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Freud revisitado (jan. 2013)

No ano 2000 a dívida externa bruta portuguesa (sobre a qual se calculam os juros a pagar) montava a 123% do nosso PIB, e a líquida (o que devíamos menos o que nos deviam) a 40%. Em 2004, os valores percentuais eram respectivamente 165% e 63%. Para em 2010 esta dívida externa líquida ser já 108% do PIB, enquanto a dívida bruta chegava aos 229%. E não para se fazerem máquinas, mas sim estádios, viagens!…
Perante dados como estes lembro-me das 4 páginas que compõem Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental, publicado em 1911, e que há já meio século a Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud disponibilizou em português no seu vol. XII (online e gratuito no Scribd).
Uma vez que não se encontra uma mente colectiva, que então tanto pudesse ser sã quanto doente, possivelmente estarei a dar um salto maior do que a perna. Mas também é um facto que o fundador da psicanálise iniciou esse artigo com a frase: “Há muito tempo observamos que toda neurose tem como resultado e, portanto, provavelmente, como propósito arrancar o paciente da vida real, aliená-lo da realidade” (p. 134). Definindo depois este último conceito estrictamente em correspondência à negação dos nossos desejos imediatos – uma definição equiparável à que assumi aqui na crónica anterior. A mente humana funcionará assim segundo os princípios da realidade e do prazer.
Por exemplo, que prazer em classificar Angela Merkel como uma “assaltante” (refinado ao designá-la “a gorda”)! A negá-lo vem porém a definição do termo usado, que supõe a intromissão da pessoa assim classificada na esfera de outrem para retirar daí vantagens indevidas; quando fomos nós que pedimos aos nossos aliados que nos emprestassem dinheiro a juros melhores do que os do mercado. Arrancamo-nos pois a esta realidade quando implementamos apenas o primeiro princípio.
Os resultados a esperar de tais alienações hão-de ser naturalmente do calibre dos que os psicanalistas esperam dos “neuróticos”. A alternativa será uma concertação dos dois princípios referidos – por exemplo, em vez de se perguntar directamente se é justo, se é necessário à nossa dignidade… um Estado social alargado, perguntar-se-á antes pelos limites que a realidade financeira e a eficiência organizacional nos impõem hoje, para depois então se perguntar pelo que, no seio desses limites, será mais justo.
Perante dados como aqueles primeiros, e sem uma mente colectiva que pudesse ir concertar-se ao divã, como terapia ocorre-me a pista do ataque à virtualidade do povo português – denunciada desde os textos de António José Saraiva à música de António Variações – de “ser o que não é” ou “estar onde não se está”.
Talvez mediante o confronto entre as expectativas e os resultados de quem terá participado desta virtualidade não por estar convicto da bondade das práticas que a implementem, mas apenas como meio para o conforto material, ou algum estatuto social. Talvez estas pessoas, constatando a frustração destas expectativas, comecem a alterar as suas práticas, e constituam a massa crítica social suficiente para uma evolução realista da nossa cultura. Com as devidas consequências políticas, económicas e sociais. “Talvez”… mas desistir de qualquer terapia será simplesmente rendermo-nos à alienação.

in: Açoriano Oriental, 23/01/2013 - série "Novas conferências do Casino", em desenvolvimento do ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos.

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