória” para poder exportá-la para o Continente onde era utilizada, como mistura, no café.
É preciso pensar que, ao tempo, a produção e exportação da laranja tinha acabado, por doença nas laranjeiras e concorrência de outros produtores.
O nosso trigo não podia concorrer com outros produtores (franceses e americanos), o nosso leite (manteiga) mal se podia vender em Lisboa por falta de transporte e de frio (frigoríficos) – chegava ao consumidor, em latas de folha de Flandres, toda rançosa e derretida com o calor.
Estávamos economicamente num impasse, apesar do enorme esforço de alguns com a montagem das Fábricas do Açúcar, do Álcool, da Chicória, do Chá, da Manteiga, dos Queijeiros, das Estufas de Ananases e do Tabaco.
Faltava-me mencionar também que o meu pai construiu 6 estufas de vidro para ananases com o dinheiro da sua quota parte da venda das “colónias" de São Jorge.
Visto retrospectivamente, este período representou um grande esforço pecuniário; estudo mais ou menos amadorístico, na tentativa de industrializar e exportar os produtos agrícolas que podiam ser feitos, nomeadamente, vinho, milho e batata-doce (álcool etílico), ananases, chá e por último leite (lavoura).
O resultado de todo este trabalho, pondo de parte o prazer de criar, foi financeiramente desencorajador.
Mas, ao mesmo tempo, o meu pai interessava-se pela “Causa Pública”; e assim é, que o vemos pertencer aos Jurados na organização dos tribunais da 1ª Republica, ser vice-presidente da Junta Geral e, juntamente com o Sr. Nicolau Maria Raposo do Amaral e com o Tio Eugénio da Câmara, organizarem o Sindicato, depois transformado em Grémio da lavoura com o Estado Novo.
Lembro-me de ir com ele, no Buick, fiscalizar as obras da construção da estrada da Ribeira Quente, na qualidade de presidente interino da Junta Geral.
O seu espirito curioso e gosto pelas máquinas manifestava-se na desmontagem e montagem do Buick. Eu, um catraio de 6-7 anos, andava à volta interessado em tudo aquilo.
A finalidade, muito depois vim a realizar, era o meu pai compreender a razão de ser de cada peça, cujo conjunto fazia andar o automóvel. Nessa altura o automóvel era ainda uma máquina nova e pouco conhecida. Ele tinha um jogo de lâminas de diferentes espessuras para afinar as velas, de forma a regular a distância entre os pólos em que saltava a faísca eléctrica. Esta faísca ia deflagrar a explosão (combustão da mistura de ar e gasolina) no cilindro dando-lhe a impulsão que o fazia mover. O cilindro estava ligado à cambota de tal forma que produzia um movimento rotativo que, ao fim e ao cabo, era o que fazia andar as rodas pneumáticas. Afinava também o distribuidor que comandava o momento em que a faísca eléctrica devia saltar quando o cilindro chegava à devida posição.
Todo este trabalho provinha da sua curiosidade e vontade de compreender como as coisas funcionavam. O Ford velho do avô também vinha para a garagem, nas Laranjeiras, para ser consertado. Nunca compreendi a razão porque o meu pai pendurava o Ford da trave da garagem, içado com uma gina com a traseira para cima. O Ford velho do avô estava atamancado com vergas de arame para que “aquilo” não se desconjuntasse; na garagem havia também um Berliet desmontado, comprado não sei quando.
Nesta altura também, foi montada uma oficina de fotografia onde ele próprio revelava as películas (banhos com sais apropriados, num quarto escuro, iluminado com luz infravermelha). E até mesmo o tio Afonso sintetizou uma essência de banana não sei para que fim.
A vida, nas Laranjeiras, era de contínua azáfama, cheia de pessoal que comiam na cozinha e alguns também dormiam.
(…)
E chegámos a 1936, tinha eu 13 anos quando, ao chegar juntamente com a minha irmã Maria José de uma viagem à Terceira, o meu pai me diz que tinha feito uma Sociedade com o Senhor Eduardo Read para a montagem de uma fábrica de queijos e manteiga. O Sr. Read então um rapaz de 20 e poucos anos, tinha acabado de chegar de um curso prático de lacticínios na Inglaterra e pretendia aplicar o que tinha aprendido.
E assim se iniciou um outro período de vida. Mas antes de entrar nesse novo período quero mencionar alguns casos que caracterizam a pobreza e falta de perspectivas com que então se vivia. É nessa época que as grandes fortunas feitas antes pela laranja, comércio e Brasil, se esvaem. Como exemplos basta mencionar a ruína da Casa Fonte Bela, das Laranjeiras (Visconde), do Colégio (Raposo de Amaral) da Santa Catarina (Conde Baltazar Rebelo) para falar apenas das maiores.
Houve também falências de organizações financeiras; Banco Agrícola e caixa Económica, que trouxeram a ruína a muitos, pequenos e grandes, subscritores.
Este [é] o pano de fundo em que se vai montar, em termos mais controlados e modernos, os primeiros passos da indústria dos lacticínios, a sério, em São Miguel.
Como sempre, foi nas Laranjeiras, na casa do caseiro, que se montou a “Fábrica” composta por uma desnatadeira “Westphalia” de 5000 l/h, uma batedeira, um malaxador de madeira, uma caldeira de geração de vapor que movia uma máquina que fazia girar um cilindro com movimento rotativo. Era este cilindro ligado, por meio de correias a um veio de transmissão de ferro com tambores, que fazia mover a desnatadeira e a batedeira. O malaxador e a embalagem de manteiga em pacotes de 250 gr. eram manuais. Num outro quarto estava um tanque de queijo de folha-de-flandres, feito no mestre Jaime “latoeiro” colocado no interior de outro tanque de madeira. Entre o tanque de folha e o de madeira havia um espaço que se enchia com água quente para aquecer o leite à temperatura desejada. Havia as “liras” horizontais e verticais para cortar a coalhada e, mais importante, uma panela de pressão onde se esterilizava o leite e depois se inoculava o fermento importado da Dinamarca. O inocular, e depois o repicar o fermento para vasilhas maiores, era uma operação em que se tinha que ter o máximo cuidado para não infectar o fermento (microrganismos lácteos).
O Sr. Read começou a fazer o queijo Cheddar como tinha aprendido na Inglaterra. Aconteceu que o gosto era bom, mas, devido ao clima e à qualidade do leite, o interior do queijo arreguava em pequenos pedaços ficando com mau aspecto interior. O queijo de pasta mole ainda foi pior. Inchava muitas vezes (má qualidade do leite por ser mugido e transportado em péssimas condições higiénicas), ninguém sabia nada de microrganismos e o leite, sendo um óptimo meio de cultura, era facilmente infectado com microrganismos produtores de gases, maus gostos, etc. Na casca do queijo desenvolviam-se “leveduras e bolores” que lhe davam uma péssima aparência.
Lembro-me que o granel novo estava cheio de prateleiras de queijos embrulhados em cal para ver se se dava cabo das ditas leveduras. Havia mulheres a raspar e lavar os queijos para ver se os tornavam vendáveis.
Enfim, foi um começo com êxitos e fracassos, mas que de qualquer maneira nos permitiu ir vivendo até 1936. Na mente do meu pai estava a ideia do associativismo, sob a forma de cooperativa ou outras.
Infelizmente, apesar de várias tentativas, ninguém queria arriscar o seu dinheiro e essas ideias associativas não eram bem vistas nem estavam na moda. Logo de início se sentiu que a comercialização era um dos problemas e para tentar melhorá-la a Lacticínios Loreto, nome da Sociedade, montou uma loja de vendas, a Zenite situada numa esquina do jardim Sena Freitas.
Para rentabilizar a loja vendia-se, além do queijo e manteiga, fruta, mel e outros produtos frescos e também bombons de chocolate. Teve de se montar uma câmara frigorífica espaçosa, coisa que na época não existia.
Mas, voltando ainda um pouco atrás e depois de reler alguns escritos do meu pai quando da montagem do Sindicato Agrícola, ficou por mencionar o esforço e trabalho junto da lavoura para propagandear a necessidade do associativismo. Este aspecto pode dizer-se “ideológico” é fundamental para caracterizar o espírito com que o meu pai se abalançou na sua iniciativa, que ficou bem patente no Pacto Social da Lacticínios Loreto. Nele estava expresso que a Sociedade se transformaria em cooperativa quando houvesse oportunidade para o fazer.
Como se disse, ninguém, com excepção do Senhor António do Canto, se mostrou interessado em arriscar o seu dinheiro nessa organização. É que nessa altura nem se pensava na hipótese dos poderes públicos subsidiarem tais iniciativas. Foi, por consequência, com o dinheiro exclusivo do meu pai que se montou a Fábrica nas Laranjeiras, visto que o outro sócio, o Sr. Read, não o tinha, e depois também a Fábrica grande na [Pranchinha].
Foram uns primeiros passos cheios de dificuldades, não só pela qualidade do leite mugido e transportado em péssimas condições higiénicas, como também sem transportes frigoríficos para Lisboa. A comercialização e acompanhamento dos produtos em Lisboa nos trouxe imperativo em virtude das enormes perdas verificadas. A exportação para o Continente era absolutamente necessária dada a falta de consumo no mercado local.
E foi por essa razão que o meu pai se resolveu a ir viver para Lisboa com toda a família em 1937-1938. Foi em Lisboa que nasceu o meu irmão Eugénio, tinha o meu pai 48 anos. Aí montou a “Central Açoriana” para vender os seus produtos e também outros, como o chá e controlo do abate dos animais exportados pelo sindicato Agrícola transformado em Grémio da Lavoura.
Para fazer face a estas iniciativas – a construção da Fábrica grande na [Pranchinha], a ida para Lisboa, a montagem da Central Açoreana – foi necessário vender uma sua grande propriedade, no caminho das Sete Cidades, e teve que hipotecar todas as suas outras propriedades à Caixa Geral de Depósitos em condições de juro draconianas. É bom que se lembre que, para pedir emprestado 10 contos de reis, a Caixa Geral de Depósitos tenha exigido a hipoteca de uma propriedade. Foram tempos difíceis, de resoluções arriscadas (sob pena de todas as propriedades serem vendidas para pagarem as hipotecas) e dolorosas (abandonar a casa das Laranjeiras e ir viver para Lisboa) e isto num tempo de incertezas (Guerra Civil Espanhola e logo a seguir 2ª Guerra Mundial, 1939-40).
De qualquer forma o pavilhão central da fábrica da [Pranchinha] foi inaugurado em 1943. Foi por esta altura, já em plena Guerra, que a Fábrica suportou um enorme prejuízo, que foi a perda completa de um carregamento de queijos destinados à exportação para o continente europeu (Alemanha!) que apodreceu no cais porque os ingleses, através da sua política dos Naviserts, impediram o seu embarque. Como consequência Lacticínios Loreto admitiu como sócio a Martins & Rebelo, então a maior firma de lacticínios do país. Isto em 1944, tinha eu 21 anos. Em 1947, para ver se centralizava a industrialização do leite, a Lacticínios Loreto admitiu também como sócios vários queijeiros, detentores de “alvarás”, emitidos pelo então Instituto do Condicionamento Industrial. Esses vários queijeiros não tinham possibilidade de vida, tanto mais porque, no fim da Guerra, o governo de Salazar, para demagogicamente aliciar a população, inundou o mercado português de produtos importados, entre os quais, manteiga.
Os resultados dessa política foram desastrosos para a economia Açoreana, visto ter de se fazer “stocks”, por não se conseguir vender a manteiga no mercado nacional a preços compensadores.
Em 1944-45 o meu pai já tinha voltado para S. Miguel com a família, menos eu que estava no 1º ano do Instituto Superior Técnico.
Depois de todos estes acontecimentos a indústria de lacticínios estava reduzida (concentrada) a Lacticínios Loreto, Lacticínios Furtado Leite (1944) e Lacto Açoreana (1948). Só ficou um pequeno queijeiro em Água Retorta e dois produtores de manteiga caseira, e o tio João Luís do Pico da Pedra e o tio António [da Câmara] na Lomba da Maia.
Não se pense, no entanto, que a produção de leite e sua transformação tinha diminuído. Ao contrário verificamos que em 1937, no início da Sociedade Lacticínios Loreto, a produção total de leite na ilha de S. Miguel rondava os 4 milhões de litros anuais, e que em 1960 era cerca de 34 milhões de litros – 9 vezes mais. Estes números demonstram bem a acção altamente meritória e fundamental para o desenvolvimento económico dessas organizações fabris.
Revendo estas notas, esqueceu-me de mencionar outra iniciativa, que foi a montagem da Charcuterie nas Laranjeiras. Nessa altura, com a produção do queijo havia grandes quantidades de soro que, para ser aproveitado, era utilizado como alimento para os porcos. Foi necessário fazer, no curral e cerrado grande, pocilgas de costaneiras de madeira e manjedouras. Chegou a haver para mais de 500 porcos. Eram comprados muito novos (bácaros com mais ou menos um mês) e depois vendidos, já mais crescidos, nas freguesias rurais. Lembro-me de ter ido numa camioneta pequena com o Sr. Read e meu pai, vender porcos para a Ponta Garça e Água Retorta. Aconteceu que, por falta de condições higiénicas nas pocilgas e por alimentação desequilibrada, houve surtos de diarreias contagiosas que mataram uma grande quantidade de animais. A pobre da minha mãe queixava-se por ver a casa invadida por exames de moscas. Depois diminui-se a criação dos porcos, alimentou-se mais convenientemente uns tantos e montou-se a dita Charcuterie. A Sra. D. Mariana Read era a supervisora da produção de presuntos, fiambres, salsichas, mortadela, chouriços, etc. Chegaram a matar-se 6 a 9 porcos por dia, nos dias de semana.
Por aqui se vê, a luta que se teve de travar, para sobreviver.
Para melhor nos situarmos no tempo; trabalhou-se na fabriqueta inicial, nas Laranjeiras, de 1937 a 1944, isto é 7 anos, e depois na Fábrica grande da [Pranchinha] de 1944 a 1994 (altura em que foi vendida à multinacional Lacto Ibérica), durante 50 anos. Mas durante todos estes anos houve um esforço contínuo de modernização e várias iniciativas importantes:
1) Fabrico do queijo.
Teve de se montar câmaras de cura climatizadas a temperaturas de 8-14 ºC. Todo o leite era previamente pasteurizado para diminuir o número de microrganismos, alguns deles altamente nocivos por produzirem más fermentações. A qualidade do leite era o calcanhar de Aquiles da produção do queijo. Para resolver este problema foi necessário construir postos de recolha espalhados pela ilha e depois frigorificá-los. Foi muito difícil (impossível) organizar uma classificação do leite e pagá-lo conforme a sua qualidade, por causa da concorrência entre as 3 fábricas e da resistência dos lavradores. A rede de postos de recolha frigorificados só foi possível depois da Fábrica ser vendido à Lacto Ibérica, agora com a ajuda de dinheiros da CEE.
2) Fabrico da caseína.
Durante um certo tempo foi a salvação da Fábrica porque foi possível encontrar mercado nos Estados Unidos, na Alemanha e na Argentina. O leite desnatado era coagulado pelo coalho, ou pelo ácido láctico, ou até mesmo pelo ácido clorídrico ou ácido sulfúrico. O leite coalhado era mexido e depois cozido por vapor directo até à temperatura de 85ºC. Para o efeito fez-se tanques de folha-de-flandres estanhada, de 5 e 10.000 l. cada e tivemos que comprar 2 secadores de caseína e respectivos moinhos de martelos para reduzir a pó a caseína.
3) Colas, galalithe e tintas de água.
Com o intuito de utilizar directamente a caseína fabricada, fizemos colas para madeira, vendidas no mercado local e até mesmo em Portugal continental. Montou-se também a fabricação de galalithe, que é caseína plastificada num extrusor (altas pressões e calor) e depois endurecida em banhos de formol. A galalithe servia para a fabricação de botões, cinzeiros, etc. Para o efeito construiu-se uma oficina de fresagem, sendo o mestre José Paquete o encarregado. Mas era o meu pai que dirigia toda a secção da galalithe, fazendo, ele mesmo, a mistura da caseína moída com as anilinas para lhe dar várias cores e cambiantes. Era um serviço altamente especializado e era o meu pai, sozinho, que tinha as receitas das cores e suas misturas. Chegou a fazer tabuleiros de xadrez e pentes (imitando tartaruga) típicos que as espanholas usavam nos cabelos. Para vender as placas de galalithe arranjou-se um depósito no Porto, onde se concentrava a indústria dos botões em Portugal.
4) Leite em pó.
Levados pela necessidade de absorver (transformar e vender) todo o leite produzido pela lavoura, num clima de violenta concorrência entre as três fábricas (Lact. Loreto, Lact. Furtado leite e Lacto Açoreana), a Lacticínios Loreto em 1959 abalançou-se a montar (com edifícios e maquinaria muito dispendiosos) o fabrico do leite em pó. Foi um investimento decisivo para a continuação do desenvolvimento da pecuária na ilha. Com efeito só se pode “stockar” leite quando estiver sob a forma de manteiga e leite em pó. O leite condensado (em latas) tem menos tempo de vida.
É preciso referir que a Lacto Açoreana montou o leite em pó ao mesmo tempo que nós, mas a Lacticínios Furtado leite não.
Não se imagina o esforço que foi necessário para levar esta produção a bom termo. Primeiro o leite era condensado por evaporação da água (do leite) por meio de calor e sob um vácuo profundo (quase absoluto). O vácuo era necessário para baixar a temperatura de evaporação da água de 100ºC para 84ºC, visto que as proteínas e vitaminas são alteradas pelo calor. Depois o leite condensado era transformado em pó por uma corrente de ar quente que evaporava o excedente de água do leite condensado. O leite em pó era vendido para a Europa (Alemanha e Holanda) e Estados Unidos.
Durante a época de sessenta as coisas correram razoavelmente bem, mas à medida que a Europa se recomponha das devastações da guerra foi sendo cada vez mais difícil vender todo o leite em pó e manteiga produzidos. Foi sendo necessário fazer stocks que correspondiam a enorme esforço financeiro. Chegou a altura em que não havia dinheiro para pagar o leite aos lavradores, e até mesmo os empregados estiveram, de uma vez, seis meses sem receberem os seus salários. Pode-se imaginar o mal-estar social que esta situação provocou nos directamente afectados (lavradores e pessoal).
Mas temos de ir um pouco atrás. É que a ideia da cooperativa, pensada ainda no tempo do antigo Sindicato voltou a pôr-se com mais insistência, dado o mal-estar provocado pelos atrasos do pagamento do leite. Havia sempre a desconfiança de que os industriais não se interessavam pelos lavradores e que criavam artificialmente as dificuldades. Mas os lavradores não estavam dispostos a arriscar o seu dinheiro individualmente, fazendo-se sócios de Lacticínios Loreto. E foi só com os dinheiros públicos que a Cooperativa do Bom Pastor (Arrifes) e outras se associaram na União de Cooperativas (Unileite) e fizeram uma fábrica na Avenida Príncipe de Mónaco.
Estamos agora nos princípios de 1970, e em 1974 há a Revolução de 25 de Abril que criou uma completa desestabilização, com as nacionalizações da banca e das grandes indústrias em Portugal. Houve também uma enorme desvalorização do dinheiro. Os bancos, para se defenderem, só emprestavam dinheiro a juros de 30% descontados logo no momento do levantamento. Fazias uma dívida de 100 contos mas só recebias do banco 70 contos em dinheiro. Esta prática correspondia, na realidade, a juros de 40% chegando até 45% pós-decipados. Lembro-me de ter ido pessoalmente falar com a Administração do Banco de Portugal, em Lisboa, e “ameaçar” de não pagar à lavoura se o Banco de Portugal não nos emprestasse o dinheiro. Foi um tempo conturbado, de grande inflação e de dificuldades na exportação da manteiga e leite em pó. Há a assinalar também que, em fins da década de 1970-1980, foi montada, pela Nestlé, uma nova e moderna fábrica no Pópulo, a Prolacto, passando por cima da legislação anterior dos alvarás, instituídos pelo Instituto do Condicionamento Industrial. Foi um licenciamento “político” feito pelo novo governo (depois da Revolução de Abril) e permitido para dar possibilidade de vida à Cooperativa Unileite. Com efeito, no pacto social da Prolacto está expresso que pelo menos 80% do leite laborado pela Prolacto (Nestlé) tinha de ser fornecido pela Unileite. Porque a Unileite, antes disso e apesar das várias injecções de dinheiros públicos, nunca tinha conseguido concorrer com os industriais. Só com a venda directa de 80% do seu leite à Nestlé é que a Unileite pôde sobreviver.
E foi para sobreviver a esta nova concorrência que Lacticínios Loreto aumentou e modernizou, em 1979, as suas instalações de leite em pó.
Vendo em retrospectiva o que foram todos estes anos, de 1937 a 1976 (39 anos), data do falecimento do meu pai, verificou-se:
Em primeiro lugar, a consciencialização da absoluta necessidade de montar uma indústria capaz de transformar e vender o leite produzido na ilha e assim rentabilizar a exploração dos nossos terrenos. Esta opção, pelo desenvolvimento pecuário da ilha, foi correcta, dada a fertilidade dos nossos solos e o clima húmido e ameno que temos. De facto, temos condições naturais óptimas e portanto concorrenciais com outras partes do mundo (Portugal continental) para a produção de erva. Quem diz erva, diz alimentação de animais produtores de leite e secundariamente carne. Mas, por outro lado, temos vários handicaps, como sejam a nossa pequenez e a distância dos mercados consumidores, com custos elevados de transportes e comercialização.
Em segundo lugar, o facto de ser pioneiro na exploração de um sector que ainda não tinha montadas as infra-estruturas técnicas e logísticas (transportes regulares e frigorificados) necessários ao êxito do empreendimento. Sob o ponto de vista técnico, temos não só o saber produzir uma manteiga e um queijo adaptados ao gosto do mercado consumidor, como também [o] atingir um dimensionamento crítico que obrigasse à instalação de transportes adequados e sua comercialização no mercado exterior.
Por outro lado, nessa altura nem se sonhava com subsídios governamentais para o desenvolvimento do sector.
A produção de manteiga e embalagem automática em porções de 30 gr. foi um êxito, mas a produção do queijo nunca foi um êxito pleno. Depois explicarei porquê. Constatava-se também uma luta pela sobrevivência económica consubstanciada nas várias iniciativas efectuadas: postos de recolha, câmaras frigoríficas, tentativas da classificação do leite,  montagem de uma linha de engarrafamento de leite pasteurizado (leite do dia) vendido no mercado local, fabrico da caseína e sua utilização em plásticos (galalithe, colas, tintas e chocolates), charcuterie para aproveitamento dos porcos alimentados com soro do fabrico do queijo, fabrico de leite em pó, tentativa fracassada de produção de farinhas lácteas à base do leite em pó produzido.
Para se compreender a razão da venda da Lacticínios Loreto, em 1994, a uma multinacional, bastante depois da morte do meu pai (1976), é necessário considerar o seguinte:
1) O queijo que o Sr. Read trouxe de Inglaterra era o Cheddar, queijo de pasta dura, com sabor agradável mas não muito forte. Tinha uma cura de longa duração (pelo menos 3 meses) e pesava de 7 a 9 quilos, cada. Era um queijo relativamente próprio para o mercado local, habituado ao queijo de São Jorge, mas não adaptado ao mercado continental que consumia principalmente queijos de pasta mole fabricados no norte do país (queijo da Serra, queijo bola, Limiano, etc.).
a) A receita inicial que o Sr. Read trouxe não deu certo, porque a massa esboroava-se e não se conseguia cortar em fatias. Teve que se modificar o fabrico para pior, visto que não se esperava, da mesma forma, pela acidez (desenvolvimento dos microrganismos lácteos), o que trazia inconvenientes na cura e no sabor, embora se conseguisse obviar ao esboroamento da massa interior.
b) Não concorria com os queijos de pasta mole no mercado continental.
2) Teve que se iniciar (depois de várias tentativas) o fabrico de um queijo de pasta mole, para o qual não havia “Know-how”.
3) Com o andar do tempo, depois da guerra, foi sendo necessário fazer stocks de manteiga e leite em pó, que finalmente e depois de muitas vicissitudes foram em parte adquiridos pela CEE. Rapidamente a CEE viu-se a braços com enormes stocks, o que deu origem ao aparecimento das quotas leiteiras.
4) Sob o ponto de vista fabril, foi aumentando cada vez mais a concorrência entre as fábricas com a montagem da Prolacto/Nestlé, e de vendas com o aparecimento dos hipermercados. Com efeito, os hipers, em virtude da sua grande capacidade de venda, exigiam dos fornecedores benesses e descontos que reduziam drasticamente as margens de lucros, além de levarem 3 meses para pagar a mercadoria que era vendida por eles a pronto. Eram os hipermercados que dominavam a comercialização da manteiga e do queijo.
Em 1990 só existiam, das antigas fábricas, a Lacticínios Loreto e a Lacto Açoreana, porque a Lacticínios Furtado Leite tinha falido.
Como sintoma da evolução dos lacticínios em Portugal, basta lembrar que o nosso sócio Martins & Rebelo, a maior organização fabril e comercial do sector em Portugal, foi vendida e depois desmembrada.
5) Finalmente entra em cena a Lacto Ibérica, multinacional de capitais maioritários franceses, que em 1992 compra a Lacto Açoreana.
E assim a Lacticínios Loreto vê-se perante 2 multinacionais (Nestlé e Lacto Ibérica), e o desmembramento de Martins & Rebelo que era o encarregado da comercialização no continente, o que obrigou a L. Loreto a montar a sua própria organização de vendas. Além disso, vê-se em sérias dificuldades financeiras, por causa dos cada vez maiores stocks que era obrigada a fazer.
De qualquer forma, e para dar uma ideia dos montantes envolvidos no negócio, a L. Loreto Lda., nessa altura, tinha um volume de vendas anuais de cerca de 900 mil euros, ou seja, 4 milhões e 450 mil contos. Foi perante estas realidades que L. Loreto encetou as démarches para a sua venda à Lacto Ibérica, que foi finalmente concretizada em 1994, já numa certa posição de fraqueza.
Como se vê, estes últimos acontecimentos tiveram lugar depois do falecimento do meu pai em 1976, isto é, 18 anos depois.
E assim terminou a acção pioneira do meu pai, na criação e desenvolvimento do sector pecuário na ilha de São Miguel que ainda é a base do seu desenvolvimento.
(…)
Ficou por mencionar o facto de a L. Loreto ter sido fiadora, perante a banca, de muitos e muitos milhares de contos de empréstimos aos lavradores, necessários ao desenvolvimento e modernização das suas lavouras. A sua acção teve, portanto, um carácter altamente social.»



À esq.: Jacinto Soares de Albergaria (meu tio) - licenciado em engenharia química no MIT na 2ª metade da década de 1940, por certo um dos primeiros portugueses a estudarem nessa universidade norte-americana (lembrava-se de Norbert Wiener "a atravessar os corredores como um toiro"...); trabalhou na Lacticínios Loreto Lda. até suceder ao pai como presidente do concelho de administração. Distinguia-se pela sua curiosidade intelectual, pela tolerância face à diferença, e pelo seu apreço pelo que mais importará na vida, sem deixar de reconhecer as penas que esta pode comportar.
À dta.: eu e a minha filha Madalena - filho, neto e bisneta de Eduardo Soares de Albergaria, creio que em 2000-03.

Comentários

  1. Para uma abordagem compreensiva e atualizada do sector, v. L.H. Sequeira de Medeiros, "O leite e os lacticínios nos Açores - Um contributo para a sua história", in: J. Fernandes Alves (org.), Leite e Lacticínios em Portugal. Digressões Históricas, Confraria Nacional do Leite, 2016, pp. 189-239. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Jorge_Alves2/publication/304541131_A_Fileira_do_Leite_Em_Perspetiva_Historica/links/578535c408ae36ad40a4bfbb/A-Fileira-do-Leite-Em-Perspetiva-Historica.pdf.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Qualquer comentário cortês é bem-vindo, em particular se for crítico ou sugerir desenvolvimentos ao post.