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"A mais profunda essência do trabalho" (abr 2013)

“Diga, por favor, a importância que atribui a (…) trabalho”. Perante esta pergunta do Estudo Europeu de Valores, especialmente em 1999 e 2008 os portugueses responderam com um valor elevado (v. Portal da Opinião Pública).
Pergunto-me porém qual das seguintes interpretações dessa pergunta terá feito a maioria dos inquiridos: i) que importância atribui ao trabalho como forma de realização e desenvolvimento de algumas das suas inteligências, emoções, competências físicas… na produção de uma obra? ii) Que importância atribui a um emprego que lhe garanta algum rendimento ao fim do mês?
Pela primeira interpretação, o trabalho tem valor em si mesmo visto constituir-se como o processo pelo qual o homem se cumpre. Encontramos as raízes desta concepção nas passagens do Livro do Génesis que caracterizam Deus como criador, o homem como criatura à imagem Daquele, logo primeiramente também como criador, pelo que o trabalho é necessário à dignidade humana. Mas também encontramos tais raízes – embora com outra fundamentação e portanto com sentidos práticos pontualmente diferentes – nos posteriores textos do poeta grego Hesíodo (Os Trabalhos e os Dias, II), do Mestre chinês Confúcio (Analectos, VI, 22), etc.
Já pela concepção implicada na segunda interpretação o trabalho é apenas um penoso meio para se alcançar os bens desejados – “comerás o pão com o suor do teu rosto…” (Gn. 3, 19) – constituindo-se como castigo para quem não consegue obter tais bens por outro meio.
Ao que vejo, estas duas concepções do trabalho abrem-nos quatro alternativas práticas: a) procuramos e empenhamo-nos em qualquer actividade produtiva como forma de nos realizarmos (além do rendimento, que não deixa de ser necessário); b) pretendemos apenas o produto do trabalho, e para isso aceitamos o castigo deste último; c) pretendemos apenas o produto do trabalho, mas remetemos o castigo para quem nos subsidie, nos pague as dívidas, etc.; d) não aceitamos o castigo do trabalho, e desistimos de consumir o seu produto.
Esta última alternativa reenvia-nos para antes da Revolução do Neolítico… A anterior serve a povos que vivem sobre reservas de petróleo, ou que têm força para a pirataria… aos restantes condena-os à bancarrota em poucas décadas, tornando-se impossível manter tal opção – Portugal que o diga! Restam as primeiras alternativas.
A cada pessoa que assume o suor do rosto apenas em nome do pão, lembrarei que está assim a assumir que a condição humana contém, de facto, a necessidade de consumir o que nós próprios não geramos naturalmente. Pelo que é pelo trabalho que o ser humano se constitui no que lhe é próprio. Ou por outras palavras, só trabalhando é que pomos os pés numa terra humana.
O que nos remete para a primeira concepção do trabalho. Na cultura marcada pelo Cristianismo, a sua versão extrema é a de Calvino, que considerou o trabalho como sinal das criaturas predestinadas à salvação. Uma versão matizada (e que recusa a predestinação!) é a de João Paulo II na encíclica Laborem Exercens (I.4, na citação que intitula esta crónica).
Assim saiba cada um de nós – precisamente numa cultura de origens judeo-cristãs – ultrapassar qualquer inclinação para as tontearias (c) e (d)!
E, se porventura nos demorarmos na alternativa (b), reconheçamos – seja extrema, seja matizadamente – sob as suas pregas os sinais do trabalho como forma de alguma realização pessoal.


Versão original in: Açoriano Oriental, 03/04/2013

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