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Onde intervir, e com que referências? (ag 2013)

“Só com o aparecimento de um novo paradigma social, sólido e que dê confiança, é que começa a desenvolver-se um optimismo realista que leva as pessoas novamente a tornarem-se produtivas e a investirem, em suma, a dinamizarem novamente a economia interna.” Mas, “para levar as pessoas a agirem nestas situações [crises económicas], é necessário um sentimento de pessimismo generalizado, que leva as pessoas a compreenderem que é necessário fazer alguma coisa.” Enfim, “os mecanismos de mobilização são os mesmos que sempre existiram. Por um lado, que os movimentos sociais não sejam vistos como tendo algum interesse particular, ou interesse de ‘classe’. Por outro lado, que girem em torno de uma visão comum do que pretendem para o futuro. (…) É a visão de futuro partilhada em torno de uma causa comum que move as pessoas.”
Segundo Miguel Pereira Lopes – na entrevista “Portugueses entre a revolução e o reformismo?” ao portal Verdade, Ética e Responsabilidade (30/10/2012) – para ultrapassarmos tão consistentemente quanto possível a crise actual há pois que começar por reconhecer que Portugal está pior do que seria necessário, e que nós somos responsáveis. Quaisquer optimismos fantasistas só por milagre nos pouparão ao agravamento da crise.
Nessa base, há então que formular um “novo paradigma social, sólido e que dê confiança,” pelo qual as pessoas se movam – esta formulação é o trabalho da cultura prescritiva a que aqui dediquei a última crónica. Importa porém que os proponentes dessa “causa comum” subordinem os seus naturais interesses particulares precisamente ao que nela houver de “comum”.
Este desinteresse privado integra-se na conquista de credibilidade que, há dois milénios e meio, Aristóteles (Retórica) isolou como uma das três dimensões da persuasão.
Outra destas dimensões é a consistência lógica e empírica da argumentação – para propostas sólidas, que dêem confiança.
Sendo a terceira dimensão persuasiva a do estímulo emocional dos destinatários do discurso – como a esperança em que MPL insiste.
Desde o filósofo grego até este professor do ISCSP-UTL mais os seus pares em psicologia social e economia comportamental, percebemos muito razoavelmente as referências para uma nossa intervenção. Resta determinar onde é que, precisamente, cada um de nós deverá fazê-lo – meios esses em cujas ocorrências também cada um de nós poderá depositar maiores esperanças.
Uma resposta apontará o âmbito nacional, centrado nas instituições que tenham este alcance – ou seja, nos órgãos do Estado, nas grandes empresas e na comunicação social estabelecidas em Lisboa. O privilégio, ou até o exclusivo desse pequeno meio, foi porém a resposta que permitiu chegarmos aqui…
Em alternativa à qual se ergue uma resposta comunitarista – promovida nomeadamente por The Institute for Communitarian Policy Studies, fundado e dirigido por Amitai Etzioni.
Segundo este notável intelectual e agente sócio-político, qualquer sociedade moderna constrói-se na relação entre o Estado, o mercado e as comunidades – i.e. as famílias, escolas, associações pelos direitos de minorias, associações culturais, desportivas, etc., freguesias, igrejas, “amigos” nas redes sociais digitais… Cujo grande e específico contributo na construção social é a mobilização, desde logo interna a cada comunidade, do diálogo gerador de uma moral comum. Sem a qual, uma vez assumida mais alargadamente, nenhuns Estados e mercados terão sucesso. (Foi neste enquadramento teórico, aliás, que lancei a presente coluna de opinião e a tenho partilhado numa rede social.)


Versão original in: Açoriano Oriental, 21/08/2013

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