“Diga, por favor, a
importância que atribui a (…) trabalho”. Perante esta pergunta do Estudo
Europeu de Valores, especialmente em 1999 e 2008 os portugueses responderam com
um valor elevado (v. Portal da Opinião
Pública).
Pergunto-me porém
qual das seguintes interpretações dessa pergunta terá feito a maioria dos
inquiridos: i) que importância
atribui ao trabalho como forma de realização e desenvolvimento de algumas das
suas inteligências, emoções, competências físicas… na produção de uma obra? ii) Que importância atribui a um emprego
que lhe garanta algum rendimento ao fim do mês?
Pela primeira
interpretação, o trabalho tem valor em si mesmo visto constituir-se como o
processo pelo qual o homem se cumpre. Encontramos as raízes desta concepção nas
passagens do Livro do Génesis que
caracterizam Deus como criador, o homem como criatura à imagem Daquele, logo
primeiramente também como criador, pelo que o trabalho é necessário à dignidade
humana. Mas também encontramos tais raízes – embora com outra fundamentação e
portanto com sentidos práticos pontualmente diferentes – nos posteriores textos
do poeta grego Hesíodo (Os Trabalhos e os
Dias, II), do Mestre chinês Confúcio (Analectos,
VI, 22), etc.
Já pela concepção
implicada na segunda interpretação o trabalho é apenas um penoso meio para se
alcançar os bens desejados – “comerás o pão com o suor do teu rosto…” (Gn. 3, 19) – constituindo-se como
castigo para quem não consegue obter tais bens por outro meio.
Ao que vejo, estas
duas concepções do trabalho abrem-nos quatro alternativas práticas: a)
procuramos e empenhamo-nos em qualquer actividade produtiva como forma de nos
realizarmos (além do rendimento, que não deixa de ser necessário); b)
pretendemos apenas o produto do trabalho, e para isso aceitamos o castigo deste
último; c) pretendemos apenas o produto do trabalho, mas remetemos o castigo
para quem nos subsidie, nos pague as dívidas, etc.; d) não aceitamos o castigo
do trabalho, e desistimos de consumir o seu produto.
Esta última
alternativa reenvia-nos para antes da Revolução do Neolítico… A anterior serve
a povos que vivem sobre reservas de petróleo, ou que têm força para a
pirataria… aos restantes condena-os à bancarrota em poucas décadas, tornando-se
impossível manter tal opção – Portugal que o diga! Restam as primeiras
alternativas.
A cada pessoa que
assume o suor do rosto apenas em nome do pão, lembrarei que está assim a
assumir que a condição humana contém, de facto, a necessidade de consumir o que
nós próprios não geramos naturalmente. Pelo que é pelo trabalho que o ser
humano se constitui no que lhe é próprio. Ou por outras palavras, só
trabalhando é que pomos os pés numa terra humana.
O que nos remete
para a primeira concepção do trabalho. Na cultura marcada pelo Cristianismo, a
sua versão extrema é a de Calvino, que considerou o trabalho como sinal das
criaturas predestinadas à salvação. Uma versão matizada (e que recusa a
predestinação!) é a de João Paulo II na encíclica Laborem Exercens (I.4, na citação que intitula esta crónica).
Assim saiba cada um
de nós – precisamente numa cultura de origens judeo-cristãs – ultrapassar
qualquer inclinação para as tontearias (c) e (d)!
E, se porventura
nos demorarmos na alternativa (b), reconheçamos – seja extrema, seja
matizadamente – sob as suas pregas os sinais do trabalho como forma de alguma
realização pessoal.
Versão original in: Açoriano Oriental, 03/04/2013
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