Avançar para o conteúdo principal

E depois das play-stations, das férias nas Caraíbas?… (julh 2013)

Quando é que acabam, e que âmbito alcançam, as crises (que começam por ser) económicas?
Em 1873 deu-se o crash da bolsa de Viena. A crise financeira resultante foi rapidamente saneada, mas dela restou uma “recessão” (redução moderada da produção) económica mundial até 1896. As duríssimas condições de vida e de trabalho dos mineiros nesse período, mas também a disposição para lutar e trabalhar por melhores dias, foram ilustradas por Émile Zola em Germinal (1885). E o séc. XX começou com o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, do lazer, a ascensão das classes médias… Embora entre tensões culturais e políticas mal enquadradas, que provavelmente alimentaram alguns dos incêndios das décadas seguintes.
Em 1929 foi a vez da bolsa de Nova Iorque, de cujo crash resultou uma “depressão” (queda substancial da produção) económica mundial, provocando a miséria e o desenraizamento ilustrados por John Steinbeck em As Vinhas da Ira (1939). A geração apresentada neste romance havia crescido sob as cicatrizes da I Guerra Mundial, depois da Grande Depressão ainda sofreu e combateu na II Guerra Mundial, até que subitamente se encontrou num mundo pacificado (salvo a Guerra Fria), com um crescimento económico e um desenvolvimento das condições de vida nunca vistos. Nesse alívio, abafou quaisquer aspirações profundas, como Matthew Weiner ilustra na série televisiva Mad Men (2007), impondo-se um estilo de vida que se esgotava numa sobrevivência em segurança e conforto. A tamanha insuficiência humana logo respondeu o excesso da geração seguinte ao rejeitar por inteiro esse modelo, como ilustrou Nicholas Ray em Rebel Without a Cause (com James Dean, 1955).
Como porém as Volkswagen pão-de-forma, as guitarras, etc., eram pagas pelos pais, quando a crise do preço do petróleo em 1973 tornou insustentável o modelo destes últimos também o flower power se esboroou. Ainda foi possível mascarar essa insustentabilidade entre a especulação financeira e as dívidas públicas. Mas só até que a produção industrial, e depois as reservas financeiras, foram deslocadas para fora do Ocidente no dealbar da 4ª fase da globalização. O dobre de finados soou com a falência do banco Lehman Brothers em 2008, numa internacionalização da crise financeira resultante da especulação imobiliária norte-americana.
Como em 1873, esta crise foi rapidamente saneada, mas deixou os países desenvolvidos numa recessão económica. (Em depressão caiu apenas a Grécia… embora nestes últimos dias os políticos profissionais portugueses têm estado apostados em não a deixar sozinha).
Em Portugal, se a economia continuar a não facultar condições de vida aceitáveis pela maioria da população, caberá perguntar pela extensão desta crise na mentalidade portuguesa na primeira metade deste século.
Que confiança terão na sua identidade nacional os netos da geração – suponho que ilustrada no mais recente romance de Miguel Sousa Tavares – que geriu o oiro de Bruxelas, contando com um mercado europeu e com conhecimentos históricos e económicos indisponíveis ao tempo do oiro do Brasil, de modo a oferecer a esses jovens gadgets e viagens… mas para lhes deixar como herança a escolha entre pagar a dívida externa e a emigração? Com tamanhos recursos, é isso o melhor que nós portugueses conseguimos?!
A frustração, e a falta de autoconfiança destas próximas gerações, parecem o destino certo. A não ser que, por entre os traços dominantes da geração do oiro de Bruxelas, encontrem alguma pista alternativa, sustentável, em que se possam antes filiar.


Versão original in: Açoriano Oriental, 24/07/2013

Comentários