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Portugal e a actual fase da globalização (dez. 2012)

Entre a última década do séc. XV, e a primeira do séc. XVI, os vários blocos do globo foram reunidos num mesmo mundo pelas navegações portuguesas. As condições deste mundo globalizado vieram porém mudando: desde o mercantilismo (cada governo europeu protegia monopólios nacionais, subsidiava exportações e entravava importações) até à Revolução Industrial e ao comércio livre. Desde então, primeiro, numa colonização europeia dos territórios americano, africano, e parte do oriental, com apoio em navios e comboios a vapor, etc. Depois, num mundo enquadrado por organizações supranacionais, com o espaço e o tempo ainda mais comprimidos pelo avião, televisão… sob influência de empresas multinacionais. Até à actual fase que começou entre a última década do séc. XX e a primeira do séc. XXI. Encerrando o primeiro meio milénio da globalização, que teve o Ocidente como centro.
Uma nova condição foi com efeito estabelecida entre 1991 – fim da URSS – e 2001 – adesão da China à Organização Mundial do Comércio. No ano 2000 a força de trabalho nas regiões que há décadas participavam livremente da globalização montaria a 1460 mil milhões de pessoas. Mas a abertura do bloco soviético e da China, e a projecção internacional da Índia, terão trazido ao mercado de trabalho mais 1470 mil milhões. Enquanto os respectivos PIB’s per capita revelam que o capital que estas regiões trouxeram para o mercado global foi proporcionalmente diminuto. Isto é, a oferta de trabalho duplicou, enquanto o capital para o investimento pouco aumentou – segundo Richard Freeman (The Globalist, 05/03/2010), só por esta razão deverão passar uns trinta anos antes que a anterior relação de valor entre ambos se possa recompor.
Entretanto essa foi também a década das telecomunicações e dos computadores portáteis. Que permitem deslocações quase instantâneas do capital, em ajustes permanentes às melhores condições de retorno. Enquanto nem pouco mais ou menos quem tem trabalho para vender (fora da web) se pode deslocar ao mesmo ritmo.
E ainda, precisamente pela decomposição da anterior hegemonia cultural, na década seguinte acentuou-se a dificuldade de qualquer regulação internacional efectiva, depois da que se tinha verificado no meio século anterior a despeito da Guerra Fria (entre ocidentais!).
Por consequência o trabalho depreciou-se fortemente a favor do capital. Não por má-fé de quaisquer conspiradores, mas pela mútua potenciação entre a lei da procura e da oferta, as diferentes velocidades daqueles dois factores nos respectivos ajustamentos ao mercado global, e a desregulação efectiva.
Nas próximas décadas poderão pois navegar autónomas as populações cujo trabalho faculte os maiores retornos ao capital internacional, atraindo-o nas melhores condições para as primeiras. Mas afundar-se-ão aquelas outras populações cuja reduzida competitividade (e sem petróleo, gaz natural…) as condene a agradecer qualquer capital nas condições ditadas pelos investidores.
Nesse contexto, dos actuais descendentes dos antigos navegadores de quatrocentos ainda na semana passada Abebe Selassie (chefe da missão do FMI) apontou que não nos adaptámos às últimas condições da globalização. Como se percebe em The Global Competitiveness Report 2011-2012: Country Profile Highlights, WEF, p. 5 (com a parcela açoriana analisada em 2005 em Competitividade Territorial e Coesão Económica e Social, vol. 3). A nossa resposta agora recolocará Portugal no convés das novas naus, ou deixará o país, para várias gerações, no lado de fora da amurada.

in: Açoriano Oriental, 19/12/2012 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos

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