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Os agulheiros (dez. 2012)

Sobre a falência de Portugal, e dos países do sul da Europa, circulam dois tipos de explicação económica: ou gerimos os recursos de que dispusemos de forma diferente dos holandeses, checos… e obtivemos resultados correspondentemente diferentes; ou o sistema europeu está organizado de tal forma que nos atribuiu as funções de pedir e de comprar, e aos nórdicos as de emprestar e de vender.
No primeiro caso a culpa é nossa, no segundo o sistema é que está desequilibrado.
De qualquer uma destas explicações, porém, decorre que temos de mudar de práticas. Como dizem os lógicos, podemos pois eliminar aquela disjunção teórica, e concentrarmo-nos antes na questão sobre quem serão os candidatos naturais à implementação desta mudança. Mais a pequena questão decisiva sobre o que os poderá mobilizar contra práticas das quais muitos participaram, ou com que pelo menos pactuaram.
É sabido que é mais fácil mudar as orientações ou as opiniões em relação às quais se tenha tido alguma reserva. Segundo o modelo de Dan Sperber de evolução cultural que usei em Condições do Atraso do Povo Português…, os primeiros candidatos a agentes dessa mudança deverão ser assim aqueles que, apesar da pompa de tanta obra feita (sempre em betão), nunca deixaram de soltar, ainda que em privado, lamentos pela submissão ao chefe em vez do zelo pela eficácia, pela integridade do grupo acima da honestidade ou da compaixão, pelo despesismo exibicionista antes da poupança em ordem ao investimento… Concluindo com a afirmação desesperançada, “Assim não vamos lá”.
Muitos continuavam a participar dessas práticas pois estas, no país real (!), constituíam o único meio para alcançarem a casa confortável, os estudos e as actividades de lazer dos filhos, etc.
Uns quantos outros nem precisariam disso para obterem estes resultados – por alcançarem-nos em pequenas redes profissionais periféricas à ética do trabalho dominante, por terem-nos herdado… Mas pactuaram com as mesmas práticas, e ocasionalmente até participaram nelas. Talvez por ser este o meio para serem reconhecidos na sociedade, e para, em conformidade a esse estatuto social, receberem alguma identidade.
Como hoje, porém, constatam, o ramal a que nos trouxeram os carris em que labutaram retira qualquer lugar social à maior parte dos velhos e dos jovens, bem como à generalidade dos desempregados. E deixa os restantes amarrados pelo pescoço a casas desvalorizadíssimas… esvaziadas dos filhos que entretanto emigram.
Para no fim deste ramal bem provavelmente se abrir um túnel de saída desconhecida, que reservará a uns poucos – sempre os afilhados – os proveitos comparáveis aos dos nossos pares europeus, mas destinando à maioria restante a opção entre a integração sociocultural… no limiar da pobreza, senão nesta, e alguma prosperidade… mas em sociedades estranhas, e com a obrigação de sustentarem quem tenha ficado na terra.
Uma vez sedimentado tal modelo social e profissional, mais difícil será mobilizar uma massa crítica de pessoas que o altere.
Confrontando então as práticas que serviram de meios e os resultados a que elas nos trouxeram, esta é a hora para que todas aquelas pessoas escolham se continuam a apostar na velha submissão, nos velhos grupos, a aspirar ao velho consumismo exibicionista… ou se inflectem a agulha deste comboio que somos antes que ele se arrisque a entrar num túnel… de saída desconhecida.

in: Açoriano Oriental, 05/12/2012 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos.

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