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Mudança de mentalidade, ou apenas de políticas? (mar 2013)

Sobre a tese de que “é preciso mudar a mentalidade dos portugueses”, João César das Neves argumentou em "A evolução das mentalidades" (Diário de Notícias, 17/07/2006) que “este diagnóstico é falso”. Pois “Portugal foi grande no passado precisamente com o mesmo povo que hoje tem, e os períodos recentes de crescimento não exigiram outra mentalidade”. Julgo que esse argumento é inválido.
Se fosse em geral – e não no passado, nem em conjunturas complexas e variáveis – que a grandeza de Portugal implicasse uma (constante) mentalidade portuguesa, obviamente não só esta última não teria de ser mudada para se alcançar a primeira, como isso seria o caminho para o desastre.
Enquanto porém se não confirmar a tal mesmidade do povo português ao longo do tempo – sustentando que implementamos sempre, por exemplo, a iniciativa e a criatividade tecnológica do séc. XV… – mantém-se a hipótese de que as características mentais que, num dado período, tenham facultado a grandeza então verificada, entretanto se tenham perdido. O que nos sugerirá a evolução que mais não seja para a sua recuperação.
E enquanto se não confirmar que a referida grandeza sequer implica o foro mental – e nunca basicamente quaisquer oiros do Brasil, reboques de crescimentos externos extraordinários, subsídios europeus… – mantém-se a hipótese de que, em algum período que não verifique essa grandeza, se imponha a evolução rumo a umas características mentais que logrem explorar a conjuntura dada.
Sem a confirmação dos pressupostos anteriores, a citada conclusão de JCN não se mantém. E não vejo como se possa confirmá-los. Mais precisamente, julgo que aquela argumentação (enquanto formulada apenas nesses termos) falha uma vez que usa tempos verbais diferenciados sem sugerir qualquer fundamentação da asserção “precisamente com o mesmo povo”; e uma vez que joga com as noções de “possibilidade” (de ser grande) e de “necessidade” (que não a de mudar a mentalidade); colocando-se assim nos âmbitos lógicos, respectivamente, temporal e modal, aos quais não se aplicam universalmente as regras da dedução clássica – como a da prova por redução ao absurdo, que o autor me parece implementar sobre a tese visada.
Convém todavia salientar que esta minha contra-argumentação apenas estabelece que, por essa refutação de JCN, é que a afirmação de que “é preciso mudar a mentalidade dos portugueses” não cairá. Não ficou aqui porém estabelecido que ela se mantém…

Reconhecimento – Quando terminei o rascunho de Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos, que esta coluna desenvolve, uma das primeiras pessoas a quem o submeti foi João César das Neves. Pois sabia tanto da sua oposição à tese da necessidade de uma evolução cultural portuguesa – que eu sustento – quanto da sua valorização e exercício da argumentação lógica – que pela minha parte também procuro implementar. Foi em função da objecção que ele logo me colocou que desenvolvi as passagens que ocupam as pp. 22-28 e 31 da versão final desse ensaio. Instituímos assim, para meu proveito durante um tempo insuficiente, “no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral” a que Antero de Quental nos exortou a todos na “procura desinteressada da verdade” (in op. cit., p. 14). Creio que só assim será possível que alguns de nós, algumas vezes, a elucidemos mais um pouco, e, em alguma medida, logremos induzi-la à sociedade.

Versão original in: Açoriano Oriental, 06/03/2013

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