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O exemplo aborígene (fev 2013)

Experimente o/a leitor/a pedir a alguns conhecidos seus que apontem, sem qualquer cálculo elaborado… para sudoeste. Se bastantes hesitarem não deverão porém ser julgados desorientados. Apenas quotidianamente não se orientam no espaço pelos pontos cardeais.
Segundo as investigações de Lera Boroditsky, isso acontecerá porque nos habituamos a pensar no seio de uma linguagem pela qual os objectos são posicionados em relação uns aos outros – ex. …à direita de… – e não em relação àqueles pontos, como acontece com os aborígenes australianos. Dos quais qualquer criança consegue, sem hesitação, apontar para sudoeste. Como diz a autora (Scientific American, 304 (2011) 2: 44), “research in my lab and in many others has been uncovering how language shapes even the most fundamental dimensions of human experience: space, time, causality and relationships to others.”
No que interessa a esta coluna de crónicas, há quinze dias referi o reconhecimento da temporalidade linear, aberta e progressiva como condição da iniciativa. Que por sua vez é condição do crescimento económico consistente.
Em alternativa, o tempo trágico dos gregos antigos é linear e aberto, mas não progressivo (os acontecimentos sucedem-se mas a perda final é garantida). As culturas (ex. agrárias primitivas) que supõem um eterno retorno do que acontece estabelecem um tempo linear, mas circular e não progressivo. Mesmo no seio daquela primeira temporalidade, os deterministas supõem-na como um encadeado ou uma continuidade em que cada momento é previamente determinado; enquanto os liberalistas se comprometem com uma sucessão de pontos que pode ser interrompida ou inflectida. E há ainda a experiência do tempo qual série de pontos quase desligados entre si, mas cada um aberto a algum plano oculto do fado, ou da sorte – de modo que a grande aspiração não será preparar hoje a cama em que queremos deitar-nos amanhã, mas sim distrair-nos agora, e esperar que a coisa se resolva depois…
Ora, segundo estudos como os de Vera Ferreira (“Emprego dos dois futuros”, seminário Português Falado, 09/01/2006) sobre o uso contemporâneo da língua portuguesa, estaremos a afastar-nos da temporalidade progressiva, se não mesmo da linear.
Pois o português falado tende a esquecer os tempos e modos verbais que diferenciam não apenas um passado, presente e futuro relativos ao momento da enunciação, como ainda os relativos a momentos anteriores ou posteriores a este último. Por exemplo, falar, num passado não delimitado (imperfeito) diz-se, tanto no português padrão quanto no falado, “falava”. Mas uma posterioridade no passado diz-se, segundo o padrão, “falaria” ou “teria falado”, enquanto no português corrente derrapamos para “falava” – perdendo assim a distinção entre esses momentos passados. O mesmo quanto à anterioridade no passado – derrapando de “falara” ou “tinha falado” para “falei”. E até o futuro simples, “falarei”, tende a cair no presente, “amanhã falo contigo”.
A linha do tempo fica assim adulterada, seja pelo corte de secções inteiras, seja pelo encadeamento de outras em continuidades que inibem a iniciativa.
Como decorar não é compreender, para a consistência a prazo do nosso crescimento económico não podemos confiar em repetidas declamações das conjugações verbais pelos alunos de Português!… Mas ainda assim, para essa consistência a prazo, acrescentarei uma palavra à minha conclusão de há quinze dias: “À atenção pois dos agentes culturais: para o sucesso de qualquer política de crescimento económico importa reforçar, ou urge encetar (!) linguisticamente uma tal estruturação do tempo psicológico português.”[1]


[1] Nota à reedição deste texto:
Em Abril deste ano, a revista American Economic Review (103(2): 690-731) publicou o artigo “The Effect of Language on Economic Behavior: Evidence from Savings Rates, Health Behaviors, and Retirement Assets”, de Keith Chen, que a) confirma uma tese que aqui assumi, b) corrige uma hipótese que avancei, mas c) abrirá algumas questões a responder.
a)     A gramática condiciona os comportamentos económicos, nomeadamente os relativos à acumulação de capital – determinantes de uma economia capitalista, e do investimento que faculta crescimento económico.
b)     Chen aponta que é entre os povos cujas línguas verificam uma discriminação temporal pouco acentuada, em particular nos tempos verbais futuros, que se verifica uma média de poupança mais elevada – acumulação de capital que permite investimento que faculta crescimento económico – avançando a explicação de que isso ocorrerá por sentirem o futuro mais próximo, ou imbricado no presente. Em relação pois estritamente ao “corte de secções inteiras (…) [e ao] encadeamento de outras em continuidades” – que dois meses antes eu tinha referido nesta crónica – isso tenderá a ser vantajoso, e não pernicioso como supus, para a nossa acumulação de capital. Embora não necessariamente para o seu emprego numa iniciativa (e investimento) que cumpra uma progressividade temporal…
c)      Na p. 25 desse artigo, porém, o autor classifica o português como uma língua que discrimina acentuadamente os tempos verbais futuros, precisamente o contrário do que Vera Ferreira revela no seu estudo sobre a tendência do português falado. Ou seja, se seguirmos antes esta outra classificação, já se preverá uma aproximação portuguesa aos défices. Todavia tais previsões assentam apenas em médias. Note-se que, no gráfico incluído nessa página, em metade dos dez países com maiores poupanças em percentagem do PIB falam-se línguas com forte discriminação temporal – entre eles o Chile, sendo a gramática castelhana semelhante à portuguesa. A continuação da procissão, que na última destas crónicas escrevi que nestes textos ainda vai apenas no adro, deverá pois atender aos restantes traços da temporalidade portuguesa que fui mencionando ao longo do ensaio e destas crónicas, ao facto de termos variado de uma das maiores taxas europeias de poupança (no Estado Novo) para uma das menores em apenas uma geração… durante a qual a gramática não há-de ter mudado substancialmente, etc. A bem do reconhecimento, e da intervenção, sobre esta condição da temporalidade que mais se confirma como crucial para uma inversão do atraso socioeconómico português.
Versão original in: Açoriano Oriental, 20/02/2013

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