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Novas conferências do Casino (set 2013)

No último 27 de Maio passaram-se 142 anos sobre a primeira conferência no Casino Lisbonense, na qual Antero de Quental – entre a quinta e a sexta bancarrota portuguesa após o oiro do Brasil – se propôs identificar umas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos.
141 Anos depois, em correlação a esse célebre texto – e só não em plena sétima bancarrota porque os nossos parceiros internacionais aceitaram tutelar-nos (como em 1977 e em 1983) – publiquei o ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos. Cujas pistas procurei explorar na presente coluna de opinião.
Visto que a maior parte delas já foram aqui ao menos assinaladas, me parece estar em boa altura de agradecer ao Açoriano Oriental ter-me aberto a sua página de “Opinião” desde Dezembro de 2012, e de dar por terminada a minha participação nela. Não quero porém terminar sem apontar três ideias que pouco ou nada terei abordado, e que assim não terei oportunidade de desenvolver.
Como Carlos Fiolhais bem sintetizou na sua nota àquele ensaio (in: JL, e blog De Rerum Natura em 19/07/2013), uma das duas condições nucleares ali apresentadas é “a desvalorização do realismo. Isto é, (…) nem sabemos bem ver o real.
Eventualmente, no entanto, não determinaremos todos de igual forma a realidade (aliás noutro local argumentei neste sentido).
Pergunto-me então se as diversas propostas ideológicas não começam por divergir logo nessa determinação primeira… Em todo o caso, cada uma destas propostas confronta-se com o desafio de ou aplicar o seu critério para tal determinação, ou carregar sobre moinhos de vento. E sabemos qual foi o destino de D. Quixote!
Entretanto continuamos a precisar de comer três vezes ao dia, de pagar a luz e a água… O primeiro desafio mental de qualquer crise é o da escolha entre, de um lado, se assumir uma desnivelação entre o plano político-económico imediato, necessário, mas insuficiente no qual se vão cumprindo o menos mal possível aqueles objectivos, enquanto se joga também no plano cultural fundamental onde se decide a consistência das respostas anteriores.
Ou, do outro lado, se enfiar a cabeça na areia de um único nível que se esgote na procura de satisfação político-económica das necessidades imediatas… e assim se condenar a só pontual, e insuficientemente, as alcançar.
Nesse nível fundamental, em intervenções culturais como aqueles textos referidos no início ou estas novas conferências do Casino, a procissão ainda irá no adro. Depois de reconhecido o problema, depois de feito o diagnóstico e apontado o rumo da terapêutica, há que escolher precisamente cada um dos pontos de intervenção, e cada método desta última, que melhor resolvam o problema.
Nesta coluna terei apenas esboçado um passo dessa nova etapa – por exemplo nas crónicas que confluíram na intitulada “Mateus 12,48-50”, ao sugerir que se confrontem as pessoas com os resultados que obtenham, à luz das expectativas que as tenham orientado e mobilizado, a fim de se incrementar a sua racionalidade (nesse caso, moral). Assim como se parta do reconhecimento da honestidade individual, já valorizada, para a difusão da honestidade cívica que resta em défice.
Aqui, porém, pouco fui além desse adro. Todo o resto espera agora cada um de nós.

Versão original in: Açoriano Oriental, 04/09/2013

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