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Duas pernas pode ser mau, quatro pernas é pior (junh 2013)

O Triunfo dos Porcos, na Manor Farm, deveu-se a esses animais terem convencido os restantes a adoptarem a regra de que “Duas pernas é mau, quatro pernas é bom”. Pois assim estes outros abdicaram do que distingue os homens, nomeadamente o juízo crítico, enquanto os porcos, fazendo eles planos racionais (!), se assenhorearam da quinta. O resto veio por arrasto.
No fim do célebre livro de George Orwell sabemos que o modelo se propagou a outras quintas. Uma delas, tenho a certeza, terá forma rectangular, com umas ilhotas em frente, e fica a sul da inglesa Manor Farm. Bem, “certeza” não posso ter… mas de outro modo não consigo perceber uma série de acontecimentos. Por exemplo:
Durante umas décadas, tanto no seio do processo autoritário de tomada de decisões quanto no do democrático, foi aí praticamente unânime, e pacífica, a decisão de se construir um novo aeroporto a noroeste da capital. Por definição, um aeroporto é uma estrutura para aterragem e descolagem de aviões, normalmente dotada de equipamentos para a circulação de passageiros e/ou carga, mais as devidas vias de acesso terrestre. Em conformidade, a primeira peritagem a escutar na decisão sobre a localização de um aeroporto cabe a quem sabe aterrar e descolar aviões. Só depois, restringidas aos locais assim julgados apropriados, são logicamente legítimas as intervenções de responsáveis pela ordenação do território, de economistas, de engenheiros… Parece de La Palisse.
Mas só o é onde se implementar a racionalidade crítica que reconhece a legitimidade lógica. Onde, pelo contrário, se implementarem pensamentos (?!) únicos regidos não pela verdade, relevância, suficiência das premissas, e coerência do seu tratamento inferencial, mas antes pelo estatuto social reconhecido aos falantes, logo se torna legítimo que sejam aqueles outros responsáveis pela ordenação do território, etc. a intervir.
Nomeadamente nos palcos dos programas de debate devidamente (?!) argumentado na televisão pública.
Felizmente, no dia 21/07/2007, um Comandante de aviação civil decidiu que o devido lugar na plateia do programa Prós e Contras não seria o de aplaudir e corroborar anonimamente os ilustres convidados principais. E, erguendo-se nas duas pernas que o distinguem como homem, pediu o microfone para explicar que, na Ota, os aviões teriam que se aproximar da pista precisamente pelo mesmo espaço aéreo utilizado na descolagem.
Nesse caso a razoabilidade acabou por imperar. Como porém já não estou em idade para confiar regularmente em histórias com final feliz, começarei talvez apenas por pegar na palavra do meu avô Eduardo. Na sua condição de empresário industrial costumava dizer que, “Para as coisas funcionarem, eu sei que tenho de arranjar emprego para os filhos das pessoas conhecidas. Mas, por amor de Deus, eles que não façam nada!”.
Assim, para nos desfiliarmos hoje da Manor Farm, proporia eu: Da forma como nos habituámos a funcionar, eu sei que boa parte do próximo Quadro Comunitário de Apoio terá de ir parar a meia dúzia de contas bancárias nas Ilhas Caimão. Mas, por amor de Deus, que siga para lá directamente, sem nos deixar com o uso e a manutenção de aeroportos muito bons para tudo menos para aterrar e descolar aviões, etc., etc., etc.!
E, principalmente, sem nos deixar com todas essas miragens porcinas que têm encandeado a racionalidade crítica de muitos portugueses. Uma vez esta activada, o resto virá por arrasto.

Versão original in: Açoriano Oriental, 26/06/2013

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